Com a reedição de “Sin/Pecado”, o vocalista dos Moonspell fala sobre a forma como vê a nostalgia, a maneira como se ouvia música, a... Fernando Ribeiro (Moonspell) sobre “Sin/Pecado”: «Tenho saudades de como se ouvia música, era uma maneira mais descomprometida»

Com a reedição de “Sin/Pecado”, o vocalista dos Moonspell fala sobre a forma como vê a nostalgia, a maneira como se ouvia música, a sua voz ao serviço da banda e o projecto solidário europeu que foi engolido pela economia.

Foto: João Correia

Ao telefone desde Viena, já que os Moonspell estavam nessa altura embarcados na extensa digressão de 50 datas que percorreu a Europa neste final de 2019 com Rotting Christ, Fernando Ribeiro ofereceu-nos um pouco do seu tempo para falar de “Sin/Pecado”, álbum lançado em 1998 que é agora reeditado em vinil. Cerca de 20 anos depois, quisemos saber se o vocalista dos Moonspell recorda esse passado com uma nostalgia positiva por tudo o que fizeram naquela altura, com saudade dos tempos mais jovens que já não voltam ou com um misto dos dois. O vocalista fala em saudades da forma descomprometida de como se ouvia música.

«Pessoalmente não tenho saudades nenhumas daquela altura. Foi uma altura que passou. Só tenho saudades de como se ouvia música, era uma maneira muito mais descomprometida, as pessoas gostavam ou não gostavam – acho que isso é, sem dúvida, a maneira ainda boa de ouvir música, seja em 1996, em 98 ou em 2019. Tenho pena que isso tenha, de alguma forma, desaparecido, ou pelo menos se tenha tornado numa coisa diferente, para pior. Claro que a nostalgia… Perguntam-me muito isso. A nostalgia não tem nada a ver com os Moonspell. Nós tínhamos um projecto musical, umas ideias na altura, como agora – isso não mudou, fomos experimentando. Mas o que as pessoas têm saudades não é do “Irreligious”, nem do “Sin”, nem do “Wolfheart”; as pessoas têm saudades de ser novas e têm saudades daquela altura em que tudo lhes corria bem, em que podiam apanhar uma bebedeira e ao outro dia ir trabalhar. Portanto, a nostalgia é isso, não tem um grande valor, não tem muito a ver com as bandas. Acho que isso é uma forma um bocado errada, também até de, de vez em quando, se criticar as bandas, nós também envelhecemos.»

Os Moonspell ensinaram-nos que cada álbum é uma viagem muito própria, muito singular. Na verdade, todos os discos da banda são diferentes, ainda que possam existir algumas semelhanças que nos dizem logo que se trata de Moonspell, como a voz de Fernando Ribeiro. Tendo isso em conta, “Sin/Pecado” foi aquele álbum em que o tivemos a cantar sem recorrer a berros à excepção de um pequeno trecho no single “2econd Skin”. O frontman olha para a sua performance como um préstimo.

«A minha voz está ao serviço dos Moonspell, está ao serviço da música que os músicos compõem, está ao serviço das letras, está ao serviço dos ambientes. Penso que isso é bastante notório em toda a nossa discografia. Por exemplo, começando pelo último, o “1755”, foi um disco em que eu me fartei de berrar, porque a música assim o exigia, o desastre assim o exigira. O “Extinct” era um disco mais melodramático, portanto utilizei muito mais a voz melódica. O “Sin”, realmente, foi das primeiras experiências em que eu saí daquele registo meio gótico-fanhoso do “Irreligious” para abraçar, provavelmente, um registo mais complicado, mais difícil.» Referindo que foi a banda, em conjunto, que definiu essa direcção, o vocalista remata: «Nunca nada está fechado com os Moonspell. Felizmente tenho evoluído como vocalista. O “Sin” foi um passo importante para mim.»

Habituados às temáticas nocturnas, vampíricas, pagãs e alquímicas de discos como “Wolfheart” e “Irreligious”, “Sin/Pecado” apresentou, por sua vez, uma nova faceta lírica, indo ainda mais ao encontro do conceito da mulher, de uma visão europeia e, claro, de uma subversão religiosa inteligente. Com uma panóplia conceptual muitíssimo bem-conseguida naquele momento da carreira, Fernando Ribeiro dá uma resposta que detalha a sua evolução enquanto letrista sedento por novas experiências intelectuais.

«É um álbum bastante diverso liricamente. Penso que não é novidade nenhuma eu dizer que, de alguma forma, me cansei de falar daquelas coisas [sobre] cultura europeia, Mefistófeles, os lobos, os vampiros, porque penso que passei alguns anos a falar disso. E como vi que a música ia ser um bocadinho mais electrónica, mais experimental, decidi também seguir um bocado essa pista e tentar escrever sobre coisas que, na altura em 98, me preocupavam e me interessavam bastante. Uma delas era a religião, que acho que nunca deixou de ser, e acho que nunca vai deixar de ser, um assunto para os Moonspell. Andava a estudar filosofia, andava a contactar com obras que me fizeram passar um bocadinho daquela casca grossa do satanismo, do ocultismo, para uma coisa muito mais séria e que me interessa muito mais, que era o antropocentrismo, a antropologia, a filosofia, e a partir daí também começou o meu desligar das letras mais ocultas, mais satânicas por assim dizer. Acho que o “Sin” foi extremamente importante para mim enquanto letrista.» No seguimento, Fernando Ribeiro recorda um tema em concreto: «E depois há coisas curiosas, como passar por esta Europa um bocado racista e nacionalista, e eu abordar isso em 97-98 com a canção “Eurotica” – não antecipando o futuro, mas lendo, por exemplo, o projecto federalista de Immanuel Kant, que era uma coisa que a Europa não estava a fazer. Daí, com o decorrer dos anos, essa literatura tornou-se bastante actual porque temos uma Europa a várias velocidades, a várias cores, a várias tendências, onde, realmente, aquele projecto federalista, ou humanista, que presidia aos povos e tentava evitar a guerra foi completamente engolido pela economia. A “Eurotica” tornou-se uma letra até um bocado profética.»

“Sin/Pecado” foi originalmente lançado em 1998 e ganha uma nova vida com a reedição especial em vinil que podes encomendar AQUI.

A entrevista integral e em áudio pode ser ouvida abaixo.