Embora os Dream Theater tivessem passado por Portugal há relativamente pouco tempo (2017), um concerto desta banda é sempre motivo de celebração, seja por... Dream Theater (02.02.2020, Lisboa)
Foto: Tiago Cortez

Embora os Dream Theater tivessem passado por Portugal há relativamente pouco tempo (2017), um concerto desta banda é sempre motivo de celebração, seja por parte dela, seja por parte dos fãs indefectíveis que a acompanham há mais ou menos tempo. Com duas datas da digressão marcadas para Portugal, não havia desculpa para faltar a uma ou a outra. Depois, a invulgar escolha de celebrarem “Metropolis II: Scenes From A Memory”, tocando-o integralmente, e de promoverem o mais recente “Distance Over Time” simultaneamente, fez com que o interesse dos fãs fosse redobrado.

Às 20h em ponto, ouvimos a ensurdecedora saudação dos presentes aos norte-americanos, que ocuparam de imediato os seus lugares em palco. Ouviram-se os acordes iniciais de “Unthetered Angel”, tema inicial do novo registo, e a ovação subiu de tom. Por mais que as opiniões se dividissem entre os fãs, há algo em “Distance Over Time” que é transversal a todas as opiniões – é realmente o trabalho mais pesadão dos Dream Theater, porventura o mais interessante e diversificado dos últimos anos e, por outra, é quase um regresso às raízes do grupo. Em palco, a dinâmica entre LaBrie, Petrucci, Rudess e Myung via-se a intervalos, com os grandes destaques a irem para (obviamente) Petrucci e Myung. No entanto, a cada aparição de Rudess mais próxima do pit, geralmente para solar, os fãs aplaudiam com entusiasmo o mestre das teclas.

A qualidade sonora que a Metal Hammer Portugal assistiu de diversos pontos saldou-se em incrível durante as cerca de três horas de concerto – practicamente uniforme à esquerda, ao centro e à direita do palco, sem exageros ou falhas notáveis. Entre temas do novo disco, olhámos diversas vezes para o kit de percussão de Mike Mangini, que se impunha num trono de timbalões (de chão e suspensos), mas cuja principal característica residiu em manter os pratos elevadíssimos, o que é natural quando a ideia é que deles saia um som mais alto e estridente, algo que ajudou a tornar o novo disco ainda mais pesado. A comunicação entre LaBrie e o público começou pouco após “A Nightmare To Remember”, um dos muitos clássicos da noite. «Não vínhamos a Portugal há muito tempo!», disse LaBrie. «Quantos anos foram, mesmo? Três? Parece que foi há muito mais!» E aproveitou para enaltecer a beleza e gastronomia do país, algo normal vindo de quem não reside em Portugal. Seguiram-se mais dois momentos robustos de “Distance Over Time”, nomeadamente “Pale Blue Dot” e “Barstool Warrior”, temas tocados amiúde nesta digressão. Mesmo quem não estava familiarizado com o novo disco, conseguiu perceber a sua grandeza devido ao desfile dos seus melhores temas com todas as condições acima descritas.

Foto: Tiago Cortez

Houve tempo para um intervalo de cerca de quinze minutos, algo raro num concerto de metal, mas os Dream Theater não andam a quebrar barreiras há dois dias e seguem o seu caminho inigualável com segurança e criando as suas próprias regras. Após o intervalo, reparámos no enorme ecrã atrás da banda, que projectou sempre imagens alusivas aos temas. Durante a rendição de “Through Her Eyes” começaram a aparecer no ecrã animações de campas com apelidos de soldados caídos: Zappa, Peart, Mercury, Bowie, Vaughan, Emerson, Abbott… Esta homenagem poderia ter sido o nosso destaque visual durante todo o concerto, mas esse vai para “The Spirit Carries On”, altura em que um Campo Pequeno despido de luz passou a envergar um vestido de noite composto por milhares de ecrãs de telemóveis acesos. Para onde quer que nos virássemos, no público ou na plateia, assistimos a milhares e milhares de telemóveis acesos a agradecer aos mestres do metal progressivo. Foi um momento raro; na verdade, nunca tínhamos assistido a um acto tão espontâneo e que resultasse desta forma num concerto de metal.

“Finally Free” encerrou a actuação, ou assim pensávamos, mas eis que os Dream Theater regressaram para desfiarem ainda mais um tema de “Distance Over Time”, cuja escolha recaiu em “At Wit’s End”. Três horas eclipsaram-se como que em poucos minutos. Sentia-se uma satisfação geral nos presentes, dos nerds mais dedicados a discutirem técnica e teoria aos melómanos exclusivamente interessados em ouvir música, sem complicações. Houve espaço para todos, não fossem os Dream Theater um ponto de união entre fãs de estilos distintos de música, tais como metal, jazz ou rock. A análise final já nem é positiva ou negativa, mas expectável, não se tratasse de uma banda que, por associação, não consegue dar um mau concerto. O público que assistiu a esta prestação certamente concordará.

Texto: João Correia
Fotos: Tiago Cortez
Agradecimentos: Everything is New