Taphophilia de MacabreTaphophilia é uma obsessão por cemitérios e funerais, e é disto que Macabre, de Mortis... História da música extrema contada em crimes e mitos

Taphophilia de Macabre
Taphophilia [do grego τάφος (túmulo) + φιλία (amizade)] é uma obsessão por cemitérios e funerais, e é disto que Macabre, de Mortis Mutilati, diz sofrer. Recorrendo aos arquivos da extinta Against (predecessora da Ultraje [2015-2019] e da Metal Hammer Portugal), o músico, aquando do lançamento de “Mélopée Funèbre” (2015), foi questionado se esta condição era metafórica ou real, respondendo que «Taphophilia não é nada metafórica». «Passo muito tempo em cemitérios, a olhar para túmulos e a questionar quem eram as pessoas que lá estão e como é que morreram… Principalmente se são crianças ou jovens como eu. É uma obsessão. Sobre [o pseudónimo artístico] Macabre: somos um só. É uma extensão da minha personalidade, a minha parte criativa.» Mas há mais: morte, erotismo e necrofilia andam de mão dada no conceito de Mortis Mutilati – no booklet de “Mélopée Funèbre” podemos encontrar a Morte a masturbar uma jovem senhora. «Morte e erotismo são dois temas pelos quais tenho obsessão. É como se estivessem a fazer um 69 na minha mente, portanto é claro que não podia evitar o ponto de vista necrófilo. Para mim, Arte é a ligação entre morte e erotismo, por isso quis dedicar um álbum a essa trindade.»

Rosa Crux e a profanação de cemitérios
Conhecidos como um dos projectos mais empreendedores da cena gótica europeia, os franceses Rosa Crux exercem a sua arte musical através de letras em latim e paisagens sonoras ritualistas que são, muitas vezes, oferecidas por instrumentos que os próprios constroem – sem esquecer o gigante órgão de sinos que os acompanha para todo o lado. Em data desconhecida foram acusados de profanação de túmulos e locais históricos de modo a obterem informações para os seus conceitos e consequentes músicas. Segundo a Wikipedia, descobriu-se que os reais profanadores eram fãs do grupo e que tinham posters de Rosa Crux em suas casas.

Drabbad, de Ofdrykkja, entra em rampage
“Acontece quando estás fodido”, escreveu um utilizador no Facebook quando os Ofdrykkja, em Fevereiro de 2014, avisaram os seus fãs que Drabbad tinha sido alvejado pela polícia e que estava no hospital. Os suecos são conhecidos no underground pelo seu metal/rock depressivo, pela auto-mutilação e sucessivos internamentos de Pessimisten (ex-Apati), e pelas experiências com drogas levadas a cabo por Drabbad (nomeadamente com ecstasy. Nesta ocorrência em concreto, Drabbad saiu à rua de faca na mão e desatou a atacar pessoas, inclusivamente polícias.

Músico tailandês assassinado por «manchar o satanismo»
O ano de 2014 tinha começado, mas Samong Traisattha (aka Avaejee) não passaria mais tempo neste mundo. O baixista/vocalista dos tailandeses Surrender Of Divinity foi assassinado em Janeiro desse ano por um fanático que, para além de detestar budistas, cristãos e muçulmanos, queria pôr termo à vida levando consigo alguém que manchasse o satanismo. O contemplado foi Avaejee, que começou o encontro com umas bebidas e acabou com dezenas de facadas no corpo. Antes da ocorrência, o criminoso terá escrito no Facebook: «Se não o matar, tenho a certeza que alguém o fará.»

Kris Angylus: acne, depressão e uma mão lesionada
Em 2007, Kris Angylus e a sua esposa Monica Dagronfly, lançavam, com o projecto The Angelic Process, o álbum “Weighing Souls With Sand”, um dos trabalhos mais aclamados do underground doom/ambient/drone. Um ano depois, o músico tiraria a própria vida, um acto envolto em obscuridade. Numa declaração proferida pela sua companheira pode ler-se que o norte-americano sempre foi considerado clinicamente deprimido e por várias vezes tentou o suicídio. Por outro lado, a medicação que tomava para contrariar a acne causava-lhe dores de estômago, o que não lhe providenciava uma vida serena, e tinha sofrido lesões graves numa mão originadas por um acidente de viação. A depressão aliada ao facto de não conseguir tocar guitarra levou Kris Angylus a pôr termo à vida em 2008.

Stalaggh usam doentes mentais como vocalistas
Com membros anónimos, Stalaggh é dos projectos dark ambient/noise mais interessantes da história da música extrema. Num artigo da Metal Injection, de 2011, é referido que o grupo, através de um contacto, raptou pacientes mentais para gravar as vozes de “Projekt Misanthropia”, e a intenção para o álbum “Vorkuta” também tem contornos fantásticos e horrendos ao mesmo tempo, pois, numa entrevista concedida à Noisey em 2013, um dos membros conta que decidiram usar os berros/gritos de crianças para o referido disco, porque têm «uma forma fascinante de gritar». Contou ainda que uma das raparigas estava em tamanho transe que começou a sangrar dos dedos por raspar com as unhas no chão. Mito urbano ou não, a História também se alimenta de lendas.

Nattramn, o mãos-de-porco
De capítulo em capítulo chegamos a Nattramn, vocalista/letrista dos suecos Silencer. Mesmo que “Death – Pierce Me” (2001) tenha, à data da publicação deste artigo, uns honrosos 70% em 27 reviews no Metal Archives, é crível que o hype à volta da banda não provenha exactamente da música, mas da insanidade (verdadeira ou não) de Nattramn. Encarcerado num hospital psiquiátrico após ter, alegadamente, tentado matar uma rapariga de cinco anos com um machado, o sueco é mais conhecido pelas suas mãos-de-porco. A sua paixão por suínos é tanta que, em 2011, lançou o livro “Coração de Porco” (original “Grishjärta”) que consiste em poemas, textos curtos e letras de músicas. As cópias existentes são assinadas pelo próprio, perguntando nós: com que mãos?

Jon Nödtveidt e o suicídio ritualista
Conhecido por ser líder dos extintos Dissection (banda que influenciou a geração seguinte, em que se inclui Watain), Jon Nödtveidt era mais do que um músico. Após “Storm of the Light’s Bane” (1995), o sueco seria condenado, em 1997, a dez anos de prisão (tendo cumprido apenas sete) por ter participado no homicídio de Josef ben Meddour. De volta à liberdade em 2004, Jon envolver-se-ia ainda mais com a Misanthropic Luciferian Order, uma seita que, com os seus escritos, influenciou o guitarrista/vocalista a compor “Reinkaos” (2006). Tiraria a própria vida a 13 de Agosto de 2006 com um tiro, mas não foi um mero suicídio. O acto terá acontecido dentro de um círculo de velas e ao lado do corpo foi encontrada uma grimória satânica (considerada a Liber Azerate), cenário que o guitarrista Set Teitan viria a tornar público quando mencionado que se podia tratar antes da Bíblia Satânica de Anton LaVey. Tratando-se de um acto programado, Jon Nödtveidt considerava que «o satanista decide a sua própria vida e morte, preferindo morrer com um sorriso nos lábios quando atinge o pico da sua vida, quando já realizou tudo (…). O satanista morre forte, não de idade, doença ou depressão, e escolhe a morte em vez da desonra! A morte é o orgasmo da vida!» (in “Metallion: The Slayer Mag Diaries”, de Jon Kristiansen)

Gorgoroth, Mayhem, Gaahl e Faust
Em 2004, os Gorgoroth passavam pela cidade polaca de Cracóvia para dar um dos concertos mais pecaminosos da história do black metal: arame farpado, figurantes nus pendurados em cruzes e cabeças de ovelha decepadas. Foram acusados de blasfémia e crueldade animal, sendo que a primeira terá tido mais força por algo tão extremo ter acontecido no país-natal de João Paulo II, Papa que exercia funções na altura. O DVD viria a ser lançado em 2008 com o título “Black Mass Kraków 2004”.
Os Mayhem também o fizeram, com cabeças de porco, mas isso, comparado com homicídios e suicídios, pode ser considerado pouco – Dead suicida-se em 1991 e Euronymous tira fotos ao cadáver originando a capa de “Dawn of the Black Hearts” (1995), e, em 1993, Varg Vikernes (Burzum) assassina Euronymous à facada.
Por sua vez, Gaahl (antigo vocalista de Gorgoroth) ficou conhecido por torturar um homem durante várias horas. A vítima chegou a afirmar que o músico começou, a certa altura, a colectar o sangue num copo.
Oriundo de outra banda seminal do black metal, Faust (ex-Emperor) não gostou de ser assediado por Magne Andreassen, um homossexual que acabaria assassinado pelo baterista em 1992.