«Para manteres um festival tens de continuar a ser competitivo, ter um bom cartaz e evoluir dependendo sempre de apoios, patrocínios e espectadores.» Foi... XXVI Mangualde Hard Metal Fest: Parque de diversões da velha guarda

«Para manteres um festival tens de continuar a ser competitivo, ter um bom cartaz e evoluir dependendo sempre de apoios, patrocínios e espectadores.»

Foi há vinte e três anos que José Rocha (JR), mentor do Mangualde Hard Metal Fest, passou das palavras à acção e criou o já emblemático e mais antigo festival ininterrupto português dedicado ao heavy metal e todas as suas vertentes. Entre altos e baixos, muita luta e suor, o Mangualde Hard Metal Fest (HMF) tornou-se num dos pontos de convívio de referência dos oldschoolers nacionais, até porque se trata do primeiro festival de música pesada do ano. Contra ventos e marés, o organizador afirma que o balanço que faz do HMF «é bastante positivo, valeu mesmo a pena manter o evento ao longo destes anos todos; tenho bastante orgulho no festival, pois não é fácil manter um evento destes numa cidade do interior.»

Ser fã de heavy metal ajuda, pois, na altura de contratar bandas, é essencial falar a mesma língua. Ainda no ponto do orgulho, certamente que existiram uns poucos nomes que JR tenha tido uma pontinha maior ao conseguir trazer ao HMF.


«Ui, foram demasiadas para mencionar, mas olhar para trás e saber que nomes como Behemoth, Decapitated, Picture, Holy Moses, Ancient Rites, Rotting Christ, Tygers of Pan Tang, Malevolent Creation, Primordial, Cancer, Master, Extreme Noise Terror, Peste&Sida, João Ribas a actuar com os Re-Censurados ou, na edição passada, a vinda de personalidades como Chris Holmes (N.R.: ex-WASP) e Steve Grimmett (N.R.: ex-Grimm Reaper) constituíram grandes motivos de orgulho.»

Olhando para os nomes de cima, é claro que, por regra, JR vai buscar apenas bandas seminais para cabeças de cartaz do HMF. Algumas são quase desconhecidas do público mais novo, mas, para muitos dos mais rodados, é a oportunidade de ver bandas que durante a sua adolescência já eram míticas, mesmo que esses tempos já tenham passado. O ponto mais curioso do festival reside mesmo nesse factor de o organizador ir sempre buscar cabeças-de-cartaz clássicos, geralmente obscuros para o público mais generalista, mas que marca muitos pontos junto dos mais velhos. JR desvaloriza o calculismo desse aspecto quando diz que «Nunca foi uma coisa muito pensada, ou seja, apenas o facto de ser fã de algumas dessas bandas ou até de ter amigos próximos do festival que sugerem alguns nomes pode ser o suficiente para as contratar. Claro que, como algumas dessas bandas estão caídas no esquecimento e outras regressam após anos de hiato, faz com que acabem por resultar na sua vinda com uma estreia em Portugal ou com um regresso de há muitos anos. Outro pormenor que também tenho em atenção é o preço/qualidade delas. A fórmula será para continuar e até podes constatar isso no elenco deste ano.»


De facto, a fórmula manteve-se inalterada. Este ano as grandes atracções são os ingleses Praying Mantis e Blitzkrieg, dois nomes lendários da NWOBHM, sendo que os segundos foram grandes influências para bandas como Metallica. Depois, e para brindar ao ecletismo, há também a presença dos não menos lendários Ancient (black metal, Noruega), Xentrix (thrash metal, UK), Blood (death metal, Alemanha) e, claro, o baluarte nacional Sacred Sin (death metal). Ao fim e ao cabo, raro é o ano em que o pessoal da velha guarda não esfrega as mãos de contentamento. No entanto, nem só de velhas caras conhecidas vive um festival, que tem sempre de apostar nas novas gerações, principalmente quando estas se têm rendido cada vez mais ao revivalismo. JR não poderia estar mais de acordo quando afirma achar que «é um regalo para os fãs dessas bandas mais old school tê-las cá no festival e depois também acho que o facto de darmos a conhecer essas bandas a um público mais jovem é muito gratificante e positivo.»

Mas não há rosas sem espinhos e fomos à procura de histórias para contar, coisa que JR deve ter mais do que suficiente para escrever um livro: de recusas de tocar depois de contratadas e outros vedetismos, tentámos perceber algumas dores de cabeça que o organizador já tenha sofrido. [risos] «Sim, claro que já tive situações engraçadas e outras não tão agradáveis. Exceptuando algumas bandas a refilar por causa de alguns atrasos no alinhamento, nunca tivemos nenhuma que se recusasse a tocar, apenas uma fez queixas ao manager porque lhes demos um camarim que estava gelado, etc., mas, no dia do concerto, a banda não me disse nada e aparentemente estava tudo OK. Outra situação foram umas menções mais extremistas em palco de uma outra banda e que não agradou a alguma facção do público, o que criou ali um frisson. Assim mais para o engraçado, lembro-me de uma banda me chamar a atenção para o facto de a pessoa que a ia levar ao aeroporto, logo na manhã seguinte, estar completamente embriagada e a participar no mosh no final da noite.» [risos]


Por outro lado, a aposta também nas bandas nacionais é obrigatória e fundamental, o que deve ajudar com custos, mas que também dá oportunidade a pessoal mais novo ou em início de carreira de expor o seu trabalho. «Felizmente, tanto do estrangeiro como a nível nacional temos recebido bastantes convites mas, normalmente, sou eu que as escolho em função de vários factores ou até simplesmente por gostar do som delas. Já apoio as bandas nacionais desde 1994 com o meu progama de rádio Sons Radicais, que era dedicado 100% ao underground nacional e onde me baseava para fazer o cartaz dos festivais. O único problema é que, às vezes, gostaria de pôr umas 30 ou 40 bandas nacionais, mas, como é apenas um dia, nao é possível. Outro factor que para mim é relevante é avaliar como é que essas bandas estão no metal, se são pessoas interessadas em vir ao festival, se apoiam outras bandas, se também ajudam com promoção por onde tocam, etc. A atitude conta muito. Já tive uma banda e sei bem do que falo.»

Juntamente com o HMF, existem mais três ou quatro festivais nacionais que dispensam apresentações, logo, perguntámos a JR a sua opinião sobre a saúde actual do movimento em Portugal, bem como o que se poderia fazer para o melhorar. «Umas coisas estão melhores, outras piores, penso que antes havia mais espírito underground, o pessoal era mais unido, havia mais gente nos pequenos/médios concertos. A malta não tinha os meios de divulgação que tem hoje, mas tinha outra atitude. As zines e as demos, os programas de rádio e os concertos da altura em que as pessoas se interessavam de verdade pelas bandas tornavam o heavy metal mais interessante. Se fosse preciso, as pessoas iam de comboio do Algarve para o Minho para ver um pequeno festival. Hoje, já ninguém ou quase ninguém o faria. No entanto, os meios de divulgação que tens hoje são brutais, como as redes sociais, que facilitam (e de que maneira!) a divulgação de qualquer projecto. Contudo, também faz com que haja muitos “metaleiros de sofá”. Para manteres um festival, neste momento, tens de continuar a ser competitivo, ter um bom cartaz e evoluir dependendo sempre de apoios, patrocínios e espectadores.»

O XXVI Mangualde Hard Metal Fest decorre Sábado, dia 11 de Janeiro de 2020. O valor do bilhete simples é 20 euros em pré-venda e 25 euros à porta, com possibilidade de adquirir diversos packs que consistem em bilhete + merch oficial do festival que podem ser adquiridos através do e-mail rochaprod@gmail.com. Para mais informações, nada como visitar a página do festival aqui.