A vida deste álbum reside na fugaz alternância entre agressivo e lenitivo, grotesco e sublime, distorção e acústico… Bedsore “Hypnagogic Hallucinations”

Editora: 20 Buck Spin
Data de lançamento: 24.07.2020
Género: death metal
Nota: 4/5

A vida deste álbum reside na fugaz alternância entre agressivo e lenitivo, grotesco e sublime, distorção e acústico…

Do underground italiano ergue-se o quarteto Bedsore que nos traz um metal fundido com o que de mais dark o heavy metal nos deu desde os anos 1980, sendo polido com rock progressivo e psicadélico. Induzir um espectro tão amplo de influências na música que criam poderia resultar em catástrofe, não fosse a habilidade dos músicos e a sagacidade exigida ao ouvinte. Ou seja, quem daqui espera uma realização seguidora de cânones, apenas encontrará fastio.

Desde há muito que as profundezas do sono têm sido tema da exploração artística ocidental, e “Hypnagogic Hallucinations” é mais um capítulo desse fascínio pela transcendência de limitações racionais ou do corpo. O título remete-nos para sensações imaginadas que se aparentam demasiado reais e a música que compõe o álbum, apesar de existir abstractamente, é também causadora de reacções quase tácteis. No império da noite, “Hypnagogic Hallucinations” acolhe-nos suavemente com a instrumental “The Gate, Disclosure (Intro)”. As primeiras notas são dadas pelas teclas (revelando-se logo a inspiração do prog rock dos anos 1970) às quais se juntam a secção rítmica, depois o órgão com as guitarras e um solo que, quase informalmente, nos deixa claro estarmos perante um sério talento melódico – mas ainda nem passaram dois minutos de música. A faixa acalma e prossegue em cadência para terminarmos o período de vigília. É apenas quando o som flui para “The Gate, Closure (Sarcoptes Obitus)” que se dá a verdadeira manifestação do que é este álbum, conforme surgem os vocais num agudo demoníaco e um riff a toda a velocidade. Este primeiro sobressalto termina tão rápido quanto começou, regressando aos ambientes de abertura, fazendo comunhão com a primeira faixa.

Após o par inicial, o álbum avança de forma caleidoscópica, com a razão a ser violentamente sacudida entre intensidades, velocidades, ambiências e texturas opostas. A vida desta música reside na fugaz alternância entre agressivo e lenitivo, grotesco e sublime, distorção e acústico… E a lista poderia continuar. Por entre todas as mesclas e na audição repetida, detecta-se alguma fragilidade estrutural, assim como a necessidade de ligações mais robustas entre os muitos extremos da jornada. Por outro lado, se a voz refractária e as guitarras altíloquas são os principais catalisadores das composições, com a combinação de teclas e sintetizadores a compor ambientes, já a bateria passa algo despercebida, embora tenha uma prestação sólida. É o baixo que arrecada maior elogio porque é insanamente delicioso, vive como um monstro escondido nas sombras, puxando os fios do subconsciente, mas que revela o seu esplendor no final de “Disembowelment Of The Souls (Tabanidae)”.

Além do single “Brains On The Tarmac”, escolhida de modo inteligente para encerrar o álbum, o auge é atingido em “At The Mountains Of Madness”, a música mais longa e que reúne toda a variedade compositiva. Uma quieta lamúria na guitarra explode repentinamente em puro death metal com riffs e linhas de baixo catatónicos que se sucedem antes de poderem ser captadas na totalidade. A secção intermédia dá ligeiras tréguas para logo conduzir ao clímax que faz estremecer cada célula de um corpo totalmente imobilizado. Mais uma vez, tudo se desvanece na calma alienação dos últimos minutos e, se laivos de consciência ainda restarem, estes questionarão o que é isto que ouvimos. Toda a exacerbação e imprevisibilidade conferem a “Hypnagogic Hallucinations” as características próprias de uma alucinação. São as estranhas misturas, de uma certa intangibilidade, que fazem esta obra íntegra, vivendo o conceito do início ao fim, pondo à prova resiliência e inconformismo.

Da lata multitude sonora que nos é apontada diariamente, o que faz com que determinada música realmente nos atinja? A resposta é individual, mas tentando encontrar convergências, será provavelmente a empatia que só a melodia e o lirismo têm a capacidade de criar, ou o desafio na criatividade que algumas manifestações artísticas conseguem trazer ao receptor. Mas este último implica assumir riscos e estar predisposto tanto à incompreensão como à rejeição. Para ambos os casos, os Bedsore revelam ter a entrega necessária naquele que é o seu primeiro LP, o que os faz dignos de mérito majorado e de ficarem no catálogo de bandas a seguir.

(Lê a entrevista AQUI)