A programação de Ihsahn para 2020 já estava delineada, mas este é um ano anormal. De repente, uma pandemia assolou o mundo e tornámo-nos... Ihsahn: «Nunca quis ser unidimensional como a imagem do black metal»
Foto: Bjørn Tore Moen

A programação de Ihsahn para 2020 já estava delineada, mas este é um ano anormal. De repente, uma pandemia assolou o mundo e tornámo-nos seres receosos e confinados – talvez a música, os livros e as séries nunca tenham sido tão necessários como agora. Mas de volta à primeira frase, em Fevereiro passado, o norueguês lançou o EP “Telemark”, um registo em que evocou o seu lado black metal e mais ortodoxo em contraste com “Pharos”, que vê o músico a explorar as suas facetas mais experimentais e leves. «Onde “Telemark” era sobre o familiar e a aproximação de casa, “Pharos” toma uma perspectiva distante e uma mentalidade mais exploratória», diz o músico através da Candlelight Records.

Gravado no seu estúdio caseiro, com bateria de Tobias Solbakk, “Pharos” foi captado antes de uma quarentena que alterou todas as percepções, e, por coincidência, as três novas músicas tratam de mudanças sociais. Segundo Ihsahn, “Losing Altitude” «é sobre escolhas, o que vale a pena segurar e o que te está a fazer peso», “Spectre at the Feast”, com uma sensibilidade pop à Ulver, descreve «a perspectiva de uma mosca na parede sobre os aspectos algo superficiais da sociedade e todos os seus problemas e fragilidades ficcionais». Quanto ao tema-título, que é mais estruturado e arrojado do que os anteriores, com algum jazz e sentido noir pelo meio, faz-nos vislumbrar a imagem de um farol «à procura de orientação, direcção, objectivos e esperança», como descreve Ihsahn. «O potencial de se ser um farol – o quê e quem irás atrair à tua costa», diz.

Ihsahn tinha mesmo tudo pronto para 2020. Mentor de uma das bandas mais influentes do black metal, os Emperor, o nórdico, no seu empreendimento a solo, já fez praticamente de tudo: do metal extremo ao jazz e ao synthpop. «Durante vários anos, senti que devia fazer algo puramente black metal novamente», conta. «Contudo, sentir-me-ia muito limitado a isso na forma de um álbum. E depois iria querer uma saída para o oposto. Já fiz a cena black metal no passado, mas também não sou um artista pop. Penso que ser-me-ia difícil encher um álbum nesse formato. Isto tem sido um desafio, o de me limitar a uma certa expressão.»

Igualmente desafiante, mas já delineada, estava a ideia para as apresentações ao vivo, conforme conta: «O plano era apresentar “Telemark” pelo Verão e focar-me nas minhas raízes black metal. E depois, em contraparte, queria fazer um espectáculo diferente com o lado mais meloso e experimental do que faço, tentando ligar as duas formas.»

«“Pharos” toma uma perspectiva distante e uma mentalidade mais exploratória.»

Ihsahn

Como no EP anterior, Ihsahn voltou a completar o alinhamento com covers. Se em “Telemark” optou por algo mais heavy metal e rock n’ roll, com Iron Maiden e Lenny Kravitz, de modo a que o conceito pesado fizesse mais sentido, agora, em “Pharos”, escolheu “Roads” (Portishead) e “Mannhattan Skyline”, dos compatriotas A-Ha. Assim, enquanto na primeira lhe dá uma roupagem mais orgânica e menos digital, na segunda envolve o tema com mais atmosfera.

«Estava muito ansioso quanto a isso», confessa sobre a reinterpretação de “Roads”, «porque o que penso que faz Portishead ser tão mágico é a sua música ser tão negra e críptica». «Foi um enorme desafio, mas eu gosto tanto da música. É uma experiência de aprendizagem, para explorar como os artistas que admiras pensam e formam a sua abordagem.»

Quanto à roupagem que deu a “Mannhattan Skyline”, explica: «Há algumas pitadas de A-Ha mesmo no segundo álbum de Emperor!» Desta é que ninguém estava à espera. «Nunca quis ser unidimensional como a imagem do black metal. Quando fiz 40 anos, parei de me importar, mas se começas a tocar black metal aos 16 anos, dificilmente é porque queres ser o favorito de alguém.»

A lançar EPs pela primeira vez numa carreira a solo que iniciou em 2006 com “The Adversary”, atingindo um primeiro maior reconhecimento com “angL” em 2008, Ihsahn cruza agora dois mundos com “Telemark” e “Pharos”. O primeiro será assim indicado para os fãs mais ortodoxos, enquanto o segundo apelará aos seguidores menos extremos – e é isto que faz de Ihsahn um criador ímpar e sem medo de arriscar, mesmo que depois dos 40 anos.

O EP “Pharos” tem data de lançamento a 11 de Setembro de 2020 pela Candlelight Records.