“Naiv” é exótico, libertador e sedutor, três adjectivos que cunham a actualidade criativa de um multi-instrumentista que merece todas as vénias. Thy Catafalque “Naiv”

Editora: Season Of Mist
Data de lançamento: 24.01.2020
Género: avant-garde metal
Nota: 4.5/5

A lançar álbuns há 20 anos como Thy Catafalque, Tamás Kátai é facilmente considerado um dos génios da música pesada e experimental do nosso tempo. Depois de, por exemplo, em 2016 ter dissecado sobre os ciclos da vida com “Meta”, em 2018 estudou as figuras geométricas com “Geometria”. Como um músico que sempre tentou esgueirar-se dos rótulos prog metal e avant-garde metal, o húngaro tem em “Naiv” um título muito bem aplicado à sua postura criativa, já que tem directa relação com o movimento artístico com o mesmo nome que inclui criadores artísticos livres e sem estudos.

“Naiv”, à imagem de toda a discografia, é isso mesmo: um álbum livre que une metal, rock, jazz, electrónica e folk. Se a inaugural “A bolyongás ideje” nos faz parecer que vamos ouvir um disco frio, a segunda “Tsitsushka” quase nos põe a dançar com um balanceamento corrido em que surge o já recorrente jazz, especialmente através do fretless bass de Badó Réti (Geri), o trombone de Zoltán Pál (Sear Bliss) e o saxofone de Péter Jelasity, sem nos esquecermos da guitarra simples e gorda que oferece a base do ritmo.

Tudo fica ainda mais luminoso e folclórico com a chegada da terceira “Embersólyom”, indiscutivelmente um dos melhores temas deste registo, onde se eleva a voz angelical e terna de Martina Veronika Horváth (SallyAnne, Nulah), a já repetente convidada especial que tem vindo a oferecer os seus singulares préstimos vocais, começando já a ser impossível imaginarmos um álbum de Thy Catafalque sem ela. Com esta faixa entramos num universo folclórico que mistura ambiências do Leste Europeu e, quiçá, do Extremo Oriente. Mas não nos enganemos com esta breve explicação, pois “Embersólyom” também possui peso e ritmo através de uma guitarra densa e atmosférica. É de ouvir e chorar por mais. E é fácil: basta repetir.

Numa combinação entre valsa e canção de embalar, “Számtalan színek” expõe mais um convidado através do violoncelo de Gábor Drótos (Gutted) que digladia destaque com a também sua guitarra acústica e a eléctrica de Tamás Kátai. De uma sala quente partimos para o vazio espacial com a entrada digital de “A valóság kazamatái”, uma composição que volta a pôr Thy Catafalque em terrenos mais agressivos e metal – em suma, é uma viagem entre espaço e Terra pintada efusivamente pelo oud de Vajk Kobza, berros (raros neste disco), guitarras distorcidas, interlúdios atmosféricos a puxar a veia prog e salpicos electrónicos.

Quem estiver familiarizado com Thy Catafalque sabe que, como está visto, uma panóplia de instrumentos extra-metal é fortemente utilizada, por isso a flauta de Sándor Szab ouve-se na corrida e energética “Kék madár (Négy kép)”, tema que novamente demonstra a noção criativa libertadora de Kátai ao fundir folk e electro num teor saborosamente progressivo.

“Napút” é uma ode ao ritmo com a muito característica bateria em contratempo, um ingrediente fulcral nas músicas mais mexidas de Thy Catafalque e que é usado em largas doses neste nono disco. Os leads de guitarra e a voz de Martina Horváth fazem as restantes delícias.

Acto contínuo, a vocalista surge pela quarta vez em “Veto”, talvez a composição mais pesada e mais metal, ainda que, novamente, não descure uma ala folk (aqui arábica), a importância da electrónica cintilante e os segmentos mais calmos e tão belamente detalhados – todo um conjunto de sensações que podem ser absorvidas ao longo de oito minutos.

Muitas vezes o melhor fica para o fim. Neste caso, a expressão não se adequa à totalidade porque todo o álbum é excelente, mas um dos pontos altos de “Naiv” acontece na última “Szélvész”, que fecha o disco com chave de ouro ao praticamente juntar todos os condimentos ouvidos anteriormente nas suas parceiras de alinhamento. Gyula Vasvári (Perihelion), agora no masculino, é outro repetente a colaborar com Thy Catafalque, e é precisamente o húngaro que dá voz a uma faixa mexida, algo veloz e com malhas de guitarra tight que finaliza o disco em alta.

Ouvir Thy Catafalque é sempre uma experiência única e cada vez que sai um disco deste projecto é certo e sabido que estará entre os melhores do ano sem grandes dificuldades. Sem ser propriamente alegre, “Naiv” é exótico, libertador e sedutor, três adjectivos que cunham a actualidade criativa de um multi-instrumentista que merece todas as vénias. Béla Bartók e Zoltán Kodály ficariam orgulhosos.