"I Am" é apenas uma parte da construção de uma identidade que vai definindo os seus contornos num percurso muito promissor. Toothgrinder “I Am”

Editora: Spinefarm Records
Data de lançamento: 11.10.2019
Género: rock / metal / post-hardcore
Nota: 3/5

Os Toothgrinder formaram-se em 2010, em New Jersey, e são liderados pelo carismático vocalista Justin Matthews, na companhia de Jason Goss (guitarra), Matt Arensdorf (baixo), Wills Weller (bateria) e Johnuel Hasney (guitarra). Em 2014 ganham alguma projecção na cena hardcore de New Jersey com a edição de um primeiro EP, e em 2016 editam o álbum de estreia, “Nocturnal Masquerade”, pela prestigiada Spinefarm Records. A sonoridade altera-se e engorda com um amontoado de novas referências no corpo instrumental, mas suaviza, sendo mais rock, menos metal, mais radio-friendly. Permanecem os riffs cortantes e abrasivos, e a agressividade das vocalizações.

Ao segundo álbum, “Phantom Amour”, de 2017, continuam a incorporar novas tendências, reflectindo uma componente instrumental com uma parafernália de efeitos, elementos melódicos numerosos, orquestrações temperadas com alguma electrónica e coros limpinhos, contrastando com riffs e vocalizações hardcore, o que os coloca cada vez mais na linha de um post-hardcore progressivo. Apesar de alguma indefinição, esta gravação regista 3 milhões de streams no Spotify, o que, simultaneamente às digressões de suporte a Meshuggah e Code Orange, lhes foi permitindo chegar a um público cada vez mais numeroso.

“I Am” é o terceiro álbum pela Spinefarm a sair no próximo dia 11 de Outubro. Neste terceiro disco, os Toothgrinder resistem e investem na mesma fórmula, aventurando-se tema após a tema na busca e na mistura de diferentes sonoridades. “I Am” é um álbum conceptual cuja temática gira à volta das dependências tóxicas das drogas e do álcool, dos estados depressivos e das experiências emocionais de Justin Matthews ao longo dos últimos dois anos, num momento em que o assume e se solidariza com os fãs que partilhem dos mesmos problemas, deixando uma mensagem positiva de encorajamento. É um trabalho em tom confessional empenhado na redenção. Talvez por isso este álbum seja tão luminoso quanto explosivo, e arrojado. O arrojo aqui serve para o bem e para o mal. A banda quer ‘ir a todas’, tentando encaixar tudo e mais alguma coisa ao longo de onze temas cuja média pouco ultrapassa os três minutos, como se pode atestar na passagem de temas como “Oh My, Oh My” para “My Favorite Hurt” ou de “Shiver” para “The New Punk Rock”.

Se as competências técnicas dos músicos se provam inquestionáveis, tal como as qualificações profissionais do multi-platinado produtor Matt Squire (Ariana Grande, Katty Perry, Demmi Lovato, Underoath, etc.), escolhido pela banda para melhorar os problemas na estrutura formal dos temas ao nível da composição, o resultado final parece demasiado ambicioso e exigente para a paciência do ouvinte – é como uma confusa mixórdia de constantes variações ao longo de aproximadamente meia-hora. É perceptível uma enorme hesitação sobre a direcção a tomar, então tomam-se várias em simultâneo, o que vem deturpar aquele significado misterioso e positivo do slogan ‘banda extremamente versátil e difícil de catalogar’.

Independentemente do anterior, “I Am” comporta uma boa mão-cheia de refrãos orelhudos, como por exemplo o mais recente single “My Favorite Hurt”, mas o que fica no geral é uma panóplia de soluções muito criativas que resultariam muito melhor com outra arrumação. No final da audição deste terceiro álbum dos Toothgrinder fica a ideia dum puzzle com peças a mais. Aliás, não é à toa que a própria banda manda os seus cépticos à fava no tema “Too Soft For The Scene, Too Mean For The Green”, e reclamam a acusação de não terem onde se encaixar por serem consecutivamente considerados demasiado soft para a tribo death metal e demasiado pesados para o heavy-rock.

Sendo que este é apenas o terceiro álbum para a formação de Justin Mattews, o que alcançaram até aqui revela que estão seguramente no bom caminho, e que o futuro lhes há-de reservar uma dose de sucesso ainda maior. “I Am” é apenas uma parte da construção de uma identidade que vai definindo os seus contornos num percurso muito promissor. “I Am” está, para já, por conferir na actual digressão com Lacuna Coil.