Em 2005, a Metal Hammer revelou a história de um dos álbuns mais influentes de todos os tempos. Um conto de garrafas e Beatles.... Judas Priest: a criação de “British Steel”

Em 2005, a Metal Hammer revelou a história de um dos álbuns mais influentes de todos os tempos. Um conto de garrafas e Beatles.

Corria 1980, um dos anos mais importantes da história do metal. A NWOBHM começou com o lançamento dos álbuns de estreia de Iron Maiden e Def Leppard e dois clássicos dos Saxon. Os AC/DC ofereceram-nos “Back In Black”, os Motörhead deram-nos “Ace Of Spades” e os Black Sabbath apareceram com “Heaven And Hell”. E alguém teve a ideia de organizar um festival em Donington Park, chamado Monsters Of Rock, começando uma lenda que ainda existe. Com todos estes marcos, havia um álbum intitulado “British Steel”, dos Judas Priest, que de várias maneiras definia o estilo, o som e a imagem do metal como o conhecemos hoje.

O guitarrista KK Downing refere-se a ele como o Álbum do Povo. E o processo de gravação incluiu garrafas de leite partidas, um taco de bilhar e uma gaveta de talheres. E havia a história de que as fitas do álbum foram roubadas e mantidas sob resgate.

«Acho que foi aqui que encontrámos a nossa direcção», diz o vocalista Rob Halford, recordando esse período glorioso da história de Priest. «Até àquele momento, apesar de nos termos saído bem, havia um sentimento na banda de que realmente não tínhamos um foco adequado.»

Os Priest haviam começado em 1969, apesar de se terem estabelecido cinco anos depois. Por essa altura, a formação foi cimentada com Rob Halford (voz), Glenn Tipton e KK Downing (guitarras) e Ian Hill (baixo). Para o álbum de estreia “Rocka Rolla” (lançado em 1974) tinham John Hinch na bateria. Mas, no estilo clássico dos Spinal Tap, a banda teria uma sucessão de bateristas nos próximos anos antes de Dave Holland chegar em 1979.

O primeiro álbum clássico dos Priest, “Sad Wings Of Destiny”, de 1976, seria o último pelo selo independente Gull. Um acordo com a CBS originou um passo significativo para Priest. Cada um dos três álbuns seguintes – “Sin After Sin” (1977), “Stained Class” e “The Killing Machine” (ambos em 1978; “The Killing Machine” intitulou-se “Hell Bent For Leather” na América) – viu a banda tornar-se cada vez mais popular. Em 1979 chegaram ao Top 20 do Reino Unido com “Take On The World”. No mesmo ano, o live “Unleashed In The East” deu aos Priest o seu primeiro álbum no Top 10 dos melhores na Grã-Bretanha e finalmente alcançou o Top 100 na América.

«Acho que os Judas Priest estavam prontos para o grande avanço nos Estados Unidos», diz o produtor Tom Allom, que trabalhou pela primeira vez com a banda no álbum “Unleashed In The East”. «Eles construíram constantemente a sua base seguidores, e o que precisavam, na verdade, era de um álbum comercial.»

A banda decidiu trabalhar com Tom Allom novamente no álbum de estúdio seguinte.

«Conhecemos o Tom alguns anos antes, mas recusámos a hipótese de trabalhar com ele, porque pensávamos que era muito chique!», recorda Tipton com uma risada.

«O Tom realmente era um óptimo homem de se conviver», acrescenta o guitarrista Downing. «Ele também sabia como fazer a festa. Houve muitas noites em que tínhamos de o levar para casa e metê-lo na cama!»

Então, os Priest e o seu novo produtor foram para Tittenhurst Park, uma propriedade de 72 acres perto de Ascot, em Berkshire. Na altura pertencia ao ex-baterista dos Beatles, Ringo Starr, que o comprou a John Lennon em 1973. Este último havia construído o Ascot Sound Studios, e Ringo renomeou-o como Startling Studios. Foi aqui que os Priest e Allom misturaram “Unleashed In The East” em 1979, e, mais tarde, no mesmo ano, este último trabalhou no estúdio com Def Leppard no seu álbum de estreia, “On Through The Night”.

«O Ringo não estava lá no momento em que nós estávamos. Ele conheceu a actriz Barbara Bach, sua futura esposa, e foi para Los Angeles para ficar com ela», conta Rob. «E a então esposa de Ringo, Maureen, também foi embora. Portanto, tínhamos o lugar totalmente para nós.»

«Mas o Ringo não arriscava», ri Downing. «Ele tirou todos os objectos de valor e também estabeleceu regras. Não se podia andar de bicicleta – então fizemos isso. Também não se podia pescar no lago – então fizemos isso também! O que esperas de uma banda de heavy metal Brummie? Ele também tinha dois dinossauros de papier-mâché escondidos – eram enormes. E quando voltávamos bêbados do bar, eles podiam realmente assustar-nos!»

Embora Startling fosse um estúdio mais do que decente, os Priest decidiram que preferiam o ambiente da casa sem si quando se tratava de gravar.

«Pusemos cada membro numa sala diferente e funcionou muito bem», diz Allom. «Acho que o KK estava na sala com o famoso piano branco, aquele que vês o Lennon tocar no vídeo da “Imagine”.»

«Por alguma razão, o equipamento de gravação ficava numa pequena sala atrás da cozinha», acrescenta Halford. «Não sei por que é que esse local foi escolhido, mas funcionou suficientemente bem.»

Os Priest também tomaram a decisão de entrar no estúdio sem ter tudo composto e pronto – algo que nunca haviam feito.

«Não me lembro por que é que escolhemos fazer isso assim», confessa Tipton. «Nunca o fizemos no passado e nunca mais trabalhámos assim. Tínhamos cerca de 60% das músicas escritas e prontas para começar. Sei que “The Rage” foi escrita no estúdio, e “Living After Midnight” também.»

«Há uma história por detrás de “Living After Midnight”», revela Downing. «Certa noite, o Glenn e eu estávamos a trabalhar algumas ideias de guitarra, quando, de repente, o Rob apareceu de roupão. ‘Importam-se?’, disse ele. ‘Alguns de nós estão a tentar dormir. Já passa da meia-noite.’ É daí que a música vem.»

Enquanto a banda estava ocupada a gravar e a escrever, o processo em si era relativamente suave, com poucos sinais de pressão externa.

«Sentimo-nos confortáveis ​​com tudo isso», diz Ian Hill. «Havia uma disciplina real no estúdio e nenhum sentimento de pânico. A coisa toda acabou sem problemas.»

«Ficámos no estúdio durante exactamente um mês», acrescenta Allom. «De 1 a 28 de Fevereiro.»

Os Priest também tinham que ser inventivos para obter certos efeitos sonoros. Por exemplo, o que se ouve no final da “Rapid Fire”, que aparece como uma foice a cortar o ar, é na verdade um taco de bilhar brandido pelo vocalista. E o som de robôs a marchar em “Metal Gods” é … talheres!

«Não havia samples naqueles dias», lembra Halford. «Então, as bandas tinham que ser muito mais imaginativas. Muitas vezes sinto pena dos jovens músicos de agora, porque têm tudo ao seu alcance. Esse tipo de coisas podem atrapalhar a criatividade.»

«O que fizemos para a “Metal Gods” foi carregar uma gaveta com talheres», diz Tipton, com a cara séria. «Então, sacudimos e tirámos colheres e facas até acertarmos. Foi tentativa e erro, mas no final valeu a pena.»

Mas isto não é o fim da inovação. Para a música “Breaking The Law”, o som de vidro partido foi gerado por… «garrafas de leite!», continua o guitarrista. «Pegámos num monte delas, partimo-las e gravámos. Teve o impacto desejado. Mas o som das sirenes é real. Saímos e gravámos um carro da polícia que passava – ou, pelo menos, é essa a minha recordação dos acontecimento!»

Há uma sugestão alternativa de como o efeito de sirene foi gerado, nomeadamente através de KK com a sua guitarra, usando a barra whammy. No entanto, até o próprio guitarrista não se consegue lembrar se esse é o caso.

«Acho que tentámos muitas coisas diferentes, como uma porta a bater para o início da “Metal Gods” e até colocar lâmpadas no microondas», explica Downing, «mas não sei se alguma dessas coisas acabou por ser usada».

O álbum foi terminado num mês e apenas dois dias depois estava em Nova Iorque a ser masterizado.

«Fui directo do Tittenhurst Park para o Morgan Studios, em Londres, sem dormir para ter isto feito», suspira Allom, «e depois voei para Nova Iorque para a masterização».

Foi nesse momento que surgiu uma notícia na imprensa de que as fitas do álbum tinham sido roubadas por um gangue em Nova Iorque e estavam mantidas sob resgate. De acordo com este comunicado, os Priest pagaram 50.000 libras para recuperar essas fitas insubstituíveis. Mas tudo acabou por ser uma farsa fabricada pelo publicitário da banda na época, um Tony Brainsby, conhecido por plantar histórias sensacionais – e totalmente falsas – em nome dos seus clientes.

Na época, Downing insistiu que nem a banda nem o agenciamento tinham uma pista sobre a notícia ter sido enviada por Tony.

«Isso é uma merda!», disse. «E realmente embaraçoso. Se soubéssemos o que o Tony estava a planear, teríamos dito para não fazer isso. Judas Priest não precisa de publicidade tão barata. A nossa música é o que nos faz ficar de pé ou cair.»

Embora o comunicado de imprensa da época estivesse cheio de imprecisões factuais – incluindo a alegação de que o álbum foi gravado em França -, uma coisa que resultou foi que o álbum ainda não tinha título. Mas isso mudou rapidamente, com Ian Hill a inventar o que se tornou um título icónico, “British Steel”.

«Pensei que isso representava tudo o que estávamos a tentar fazer», diz o baixista. «Éramos muito britânicos no som, e o título surgiu-me. Acho que os trabalhadores da British Steel Corporation [que era a empresa nacionalizada que produzia aço na época] estavam em greve, então o nome estava no noticiário.»

«Quando o Ian apresentou “British Steel”, pensámos: ‘Será realmente adequado para o álbum?’», admite Halford, enquanto explica a escolha. «Mas quanto mais o tempo passava, mais parecia apropriado.»

Tipton, que trabalhava na British Steel Corporation há cinco anos, recorda que a banda não tinha um título alternativo para o álbum. «Nunca pensámos sobre isso. E quando o design da capa do álbum apareceu [por Roslav Szaybo], fez sentido. Esse artwork deu mesmo vida à coisa toda.»

«Lembro-me da mão que segurava a lâmina de barbear e, nalguns países, pensaram que era ofensivo porque parecia estar a cortar os dedos, por isso retocaram para que se estivesse apenas a segurar a lâmina de barbear, sobre o qual dissemos, ‘não, não gostamos disso – tem de ter o dedo cortado’.»

Hoje em dia, porém, Downing tem um título alternativo em mente, que se encaixa no estilo e na atitude do disco. «Surgiu-me certa noite: “Sermons For The Teenage Rebel”. Olhas para alguns dos títulos das músicas – “Breaking The Law”, “You Don’t Have To Be Old To Be Wise”, “The Rage” – e têm um toque real de angústia juvenil. É por isso que acredito que o que fizemos foi um álbum de pessoas – contou a sua história. Todos, na época, pensavam que os punks eram os verdadeiros agitadores, mas lançámos um álbum que, liricamente, estava mais em sintonia com o que os miúdos pensavam nas ruas do que qualquer outro punk!»

Embora a banda não tenha dúvidas de que gravou algo forte, o mesmo aconteceu com a gravadora. Howard Thompson, que era o homem de A&R que trabalhava de perto com os Priest, estava convencido de que eles estiveram bem. «Achei que “Living After Midnight” soou a sucesso no minuto em que ouvi e também gostei de “Breaking The Law”. Quero dizer, como não? Acho que seria justo dizer que Tom Allom teve um papel importante no sucesso. Ele foi capaz de se apresentar – muito eficazmente – nas frentes pesadas e comerciais. A banda era sólida, de fácil trato, educada, mas reticente. Como muitos músicos, eles não estavam muito interessados ​​em interagir com o tipo da editora. Mas fizeram o que precisavam de fazer – lançaram um óptimo álbum – para estabelecer um respeito mútuo e tranquilo.»

“Living After Midnight” foi lançado como o primeiro single do álbum em Março de 1980. Chegou ao número 12 nas tabelas do Reino Unido, acompanhado por um vídeo promocional, dirigido por Julien Temple e filmado em Sheffield City Hall. Temple também dirigiu o vídeo de “Breaking The Law”, filmado numa filial do Barclays Bank em Londres. Na era pré-MTV, essas coisas ainda eram muito raras.

«Trabalhei com os Sex Pistols e depois ninguém me contactou», relembra Julien. «Mas os Judas Priest não pareciam importar-se, e acabei por trabalhar bastante com eles. Inventei as histórias de “Breaking The Law” e “Living After Midnight”, andando por aí a ouvi-los num Walkman antigo, enquanto fumava um cigarro. Sempre considerei a banda uma cena de comédia, e, no fundo, eles também. Certamente rimo-nos muito no set!»

“British Steel” foi lançado em Abril de 1980, alcançando o número quatro no Reino Unido (o álbum com a maior pontuação que a banda jamais teria na Grã-Bretanha) e chegando ao número 34 nos Estados Unidos. A reacção foi imediata – os Priest tinham apresentado um recorde absolutamente assombroso.

«Na altura sabíamos que era bom, mas não como seria especial», admite Tipton. «Simplesmente não se percebe quando se está no meio do processo em que tens um clássico. Só mais tarde, quando toda a gente te disser… É quando realmente atinges.»

Halford não tem dúvidas de que um dos principais elementos que o faz destacar-se é a produção. «Acho que, como com todos os melhores álbuns, há uma sensação atemporal. Ouves o primeiro álbum dos Black Sabbath ou o “Led Zeppelin II”, ou qualquer um dos maravilhosos discos dos Pink Floyd, e não pertencem apenas a uma época. Se eu tivesse uma máquina do tempo, poderia pegar no “British Steel” para trás ou para a frente, tocá-lo para as pessoas e elas sentiriam que lhes pertencia. Essa é a razão pela qual tantos grandes nomes do metal dizem que foram influenciados por ele.»

Um deles é inquestionavelmente Scott Ian, dos Anthrax, para quem este foi um lançamento marcante. «”British Steel” foi uma grande influência e precursora daquilo em que os quatro grandes do thrash americano se tornariam», explica. «É um daqueles discos perfeitos no momento perfeito. Partindo de onde eles pararam no álbum anterior, os Priest rebentaram com músicas incríveis, como “Rapid Fire” e “Steeler”, e estabeleceram a fasquia – que já haviam estabelecido muito alto – ainda mais. A energia geral desse disco é diferente de qualquer outro dos Priest; as faixas saltam literalmente do disco para os meus ouvidos, todas conduzidas pelos riffs icónicos de Tipton e Downing e pelos vocais insanos de Halford. Em 1980, era state of the art e hoje mantém-se absolutamente assim.»

Os Priest iniciaram a digressão de “British Steel” no Reino Unido e na Europa continental no início de Março de 1980, suportada pelo nome do metal que mais crescia na época… Iron Maiden!

«Ainda penso nessa digressão e fico arrepiado», ri Halford. «Consegues imaginar – Judas Priest e Iron Maiden em digressão juntos? É uma das melhores tours de todos os tempos!»

Nos Estados Unidos, a banda fez uma digressão com Def Leppard e Scorpions, regressando à Grã-Bretanha a 16 de Agosto para tocar no primeiro Monsters Of Rock Festival em Donington – a seguir aos Rainbow no cartaz. Num ano em que tanta história foi feita, os Judas Priest estavam mesmo no epicentro.

Em 2009, a banda revisitou “British Steel”, tocando o álbum na íntegra numa tour pelos EUA. Uma reedição do álbum inclui um DVD e um CD ao vivo, filmados e gravados na Seminole Hard Rock Arena em Hollywood, Flórida, a 17 de Agosto de 2009. Também está disponível como edição especial em vinil.

«Ser capaz de fazer algo assim foi uma experiência fantástica», diz Hill. «Somos uma banda que gosta de fazer coisas que nunca se experimentaram antes, e fazer todo um álbum era novo para nós.»

«Uma coisa que se fez foi garantir que não houvesse discussões sobre o alinhamento!», acrescenta Downing com um sorriso.

Então, onde é que a banda acredita que este álbum se destaca em todo o catálogo dos Judas Priest?

«Bem no topo», insiste Halford, algo com o qual o resto da banda concorda plenamente.

E com o número de bandas – novas e antigas – que continuam a citar a sua sonoridade seminal como inspiração, é difícil argumentar com essa visão. Continua a ser um dos maiores álbuns de heavy metal de todos os tempos – definindo tanto a época quanto o género. Onde estaria o metal sem “British Steel”? Uma obra-prima atemporal.

Consultar artigo original em inglês.