Colegas da música, namorada e até mesmo um professor de baixo partilham as suas memórias do excepcionalmente talentoso Cliff Burton, muito amado e desaparecido... Scott Ian: «Cliff Burton era o ser humano mais original que já conheci»

Colegas da música, namorada e até mesmo um professor de baixo partilham as suas memórias do excepcionalmente talentoso Cliff Burton, muito amado e desaparecido tão cedo…

DAVE ELLEFSON
O baixista dos Megadeth tira o chapéu a Cliff pelas suas habilidades enquanto músico

«Conheci o Cliff em San Francisco durante uma das primeiras visitas dos Megadeth, e ele parecia um homem de carácter. O Cliff usou uma abordagem musical muito clássica. Visualmente, ele tornou a linha da frente dos Metallica muito forte, e numa época em que o baixo do heavy metal estava a começar a ter uma presença sem precedentes graças a Steve Harris e Lemmy, o Cliff foi um dos primeiros gajos a realmente dominar o palco. Colocar um solo de baixo num álbum de estreia é do mais corajoso, especialmente na era de estrondosos guitarristas. Ele era claramente uma força motriz nos Metallica, não apenas musicalmente, mas também devido à sua personalidade – ele teve uma presença forte sem nunca ser desagradável.
O facto de eles se mudarem para San Francisco apenas por ele estar na banda definiu o tom desde o início. Ele era um grande contraste de tudo o que a maioria de nós fazia naquela altura – ele tinha o seu próprio visual e deu uma profundidade extra à banda. A última vez que falei com o Cliff foi em New Jersey, em 1986, no concerto dos Metallica em suporte ao Ozzy. Falei com o Cliff sobre composição. O que o Cliff fazia no baixo era muito diferente do que os outros três faziam, e foi isso que o tornou tão importante. Ele trouxe uma dinâmica aos Metallica que poderiam não ter tido sem ele.»

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SCOTT IAN
O colega thrash titã de Cliff recorda um verdadeiro irmão no heavy metal

«Conheci o Cliff no Music Building em Jamaica, Queens, no final de 1982. Tínhamos lá uma sala de ensaios e os Metallica estavam lá para gravar o “Kill ‘Em All”. Eles não sabiam que iriam dormir num quarto que era um apartamento ocupado num prédio antigo merdoso. A minha primeira impressão do Cliff foi que parecia que ele devia estar nos Lynyrd Skynyrd e acho que lhe perguntei onde é que arranjava calças à boca de sino tão largas em 1982. Dito isto, rapidamente nos demos bem. Ele tinha um grande sentido de humor e era absolutamente o ser humano mais original que já conheci. Eles eram todos muito diferentes como pessoas, mas, no contexto de banda, eles eram como um só. As suas almas mostravam-se em cada riff. O Cliff era o mais musical, ele falava através das suas ideias. Ele tinha uma atitude e um estilo indiferente e lacónico, nada anti-social, apenas a sua própria visão das coisas era intransigente.
Lembro-me de sermos detidos em Londres, em Março de 1984, numa estação de metro por suspeita de termos drogas. Passámos as seis horas seguintes em celas enquanto eles testavam o medicamento da constipação que encontraram no casaco do Cliff. A polícia levou o Cliff de volta ao apartamento para o revistar. Sentei-me na minha cela, de roupa interior, a pensar que estávamos perdidos, visões do “Midnight Express” a passarem-me pela cabeça porque havia erva no apartamento. Os deuses do metal estavam a cuidar de nós naquele dia, a polícia não a encontrou.»

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STEVE DOHERTY
O professor de baixo de Cliff recorda o miúdo que ensinou em ’77…

«O Cliff era um novato quando começou comigo, devia ter 16 ou 17 anos. Ele estudava comigo às quartas-feiras à tarde na ABC Music, uma pequena loja de música em Castro Valley. Do que mais me lembro é que ele vinha sempre preparado para a aula. Ele tinha muita disciplina. O Cliff fez um esforço para aprender a ler a notação padrão – apenas uma das razões pelas quais ele estava acima da média como estudante de baixo. Estudámos cenas barrocas como Bach. Falávamos sobre acordes e melodias, e como as progressões de acordes se encaixam. Também analisávamos os diferentes tempos – o que não fiz com muitos alunos, mas o Cliff gostava muito disso. Fazíamos 3⁄4 e 6⁄8, e também 5⁄4 e 7⁄8 – e mais tarde, quando ouvi a música que ele tinha seguido, não me surpreendeu, porque algumas delas pareciam muito familiares! Não ao ponto de ser uma cópia, mas fiquei satisfeito ao ver como ele pegou naquelas coisas em que trabalhámos e realmente as transformou em algo emocionante. Um exemplo específico será o que ele fez em “Orion”. A primeira vez que ouvi, pensei: ‘Sim, foi nisto que trabalhámos!’ Foi um prazer ensiná-lo e fez um progresso rápido. Posteriormente, tive alunos que sabiam do Cliff e vieram até mim porque sabem que o ensinei.»

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CORRINE LYNN
A namorada de Cliff na altura da sua morte recorda o homem por trás da lenda

«Lembro-me do Cliff sempre a dizer que os fãs e a imprensa entendiam mesmo os Metallica no Reino Unido. Ele adorava fazer digressões pela Europa. Costumava enviar-me cartas e dizia como a cerveja era boa – pelo menos quando não estava a gravar, do qual ele não gostava. O Cliff seguia o seu próprio caminho – literalmente, ele não queria saber o que as outras pessoas pensavam. Ele tinha uma autoconfiança incrível. Isso tornava-se irritante? Só quando fazia manguitos às pessoas! Ele costumava fazer isso quando estava irritado. Lembro-me que ele fez isso uma vez numa loja, quando o gajo estava a ser um idiota. Normalmente, ele era muito educado e bom falante.
Erva era como oxigénio para ele, embora não fosse um viciadão, apenas lhe dava uma dimensão extra. Não acho que houvesse muita diferença entre o Cliff mocado e o Cliff não mocado! Ele era um tipo muito relaxado, mas não te podias meter com ele, ele não era uma pessoa simples. Ele era uma estranha mistura de opostos – trabalhava no seu carro enquanto ouvia punk e depois jogava xadrez e escrevia poemas enquanto ouvia Bach. Ele dormia até muito tarde, isso deixava-me passada. Ele acordava à tarde, não conseguias acordá-lo antes disso. O Cliff ficou feliz quando o conheci. Ele tinha um excelente grupo de amigos e a sua banda estava a mexer-se.»

Consultar artigo original em inglês.