Entrevista aos Enslaved. Grutle Kjellson: «Agradar a um certo mercado teria sido o fim de Enslaved»
Foto: Roy Bjørge

«Utgard pode ser descrito como o reino dos sonhos.»

Grutle Kjellson sobre o conceito do álbum

Oriundos da Noruega e daquela vaga terrorífica que nos deu Mayhem, Darkthrone, Emperor e Satyricon na primeira metade dos anos 90, os Enslaved, que lançam o novo álbum “Utgard”, sempre penderam para uma faceta mais pagã e cedo enveredaram pelos caminhos do metal progressivo. Sempre atmosféricos e densos, inseridos numa dicotomia entre negritude e melodia, os noruegueses não se repetem e o novo trabalho é ainda mais amplo e livre. Em entrevista concedida à Metal Hammer Portugal, o vocalista e baixista Grutle Kjellson fala-nos de inspiração, motivação e exploração. «Acho que desde o início da nossa carreira tivemos uma abordagem bastante saudável em relação ao conceito de se fazer música. Sempre quisemos fazer a nossa música contemporânea favorita e sempre quisemos fazer algo mais do que aquilo que já tínhamos feito. Não é assim tão difícil se fores capaz de ser constantemente inspirado por música, ao ires à procura de nova música ou música antiga, ires à procura de algo que nunca tenhas ouvido e tentares abrir e ampliar os horizontes. Se fores um bando de nerds da música, inspiração não é um problema, mas a motivação também tem de estar lá. Acho que aquilo que já alcançámos deu-nos energia para continuar e para fazermos álbuns novos e interessantes. É bastante simples. Consigo apreciar bandas que estão presas a uma fórmula. Se o fizerem bem… Tens bandas que são espertas o suficiente para o fazerem bem – como Motörhead, AC/DC, por exemplo. Mas acho que não somos pacientes o suficiente ou habilidosos o suficiente para ficarmos presos a uma fórmula e para trabalharmos num enquadramento. Acho que somos mais ou menos exploradores, gostamos de explorar novos territórios, gostamos de fazer coisas diferentes, não somos pacientes, não estamos satisfeitos, queremos avançar. Acho que isso sempre foi um dos elementos-chave. Não queremos ficar presos, queremos evoluir. Já por lá passámos, já fizemos aquilo, vamos fazer outra coisa. Queremos fazer sempre algo refrescante – pelo menos quanto nós, para sermos inspirados a avançar. Se tentássemos agradar a um certo mercado ou a um certo tipo de público, isso seria o fim de Enslaved, tínhamo-nos separado há 25 anos se pensássemos assim.»

Sempre ágeis a desenharem paralelos entre a mitologia nórdica e o mundo real, desta vez os Enslaved actuam como guias de uma dimensão chamada Utgard – o reino dos sonhos e de todas as possibilidades que o nosso subconsciente é capaz de formar. O norueguês explica a importância e a paisagem deste conceito. «Sonhos são sempre uma grande inspiração, porque são muito cruciais neste conceito. Utgard pode ser descrito como o reino dos sonhos, o reino da insegurança. Fizemos um paralelo com a mitologia nórdica. Era assim que descreviam este lugar medonho, onde vivem os gigantes e os deuses não têm poder, são sempre ludibriados se lá forem interferir com os gigantes. Os gigantes e os deuses (os Aesir) representam dois lados de ti. Os Aesir são a consciência individual, o estado de se estar acordado, enquanto os gigantes que vivem em Utgard representam os sentimentos caóticos, as forças caóticas, as coisas que vives quando dormes e sonhas, algo que não consegues controlar, mas também é crucial aceitar essas forças, esses sentimentos, porque há algo aí, há criatividade e podes tirar algo positivo do caos, podes conseguir algo. É basicamente isto que o conceito de “Utgard” trata: ousar explorar-se esses lados negros – não necessariamente lado negros, mas esses lados inseguros de ti, e seres capaz de obter algo energético, para o bem ou para o mal.»

Amigos há mais de 30 anos, Grutle Kjellson e Ivar Bjørnson fundaram os Enslaved no início da década de 90, portanto o conhecimento pessoal e profissional é pleno. Quanto a “Utgard”, este 15º longa-duração começou a ganhar forma em 2018 quando Ivar pegou na guitarra acústica e os primeiros acordes foram criados de forma praticamente espontânea. Perguntámos a Grutle se o amigo continua a surpreendê-lo ou se isto é apenas mais um dia no escritório. «Ele continua a fazer algo que para mim é imprevisível. Tento constantemente alimentá-lo com inspiração, e do tipo: ‘Ouve esta banda, ouve aquela banda.’ De tempos a tempos, consigo ouvir traços disso nos riffs que ele faz e nas demos que ele faz. É sempre interessante, e nesta altura consegui mesmo sentir que o bom e velho Ivar andou a ouvir hard-rock dos 70s e coisas assim. Coisas com que eu sempre o espicacei – é bastante porreiro! E, claro, há coisas que são menos surpreendentes, como [a faixa] “Urjotun”, porque sempre partilhámos um fascínio comum por aquela cena electrónica alemã e berlinense do início dos 70s. Foi mais ou menos: ‘Ah ok! Temos uma música à Kraftwerk! Finalmente! Porreiro!’ Houve coisas que foram mesmo surpreendentes e coisas que não me surpreenderam tanto. Adoro todas as demos que ele fez para este álbum, e foi muito porreiro começar a trabalhar imediatamente e fazer os arranjos vocais. Havia muitos riffs porreiros para se trabalharem e foi tudo maleável. Não passámos muitas horas a pensar: ‘O que raio é isto? O que vamos fazer com isto?’ Ficámos inspirados para fazer os arranjos após duas passagens pelas demos, portanto foi muito porreiro!»

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“Utgard” é o título do álbum dos Enslaved com data de lançamento a 2 de Outubro de 2020 pela Nuclear Blast.