Documentário mais recente sobre black metal, “Helvete – Historien om Norsk Black Metal” é uma produção da estação de televisão pública da Noruega e... O que aprendemos com “Helvete – Historien om Norsk Black Metal”

Documentário mais recente sobre black metal, “Helvete – Historien om Norsk Black Metal” é uma produção da estação de televisão pública da Noruega e ao longo de quase três horas regressamos ao passado, a Langhus e ao sótão onde Jørn “Necrobutcher” Stubberud (baixo) e Kjetil Esten Haraldsson Manheim (bateria) se reuniram em meados dos anos 1980 para lançarem as primeiras sementes, sob o nome Musta, para aquilo que seria Mayhem posteriormente com Øystein “Euronymous” Aarseth (guitarra), Eirik “Messiah” Norheim e Sven-Erik “Maniac” Kristiansen, os dois vocalistas de sessão que deram voz ao EP cor-de-rosa “Deathcrush” (1987).

A partir dum documentário que na realidade não nos faz descobrir nada que já não saibamos sobre o percurso do black metal norueguês se formos ávidos pesquisadores e amantes daquele ambiente e movimento, este texto não pretende recontar a história ou analisar a peça do ponto de vista de uma review. Contudo, já que a história está mais do que contada (umas vezes bem, outras vezes nem por isso), “Helvete” ensina-nos essencialmente emoções.

Sempre calmo e sereno – a idade traz destas coisas –, somos capazes de observar as várias facetas emocionais de Necrobutcher: ora nostálgico e introspectivo quando entra no sótão de Langhus, ora triste e desolado quando recorda o amigo – talvez o único em Mayhem – Per Yngve “Dead” Ohlin, icónico vocalista do grupo que se suicidou em 1991 com apenas 22 anos. Ao contrário da raiva mostrada recentemente em relação às acções de Euronymous (que resolveu fotografar o cadáver do colega), Necrobutcher prefere aqui abrir o coração de forma mais branda, revelando a mágoa que sentiu ao perder o amigo e o consequente afastamento de Mayhem (Necrobutcher exigiu que Euronymous queimasse as fotografias). Foi-se longe demais, mesmo para o fundador da banda mais extrema do planeta à época, e tal acaba por ser corroborado por outros entrevistados, como Torben Grue, baterista de Vomit que passou algum tempo em Mayhem no período entre a saída de Manheim e a entrada de Jan Axel “Hellhammer” Blomberg. Para Grue, aquilo não era o ambiente indicado para si e para Kittil Kittilsen (também de Vomit e também ingressado em Mayhem durante uns meses) – nem conseguiam sequer uma expressão malvada nas fotos.

Aprendemos que por detrás daquela juventude rebelde e anti-tudo o que era estabelecido, há pessoas de carne e osso com sentimentos, há famílias. Enquanto Euronymous se glorificava com as fotos do cadáver de Dead (chegou a enviar algumas por correio), para trás ficava uma família e um irmão mais novo – Anders Ohlin – que amava o verdadeiro Per, ou Pelle como também era conhecido. Sempre frio, como um bom nórdico, Anders está muitas vezes a uma unha de soltar uma lágrima, mas contém-se. Há saudade, mas também nojo pela forma como se instrumentalizou a imagem do irmão morto. Necrobutcher partilha do mesmo sentimento.

Fica claro, de uma vez por todas, que toda a gente percebeu que Euronymous ia destruir todo um movimento underground através dos seus pensamentos radicais que, vindo de uma família burguesa, soavam a megalomania de um homem só. Roupas claras e palavras positivas eram proibidas em território black metal, mas ninguém fez nada… Adolescentes, com 14 e 15 anos, viam ali, em Euronymous, um padrinho, um exemplo a obedecer e a seguir. Quem nunca?

Correu mal, como bem sabemos, quando outra personagem entra em acção: Kristian Vikernes ou Varg Vikernes ou Count Grishnackh ou simplesmente Count. Oriundo de Bergen, Varg não só ajudou a cimentar o estilo com Burzum como fez parte da sua destruição – os incêndios a igrejas, a ida à imprensa (ver documentário “Satan Rir Media”) e o homicídio de Euronymous em 1993 puseram a Noruega em sobressalto, e a vida (física e intelectual) de todo aquele círculo do subterrâneo estava em perigo. Ninguém falava, mas todos sabiam. E é aqui que o documentário não vai tão fundo – ninguém abre a boca para dizer uma palavra maligna que seja sobre Varg Vikernes (que não participou no documentário) e Euronymous é indirectamente tratado como alguém que já não importava. Fica em aberto o porquê desta opção – por certo não será por medo de Varg Vikernes resolver fazer um rant nos seus canais na Internet, mas talvez por ter sido um momento trágico para a Noruega enquanto sociedade e para os próprios integrantes daquele perigoso nicho, algo que, longe como estamos, não estejamos realmente aptos para perceber o verdadeiro impacto. Todavia, há emoções, só que em vez de luto, como se viu sobre Dead, encontramos uma perplexidade paradoxal, algures entre o ‘a sério?’ e o ‘já estava à espera disto’. Acima de tudo, parece haver indiferença.

Aprendemos que Maniac sabe rir e que Attila Csihar sabe dar abraços no momento em que regressa ao histórico Grieg Hall, local improvável onde se gravou “De Mysteriis Dom Sathanas” com um produtor, de nome Pytten, também ele improvável, que nos providenciou a forma como o black metal pode soar atmosférico e grandioso. Aprendemos que sem Snorre “Blackthorn” Ruch talvez não houvesse temas como “Freezing Moon” e que os seus pares exigem que o membro de Thorns tenha mais mérito do que aquele que se lhe reconhece.

No fim, fica a noção, já instalada globalmente, de que o black metal pertence à História da Noruega, com vinis de Darkthrone expostos no museu nacional, e que as pazes deverão estar feitas com a nação. Fica a noção de que os homens crescem e que nem tudo devia ter acontecido como aconteceu, mas é este o percurso da vida de todos nós – tortuoso e incauto – e do próprio black metal. Se não fosse assim, por mais obscuro e criminoso que possa ter sido, a magia (provavelmente, uma má palavra para se aplicar aqui) não perduraria tantos anos.

E não há ninguém melhor do que Necrobutcher para rematar mais um capítulo que continua em aberto: «É tão bom quando tens tanto poder contra ti durante vários anos e no fim chegas ao topo. Acho que as pessoas percebem quão delicioso é isso, por sermos capazes de ter os dois pés assentes na Terra com a mente de certa forma intacta e, esperançosamente, termos mais uns bons 40 anos pela frente para o desfrutar. Não houve muita diversão nos últimos 25 anos. Quem se está a rir agora?»

Na descrição do vídeo há um link para download do documentário com legendas em inglês.