“White Pony” foi o momento em que os Deftones deram o salto definitivo – recordamos o impacto que o álbum teve numa geração. “White Pony”: o álbum revolucionário que mudou os Deftones para sempre

“White Pony” foi o momento em que os Deftones deram o salto definitivo – recordamos o impacto que o álbum teve numa geração.

A angústia e a ansiedade geracionais não eram menos agudas há vinte anos do que são hoje, mas as suas raízes nem sempre foram tão claramente definidas. Talvez por isso, algumas das forças dominantes do rock agressivo da época voltaram os seus olhares para dentro ou contra inimigos fantasmas. Outros – aqueles que o articularam melhor em 2000 – faziam-no frequentemente através de uma camada de abstração sónica ou lírica: “XTRMNTR” dos Primal Scream, “Kid A” dos Radiohead e, certamente, “White Pony” dos Deftones.

“White Pony” foi o momento em que os Deftones deram o salto definitivo. Era esse o consenso mesmo antes de ser lançado – e ainda é verdade. Quase imediatamente, tornou-se num daqueles discos raros, como “Rubber Soul” ou “Zen Arcade”, que elevaram a cena e atraíram o público. Parte do crédito pelo poder e longevidade do álbum deve-se a esse público, que cresceu com eles nesse momento crítico. Os Deftones ficaram maiores e mais inteligentes com “White Pony”, e a sua base de fãs não vacilou. As músicas começaram a dispersar-se por corredores assombrados e a curvarem-se em cantos mais silenciosos, e poucos desejavam que se voltasse aos velhos tempos de “Bored”.

«Este estilo de música é muito grande neste momento, por isso seria muito previsível querer-se entrar nisto e… tirar vantagem deste tipo de sucesso», disse Chi Cheng, falecido baixista de Deftones, à MTV naquele ano, referindo-se ao fenómeno do nu-metal no seu auge, numa breve notícia sobre o lançamento de “White Pony”. «Preferimos manter-nos com o que temos feito nos últimos 10 ou 11 anos, fazer algo com o qual nos sentimos confortáveis, ter fé de que é isso que [os nossos fãs] esperam de nós.»

A declaração de Cheng foi um ponto-de-vista revelador sobre a mentalidade da banda. Para eles, ‘manter o que funciona’ significa avançar. «Não te podes sentir confortável», disse o vocalista Chino Moreno na mesma entrevista – mas, como Cheng referiu, não se deixarem sentir confortáveis era algo com que os Deftones se sentiam confortáveis.

No entanto, havia um elemento de conforto na música de Deftones que faltava a muitos dos seus pares imediatos. Raiva e libertação eram a estrutura, mas não eram o único ponto. Os tipos de ligações que as músicas ofereciam eram mais profundos. O mais importante não era serem a banda mais pesada do mundo, nem mesmo a banda mais pesada do rock mainstream – embora a certa altura, o guitarrista Stephen Carpenter quisesse que “White Pony” fosse o álbum mais pesado do grupo.

Foi com o segundo álbum, “Around The Fur”, que os Deftones encontraram afecto na sua importância. Parte disso foi devido à produção de Terry Date e outra parte foi por causa da composição. “Around The Fur” chegou onde a estreia com “Adrenaline” apenas roçou. O disco de 1997 foi o avanço antes do avanço, e se há uma música desse álbum que cimentou a nova dinâmica e apontou o caminho para a onda do início dos anos 2000, essa música é “Be Quiet And Drive (Far Away)” – é uma colisão de faíscas que já pairavam no ar à volta de Deftones mas que explodiriam com “White Pony”: os versos oceânicos e o rugido das ondas de Moreno, a inegável sensação de melodia sob riffs em downtuned e o ritmo pulsante, e não apenas amor contaminado mas uma espécie de romantismo desesperado e enjoado.

“Be Quiet And Drive (Far Away)” pulsou um escapismo em que não querias abandonar, e “White Pony” evidenciou isso ainda mais. As palavras de Moreno abriram vislumbres viscerais em mundos de fantasia doentios. Uma tempestade psíquica rasga o álbum, mas também há abrigo nele. Em termos líricos, os Deftones já não se contentavam em ser os skaters descontentes de Sacramento, e “White Pony” costuma ler-se como um guião enlouquecido.

Esta é uma faceta intrigante sobre como e por que é que se tornou o disco com o qual os Deftones chegaram à platina. A mistura de géneros e a resistência ao seu encaixe deram nas vistas, mas “White Pony” também é notável por carregar algumas das visões mais perturbadoras de Moreno. Isso pode ter algo a ver com o motivo pelo qual a editora, a Maverick, não tinha a certeza de que o álbum poderia originar um segundo single após “Change (In The House Of Flies)”. “Digital Bath”, por exemplo, era polida o suficiente para um horário nobre na MTV ou nas rádios de rock, ainda que seja sobre eletrocutar alguém numa banheira por satisfação.

Esse tipo de imagem, como a abordagem texturizada da instrumentação, provou não ser um obstáculo para o sucesso de “White Pony”. Moreno não vinha de um lugar puro, nem de antagonismo calculado. Questionado pelo Washington Post se “Digital Bath” podia ser considerada misógina, Moreno afirmou que, pelo contrário, era apaixonante. «A maneira como acho que canto… parece-me mais erótico do que violento», disse.

Uma das razões pelas quais “Digital Bath” é importante no catálogo da banda tem a ver com a ordem de “White Pony”. Como segunda faixa após o ataque inaugural de “Feiticeira”, serviu um duplo propósito. Para dentro era dito: ‘Vêem, ainda somos os Deftones, mas vejam lá isto.’ Enquanto para fora era dito: ‘Esperem – há mais coisas a acontecer aqui.’

Além da confusão entre sexo e violência, pontuada de ambos os lados pelos cenários de sequestro em “Feiticeira” e “Passenger”, “White Pony” possui uma maneira de combinar cenas de filmes de terror com as dores de crescimento típicas nos adolescentes. É isto que lhe confere uma tracção pessoal naqueles que cresceram com os Deftones e com quem hoje descobre a sua música.

Isto vai muito além da óbvia ode que é “Teenager”, embora esta faixa tranquila de “White Pony” carregue uma temática recorrente no refrão: “Now I’m through / With the new you”. Toda a gente consegue lembrar-se de, pelo menos, um amigo que se tornou numa pessoa diferente e que se afastou. Em “Teenager”, essa fractura é um rompimento romântico num cenário de trip-hop chocantemente suave. Em “Change (In The House Of Flies)” torna-se uma fantasia vingativa sobre prender-se uma nova borboleta e arrancar-lhe as asas.

“Rx Queen” é amor de juventude num verso e alimento parasita no seguinte (“I’ll steal a carcass for you / Then feed off the virus”). “Knife Prty” possui um aroma inconfundível de festas caseiras e constrangimento: “All of the fiends are on the block / I’m the new king / I’ll take the queen / …We’re all anaemic in here”. Até os sequestros acima mencionados em “Feiticeira” e “Passenger” se ligam ao sentimento comum dos adolescente não terem o tipo de controlo sobre as suas vidas que desejariam.

“Elite” é um ataque às pessoas superficiais que procuram estatuto, com o mantra húmido “When you’re ripe / You’ll bleed out of control” a causar um horror literal sobre a maioridade. “Elite” é a faixa mais pungente de “White Pony” (o que torna o facto de ganharem um Grammy ainda mais curioso), mas, ainda assim, os seus brutais quatro minutos não deixam de ter resquícios de nuance. “You’re into depression / ‘Cause it matches your eyes” é uma daquelas frases subestimadas que simplesmente não poderiam ter surgido, digamos, de Mushroomhead.

Quase todas as desgraças da existência adolescente estão presentes e são explicadas nas entrelinhas de “White Pony”, e o álbum mostra-as todas. É o irmão mais velho atrás de ti, na cara do teus atormentadores – mesmo que seja apenas imaginado, sozinhos no vosso quarto. A resposta vem à tona na última “Pink Maggit”. Embora seja outra faixa repleta de violência abstracta, a mensagem de “…back in school / We are the leaders of all” é clara o suficiente, e Moreno afirmou que a música pretendia inspirar confiança. A mensagem pouco subliminar era de que os Deftones estavam do nosso lado.

Moreno costumava receber crédito por ter uma sensibilidade musical sensível, mas os Deftones nunca foram uns metaleiros liderados por um fã de Morrissey. Carpenter era tão fã de Depeche Mode como de Moreno, particularmente do álbum “Ultra”, de 1997. Uma das principais influências do baterista Abe Cunnningham foi Stuart Copeland, dos Police, e embora ele se considerasse um baterista de funk rock, os seus gostos pessoais eram diversos, assim como os de Cheng. A amplitude de covers que a banda fez, de Sade a Weezer, atesta isso. O facto de se conhecerem no meio heavy metal não é surpreendente, dado o contexto jovem e geográfico da origem da banda, mas também não é de surpreender que, com o tempo, tenham transcendido as restrições do género de maneira orgânica.

Quando “White Pony” saiu no Verão de 2000, os Deftones estavam mais ou menos no seu quinto ano perante os olhares do público, mas, na verdade, estavam juntos há duas vezes mais do que esse tempo. O processo de gravação tinha sido o mais desafiante, mas saíram do estúdio a saberem exactamente o que tinham em mãos. Em entrevistas, não se intimidaram em dizer quão bom era o álbum. “White Pony” amplificou e refinou o que “Around The Fur” tinha apresentado, e também originou algumas reviravoltas importantes, mas não foi uma viragem absoluta ou uma mudança imprevista. De qualquer forma, o alinhamento parece cuidadosamente ordenado para actualizar gradualmente os fãs antigos sobre onde eles se posicionavam naquele momento, guiando-os música a música, de modo a que somente no final do álbum se tenha a imagem completa do novo modelo dos Deftones.

Em parte, é por isso que a vontade da editora em adicionar a versão reformulada de “Pink Maggit” na reedição do álbum em 2001 foi um passo em falso: “Back To School (Mini Maggit)” tocou nos pontos fortes estabelecidos anteriormente pelos Deftones. Apontou para trás, não para frente. Impulso natural e resposta ao ambiente imediato foi o que direccionou o progresso da banda para um “White Pony” multidimensional, para o álbum homónimo monolítico que se seguiu e para o que fizeram desde então.

Essa realidade, despretensiosa mas não ignorante, relacionou-os e ligou-os ao segmento adolescente do seu público de formas profundamente enraizadas. Não estavam ali para nos vender a sua vida, estavam ali para comiserar e desabafar, e talvez também para darem um empurrão ao metal rumo ao futuro.

Consultar artigo original em inglês.