“Psychosis Ritual” é um álbum agradavelmente nervoso, gutural e implacavelmente nebulento com um cheiro psicoactivo desenfreado que parece querer-nos saborear uma bad-trip. Mountain Tamer “Psychosis Ritual”

Editora: Heavy Psych Sounds Records
Data de lançamento: 25.09.2020
Género: heavy psych / heavy rock
Nota: 3.5/5

“Psychosis Ritual” é um álbum agradavelmente nervoso, gutural e implacavelmente nebulento com um cheiro psicoactivo desenfreado que parece querer-nos saborear uma bad-trip.

Vamos falar de títulos apropriados. A safra sazonal de lançamentos de álbuns do mês de Setembro levou-nos até “Psychosis Ritual”, a onda de calor da discografia de Mountain Tamer. Faz quase uma década desde que o trio de LA começou a lança riffs colossais das mãos, optando pelo cruzamento de medidas bem calculadas de heavy psych, stoner e doom. Neste disco, encontraram orientação no obscuro e no cabalístico, no anúncio de uma inevitável devastação que transborda para um instrumental que tem tanto de pitoresco como de sombrio. Ainda o conseguem fazer de uma forma que parece ter exigido deles quase nenhum esforço.

“Psychosis Ritual” dá-nos um punhado e meio de riffs memoráveis, lentos e difusos, que nos vêm inundar completamente num sentimento poderoso de destruição iminente, manchado de elementos psych que conseguem encaminhar as músicas para um tom ainda mais severo. A duplicação de vozes carrega as músicas com profundidade e espaço, algo que se torna perceptível logo na faixa que dá título a este álbum, em que as palavras «not in control» incham à nossa volta enquanto imitam audivelmente a queda na loucura. Tudo isto se amarra a um riff que aparece ilimitado, duro e desorientadoramente psicadélico. A preferência por uma distorção densa e saturada é consistente no decorrer deste álbum, junta ao conforto que exibem em brincar com o tempo, que aparece aqui numa imprevisibilidade constante entre o ascendente e o descendente, tão prog quanto o prog pode ser.

“Warlock”, iniciada por um riff cru e rígido, cai rapidamente no território do doom, desacelerando-se num riff incisivo e esfumaçado. Aqui, a voz de Andru Hall faz confissões de repulsa incondicional enquanto encoraja o instrumental a ferver ainda mais com uns berros estridentes, quase tribais, para se apresentar como o Ser subversivo todo-poderoso que conseguiu de facto habitar temporariamente as nossas mentes. De forma semelhante, “Death in the Woods” dá-nos as boas-vindas com o baixo extremamente áspero de David Teget, enquanto as guitarras constroem uma atmosfera refulgente para depois voltarem à instabilidade da progressão, desta vez recorrendo ao inverso com riffs mais rápidos que se contorcem em torno de uma sensação geral de groove e paixão.

Neste rasto interminável de heavy psych cerrado, encontramos uma sonoridade visceral que nos deixa perceber que os Mountain Tamer se concentraram em fazer com que estas músicas soassem a diferentes tipos de delírio. Exemplos disso são temas como “Chained” ou “Black Noise”, esta última a funcionar como uma espécie de cool-down que continua a fazer-nos suar, com a brutalidade na vibração do baixo contra a bateria de Casey Garcia a chamar pela tempestade que acaba por acontecer. Depois temos ainda a loucura que é a intro de “Scortched Earth”, em que o guinchar desorientado e aparentemente aleatório de guitarras abrem o caminho para mais distorção tempestuosa. Há um controlo imperecível na bateria, que invade a música com respostas rápidas. A voz amarga e erosiva retorna, em que o downcast abatido se deixa levar pela raiva e exige a ruína e punição de todos.

Em toda esta impetuosa e enérgica intensidade progressiva, bem como a constante revelação de riffs francamente viciantes, a voz de Hall forma uma presença de dominância em total correspondência com o tópico geralmente desmoralizante das letras. Entre a expressão desinibida de repulsa que nos leva à figura de um punidor sem pudor e a preferência ocasional pelo lado mais (comparativamente) clean e melódico quando a necessidade chama pelo acentuar da experiência mística, a voz de Hall está aqui como uma espécie de intérprete implacável do instrumental. De mencionar alguns esforços interessantes na produção, o melhor exemplo dos quais é aquilo que parece ser o bater ponderado de baquetas e aquele baixo tosco que se esgueiram atrás de nós para brincar com as nossas reacções mais primitivas no início de “Turoc Maximus Antonis” – detalhes que acrescentam à experiência do álbum e trazem o seu tema central à frente para ser genuinamente sentido.

É nesta coesão entre o instrumental, voz e as minuciosidades da produção que fazem de “Psychosis Ritual” um álbum tão agradavelmente nervoso, gutural e implacavelmente nebulento com um cheiro psicoactivo desenfreado que parece querer-nos saborear uma bad-trip. Não se trata de um disco que veio reinventar a roda – não obstante, entregaram-nos um álbum forte por se fazer sentir tão cru e ao mesmo tempo tão perfeitamente polido pela produção, em que os ouvintes ferrenhos do heavy psych e do doom se vão sentir em casa sem sentirem necessariamente que já lá estiveram. Portanto, falando de títulos apropriados: num golpe de força criativa indissolúvel, “Psychosis Ritual” nasceu para ser exatamente o que diz ser.