"Solitude In Madness" é a novidade dos Vader e acumula uma agressão exponencial com várias músicas rápidas Peter Wiwczarek (Vader): «Há gente que insiste em seguir o caminho mais fácil em vez de usar o cérebro, mesmo que seja o caminho mais estúpido»

“Solitude In Madness” é a novidade dos Vader e acumula uma agressão exponencial com várias músicas rápidas, como se ainda tivessem de provar quão pesados são, apresentando um som que é Vader clássico, muito devido à quase ausência de temas mais lentos. Depreendemos com isto que os polacos decidiram regressar aos valores iniciais da violência incessante e da velocidade da luz. Quem nos responde é Peter Wiwczarek, mentor da banda veterana. «Sim, mais ou menos isso, concordo. Foi uma espécie de necessidade de velocidade, um tipo de fome que eu já não sentia há duas décadas. Não é que os discos anteriores dos Vader não tivessem brutalidade ou velocidade, mas, claro, nos último 20 anos tentei imbuir na música dos Vader diversos subgéneros distintos do heavy metal e foi algo muito diferente da primeira era dos Vader, da nossa primeira década, em que a velocidade era a nossa prioridade, só nos focávamos nisso.»

Vivemos em tempos muito diferentes dos que conhecemos nas décadas de setenta, oitenta e noventa. Embora actualmente toda a gente esteja interligada pela tecnologia, sentimo-nos mais sós e isolados do que nunca, como se alguém nos tivesse dado todas as ferramentas e as tivéssemos ignorado. Foi esta a ideia com que ficámos sobre a mensagem de “Solitude In Madness”. «Fala de algo completamente diferente, de algo até contraditório ao que pensei quando escrevi as músicas. Isto porque não fazíamos ideia da pandemia que estava prestes a ocorrer, desta situação global que mudou tudo. Inicialmente, estava contra estas novas tecnologias que estão a roubar-nos das nossas vidas, das nossas vidas reais, algo de que eu já tinha falado em discos anteriores, contando estas histórias à nossa maneira. Nelas falei de passar tempo em frente ao computador, de estar de castigo em frente a um computador, de passar a vida a teclar em vez de sair e de apreciar o mundo com os nossos olhos, e isso é tão… mau! Neste momento, a situação é totalmente diferente e sinto-me feliz por ter esta ferramenta (porque é o que ela é), pois os PCs, os media e os telemóveis estão literalmente a salvar-nos. Numa época em que temos de estar isolados por ser a única maneira de vencer esta pandemia, ainda conseguimos estar ligados ao mundo e informados, o que é óptimo. É tão diferente do que atravessámos em 1920 com a gripe espanhola, em que não havia TV, computadores, media, nada. As pessoas caíam mortas como moscas aos milhões e ninguém sabia o que se estava a passar. Hoje, com estas ferramentas, estamos ligados e informados para evitarmos esta situação e entendermos o porquê dela. Assim, é uma situação muito irónica, pois uma pessoa como eu, que gosto tanto da vida real e de viver em vez de existir, sinto-me feliz por termos estas ferramentas que nos ajudam a regressar à vida real mais cedo do que mais tarde.»

O título “Solitude In Madness” não poderia estar mais sincronizado com a realidade actual, devido à sensação de isolamento que atravessamos. Quase que parece que os Vader estavam a prever esta praga, e logo perguntámos a Peter como é que a banda se tem saído durante estes tempos de incerteza e se os Vader foram muito prejudicados pela Covid-19. «Acho que isto vai demorar mais do que apenas alguns meses. Em relação ao Verão, podemos esquecer todos os festivais mas temos de planear as coisas enquanto banda profissional que somos e, em teoria, os concertos mais próximos que temos planeados serão em Setembro, algo que informaremos oficialmente ao público em breve. Esta é a versão optimista. Ninguém sabe o que acontecerá e como; logo, só podemos planear e esperar que em Setembro já possamos começar a dar concertos pequenos, mas ainda é apenas uma teoria, é muito difícil planear algo com muita antecedência, pois não sabemos como é que esta situação se vai desenvolver. Por isso, planeamos, preparamo-nos para a nova digressão, ensaiamos as novas músicas e definimos os novos alinhamentos das músicas. Claro que não é a mesma coisa que conhecer fãs ao vivo, mas é melhor do que nada. Estou contente por termos estas ferramentas, para estarmos interligados e informados. O álbum não necessitará de ser adiado novamente, sairá no dia 1 de Maio pela Nuclear Blast. A distribuição e a música online estão confirmadas. O que puder ser feito será feito. Agora estamos à espera da data de lançamento e a preparar o regresso à estrada. É o que podemos fazer por enquanto.»

Curiosamente, na Polónia, as missas foram mantidas no domingo de Páscoa. Ainda que seja um país profundamente religioso, decidimos saber qual a opinião do vocalista dos Vader em relação ao despertar em geral das mentalidades que vivemos em 2020. «Fiquei chocado. Pessoas estúpidas intitulam-se profetas ou o que lhes queiras chamar, todas estas teorias sobre a terra plana e curas espirituais, todas estas coisas que acabei de referir… Não sei o que dizer, vivemos no Séc. XXI e temos informação suficiente, devíamos saber o suficiente e estarmos preparados para uma situação actual como esta. Mas, se pensarmos bem, isto não significa nada. Ainda há gente que insiste em seguir o caminho mais fácil em vez de usar o cérebro, mesmo que seja o caminho mais estúpido, apenas para se sentirem bem. O mundo é o que é. Nem toda a gente deseja dizer ‘Basta!’, algumas querem ser ovelhas. Isto é tão parecido com a Bíblia, na qual existe um Deus e ovelhas que conduz ao matadouro. Que posso dizer mais? Não entendo. Gosto de usar o coração e o cérebro na minha vida, é isso que sigo em vez de apenas acreditar. As pessoas pensam que estão ligadas aos deuses.»

Embora focando-se no passado, os Vader decidiram gravar o novo disco em Inglaterra com o veterano Scott Atkins e escolheram o artista Wes Benscotter para a ilustração. Instalados no meio do paraíso natural de Suffolk, certamente que a tarefa de gravar “Solitude In Madness” se tornou mais fácil dadas as circunstâncias. Foi essa a pergunta final que fizemos ao líder dos Vader. «Estava na altura de mudar, após uma cooperação de 15 anos com os irmãos Wiesławskie dos Hertz Studios. Estava na altura de mudar a atmosfera totalmente e de dar oportunidade a outra pessoa para encarar a música dos Vader. Após algumas opções, escolhemos os Grindstone Studios, em Inglaterra, e isso fez-nos regressar literalmente às nossas origens, pois o nosso primeiro disco foi gravado em Inglaterra, embora em circunstâncias completamente distintas. Desta vez, entrámos em estúdio já muito experientes, levámos o nosso próprio material, já sabíamos o que queríamos fazer e sem medos, e foi muito fácil de comunicarmos uns com os outros. O Scott Atkins é do caraças. É uma pessoa que nos motivou. O seu talento e criatividade, o facto de cooperar com tanta facilidade com os músicos, fez com que tudo resultasse. Trabalhámos lado a lado no estúdio do princípio ao fim. O processo foi basicamente o mesmo, não alterámos muitas coisas. Começámos pela bateria, depois a mistura de guitarras e vozes, etc., mas houve coisas que nunca tínhamos feito assim anteriormente. Por exemplo, a voz. Nunca passei tanto tempo a gravar a voz, nunca lhe dei tanta atenção. Este é o melhor som que já tivemos em termos de voz. Prestámos muita atenção até à pronúncia inglesa para que cada música soasse única, soasse a algo diferente. Foi por isso que passámos tanto tempo e a experimentar tanto em estúdio – nunca tinha feito isso, não nesse formato. Foi assim com o som em geral: sem triggers na bateria, experimentámos com microfones diferentes e em diferentes posições para obter um som natural, ajudados pelo talento do nosso baterista, o James. O mesmo com as guitarras, criámos um som completamente diferente. Na verdade, eu não quis dizer nada ao Scott, não quis produzir o álbum. Tentei sempre explicar-lhe que fomos ao estúdio dele para lhe dar a oportunidade de perceber o som dos Vader com uma perspectiva diferente, algo que ele fez. O som das guitarras está menos lamacento, está mais nítido. O do baixo, que mesmo para a música dos Vader é um som sólido, desta vez dá para perceber a importância do som do baixo nos Vader. Tudo junto, existem muitas pequenas diferenças na produção e no som geral do disco. Se adicionarmos a isso as próprias músicas mais orientadas às raízes dos Vader, curtas e muito intensas, este álbum será provavelmente muito diferente e brutal para os novos fãs, e espero que não nos odeiem por isso. Não tenho receio pelos nosso fãs veteranos, pois já conhecem esta faceta dos Vader da primeira era; logo, será um regresso às raízes para eles também – sei que gostarão do disco. Este disco foi gravado para todos os nossos fãs, não é só o novo disco dos Vader, é mais brutal do que é normal. Acho que os nossos fãs mais antigos não esperam dos Vader algo menos do que brutalidade e este disco é ainda mais brutal.»