É um álbum com um som aberto e bojudo, em que todos os elementos revelam um bom domínio técnico dos instrumentos, no qual a... Blame Zeus “Seethe”

Editora: Rockshots Records
Data de lançamento: 08.11.2019
Género: hard-rock/metal
Nota: 4/5

Numa altura em que o heavy metal comemora os 50 anos, “Seethe”, o terceiro álbum dos Blame Zeus oferece o melhor que o género tem para dar do Porto para o mundo, com um travo vintage, através de edição pelo selo independente italiano Rockshots Recordings.

Blame Zeus é um projecto liderado por Sandra Oliveira, ela é quem manda – e manda-nos com hard-rock & heavy num registo confessional e emotivo. Compostos ainda por Paulo Silva e Tiago Lascasas (guitarras), Celso Oliveira (baixo) e Ricardo Silveira (bateria), Marcos Resende e Rui Duarte (RAMP) são os convidados especiais – gente bem experiente na matéria como logo se percebe.

“Seethe” é preenchido por 10 temas «para fãs de Alice In Chains, Mastodon, Tool», segundo com o press-release da Rockshots Recordings. A memória dos holandeses The Gathering na era “Mandylion” também não lhes assenta mal. “Seethe”, convém esclarecer após consulta ao Cambridge Dictionary, descreve um sentimento, um estado de espírito – “to feel very very angry but unable or unwilling to express it clearly”. É disso que tratam os poemas da autoria da Sandra descritos no álbum: neura, angústia, desencanto e raiva contra o sistema.

O terceiro álbum dos Blame Zeus começa com “How to Sucessfully Implode”, um tema bem pesado, a pedir volume, uma pista para o que se segue. “Déjà Vu” é Déjà-vu, um sentimento presente ao longo do álbum, facilmente ultrapassado pela forma equilibrada do alinhamento, pelo seu dinamismo e pela força e consistência das composições construídas sobre a matriz de um hard-rock clássico, mas actualizado, que sobrevive bem com a idade. “Down to Our Bones” segue em marcha mais lenta até que Sandra lhe pega outra vez com o Rui Duarte como convidado de honra. “White” é aquela balada, característica de qualquer álbum rock com apelo ao mainstream, que acaba em estrondo, num flash groove-grunge. “Bloodstained Hands” não destoava na banda-sonora de um “Peaky Blinders” com atmosfera gipsy, envolvente, fatal. Sandra é mulher de armas, tem as mãos sujas de sangue. Há perigo à espreita e o rock n’ roll quer-se perigoso. “The Obsession Lullaby” entra em sexto lugar no alinhamento e “Into the womb” segue-se-lhe, dando continuidade à toada maternal que ressoa pela eternidade sobre um espectro sonoro limpo e volumoso. “No” é um dos singles de apresentação – e que single, porque Sandra Oliveira justifica porque é a grande protagonista do álbum, cantando com todo o pulmão e fôlego interminável num registo desesperado e enraivecido contra a máquina do sistema. Malha.

Quase a fechar o alinhamento surge, como que no adivinhar duma sequência, “The Warden”, de novo uma balada, em cinzas, com um solo de guitarra que chora amaldiçoado o abandono naquele ponto sem retorno. “The Crown and the Gun” é o que pesa nos ombros de Sandra com rock pesado e progressivo. A banda dá bom corpo à voz e sustenta a dama que se vem destacar no panorama nacional. Isto com um Desmond Child na produção ia longe. O álbum encerra assim com um tema que bem pode sintetizar a essência de “Seethe”: groove luxuriante, alicerces hard-rock, elasticidade prog. 

Resumindo o álbum, músculo não lhe falta. É um álbum com um som aberto e bojudo, em que todos os elementos revelam um bom domínio técnico dos instrumentos, no qual a Sandra canta e encanta.