Assim que o ano de 1990 chegou e deu o tiro de partida para uma nova década, fãs de metal em todo o mundo... Pantera “Cowboys From Hell”: Domínio e Heresia

Assim que o ano de 1990 chegou e deu o tiro de partida para uma nova década, fãs de metal em todo o mundo aguardavam com expectativa os primeiros riffs que iriam abalar o mundo metálico nestes novos tempos que chegavam. Afinal de contas, as tabelas musicais eram dominadas por temas que marcaram toda uma geração, como “Pump Up the Jam”, “Nothing Compares 2 U” e “Ice Ice Baby”, e era chegada a altura de substituir a dança dos Technotronic ou a cabeça rapada da Sinéad O’Connor por alguma heresia.

Se em Julho de 1990 os metaleiros da época tivessem que apostar nas bandas que iriam assinar um novo pacto de agressão, duvidamos que os Pantera fizessem parte da lista até mesmo para aqueles que tomaram conhecimento de “Power Metal”, o disco editado dois anos antes e o primeiro com Phil Anselmo nos vocais. É normal falarmos de novos capítulos sempre que uma banda não resiste à transformação, mas “Power Metal” foi mais do que o fechar de um capítulo: foi o fim de uma história e o começo de outra completamente diferente, com a particularidade dos protagonistas serem exactamente os mesmos.

No dia 24 de Julho desse ano era então editado “Cowboys From Hell”, o quinto lançamento dos Pantera mas o primeiro desta nova história. Com o glam que até então marcara a sonoridade e o visual da banda a não ser mais do que uma memória do passado, os Pantera desafiavam o domínio do thrash metal e os sons que chegavam de Seattle. Como descrever tudo aquilo que ouvimos neste álbum para os mais desatentos? É simples. Imaginem que os Black Sabbath são uma espécie de Messias. “Cowboys From Hell” representa a segunda-vinda, com a diferença deste nosso Messias imaginário ver no cemitério um local mais apropriado para espalhar a sua mensagem escrita em sangue e servir-se da guitarra ao invés da cruz. Quanto às primeiras palavras que esta entidade anuncia ao mundo? “We’re taking over this town”. Não podia ser mais perfeito do que isto!

O impacto não foi tão imediato quanto isso, até porque “Cowboys From Hell” só viria a estrear-se nos tops dois anos depois, mas nem grandes nomes da época, como AC/DC, Metallica e Judas Priest, escaparam à excentricidade deste jovem colectivo, que com o seu groove, guitarras electrizantes e uma voz inigualável, anunciavam-se como pretendentes a um trono muito cobiçado.

“Cowboys From Hell” deu a conhecer ao mundo o poder contido num riff. Aquilo que os Metallica procuraram fazer anos mais tarde com “St. Anger”, onde privilegiaram uma abordagem mais rítmica sem os solos que fizeram do quarteto da Bay Area os dignos detentores da coroa do Big 4, teria sido possível aos Pantera sem esforço e sem terem que viver com essa pesada derrota… Se não fosse por terem em Dimebag Darrell um génio da guitarra cujas aspirações transcendiam as de um comum mortal. Do tema-título ao clássico que é “Cemetery Gates”, do breakdown e dos solos quiméricos de “Domination” à velocidade enfática de “Shattered”, e das melodias de “The Sleep” à colecção de riffs exposta em “The Art of Shredding”, “Cowboys From Hell” é um álbum perfeito que irá sempre resistir ao teste do tempo.

Porque os nossos tempos são também de mudança, importa referir que não foi só na música que membros dos Pantera ultrapassaram limites, ‘borrando’ com tons cinzentos (ou de vermelho e azul) uma pintura digna de ser admirada por gerações vindouras (perdoem-nos a expressão popular). Resta-nos esperar que tudo isto pudesse ter sido diferente se o ano de 1990 tivesse trazido o progresso que ainda hoje aguardamos.