Uma obra extremamente opaca e enigmática na qual o intrincado do inconsciente dialoga com o cosmos, em que a linguística, a... Inferno “Paradeigma (Phosphenes of Aphotic Eternity)”

Editora: Debemur Morti Productions
Data de lançamento: 07.05.2021
Género: black metal
Nota: 4/5

Uma obra extremamente opaca e enigmática na qual o intrincado do inconsciente dialoga com o cosmos, em que a linguística, a estética e a psicologia se interligam através de uma alquimia obscura e etérea.

Inferno, um dos mais ilustres exemplos de black metal do leste europeu, representa bem o que foi a evolução do género nos últimos 25 anos. Iniciando-se com uma expressão de carácter mais tradicional, a música desta banda transformou-se incrivelmente com o lançamento de “Omniabsence Filled by His Greatness” (2013). O guitarrista Ska-Gul, que entrou na banda uns poucos anos antes, passou a assumir protagonismo na composição, conduzindo o som para uma vertente mais experimental. Em 2017 presenteou-nos com “Gnosis Kardias (of Transcension and Involution)”, um álbum majestoso e com o qual a banda provou estar lado-a-lado com as mais interessantes do sempre em expansão universo do black metal.

“Paradeigma” é também um trabalho soberbo, mas enganou-se quem acreditou que o grupo seguiria por um caminho seguro e alinhado com o seu precedente. Normalmente, quando uma banda desta natureza publica algum tipo de manifesto a acompanhar um álbum – como o vídeo em que falam dos conceitos sobre os quais o álbum se desenvolveu – é certamente porque o tema, mais do que complexo ou profundo, é relevante. O vídeo menciona vários autores (de Georges Bataille a Humberto Eco), passando pelos filósofos gregos, mas destacam-se como maiores influências “The Cosmos as Self-Creation” do escritor checo Michal Ajvaz, “Time Reborn” de Lee Smolin e, especialmente, “The Red Book” de Carl Jung.

Segundo a banda, o álbum reflecte «visões abstractas de correntes semi-líquidas movendo-se dentro de uma vasta estrutura ontológica, onde camadas individuais interagem numa dinâmica cósmica incessante». Quando comparado com o álbum anterior, a música de “Paradeigma” é muito mais abstracta e paradoxal, algo muito único, e que apenas agradará a alguns palatos. As vozes estão totalmente embrenhadas na wall of sound, sendo tratadas como mais um instrumento utilizado na construção dos ambientes. E até as guitarras, que tiveram especial impacto em “Gnosis Kardias”, têm aqui as suas múltiplas camadas e tons fundidos com o todo. Claro que têm os seus momentos de destaque, assim como o brutal ataque no kit da bateria, mas o que impera são as interligações entre as partes – o todo. A produção, a cargo de Stephen Lockhart, acentuou estas características – ou seja, este álbum tem um sentido muito mais atmosférico e psicadélico. Mesmo assim, as guitarras mereciam mais destaque pois fica aquela sensação de que perdemos alguns dos seus detalhes.

As composições mantiveram-se como belas bestas indomáveis, de dinâmicas imprevisíveis e com a dissonância a fazer de lugar de reencontro. Uma das grandes qualidades de Ska-Gul é conseguir criar o tema e conquistar totalmente desde os primeiros instantes das músicas que escreve. E se algum defeito “Paradeigma” tem, esse será ser curto demais, um sentimento que só se agrava porque o álbum vai ganhando força do início ao fim, sugando-nos continuamente para o seu delirium que nem um buraco negro, e, conforme se vai aprofundando, só se torna melhor. O primeiro trio de faixas constitui uma entrada triunfal pelos portões de Inferno, e “Phosphenes” é o momento de pausa antes de saltar para a deslumbrante perdição composta por “Ekstasis of the Continuum” e “Stars Within and Stars Without Projected into the Matrix of Time”. Com seis faixas, sendo a primeira uma intro, os 35 minutos passam demasiado rápido, o que faz colocar o álbum em loop para de novo encontrar o abismo.

Esta é uma obra extremamente opaca e enigmática na qual o intrincado do inconsciente dialoga com o cosmos, em que a linguística, a estética e a psicologia se interligam através de uma alquimia obscura e etérea. É um álbum que faz reflectir sobre a evolução deste subgénero, pois, com mais de duas décadas de existência, os Inferno trazem-nos música totalmente contemporânea que não abdicou de constituir um acto subversivo, interrogatório e místico. “Paradeigma” é inebriante e igualmente estranho – mesmo depois de várias audições mantém uma apelativa aura de risco e de mistério insuperável, mas «para o observador superficial irá parecer loucura».