“Cycle of Suffering” assinala o regresso dos Sylosis aos discos, depois de em 2016 o líder Josh Middleton ter anunciado uma interrupção na actividade... Sylosis (Josh Middleton): «Comecei a compor temas para uma banda nova com o objectivo de abandonar os Sylosis»
Fotografia: Jake Owens

“Cycle of Suffering” assinala o regresso dos Sylosis aos discos, depois de em 2016 o líder Josh Middleton ter anunciado uma interrupção na actividade da banda. Vencidos os demónios que ameaçavam a continuidade do colectivo britânico, Josh Middleton partilha com a Metal Hammer Portugal um pouco daquilo que os últimos cinco anos representaram na vida do músico. Os Sylosis actuam na edição de 2020 do VOA Heavy Rock Festival.

«Comecei a compor temas para uma banda nova com o objectivo de abandonar os Sylosis.»

A primeira vez que nos falámos foi umas semanas antes de terem lançado “Edge Of The Earth”. Por essa altura, em 2011, sentia que a música dos Sylosis era muito rica e verdadeira, algo que não encontrava com frequência noutras bandas. O que não previ – e acho que ninguém foi capaz de o prever – foi o facto dos Sylosis anunciarem um intervalo logo depois da edição de “Dormant Heart” [2015]. Vi-te sempre como um músico capaz de desenvolver e apresentar novas ideias, e ainda assim afirmaste que te sentias musicalmente preso. Como é que te sentes agora com a tua música?
Agora sinto-me bem com Sylosis. Defini algumas limitações à volta daquilo que os Sylosis poderiam ou não fazer, e foi algo frustrante pois não estava satisfeito com a posição em que a banda se encontrava em termos de carreira e musicalmente. Embora gostasse da música, senti que estava a empurrar a banda para uma direcção diferente, que não era boa para nós. Com “Dormant Heart”, por exemplo, procurei obter uma produção mais crua, como se fosse um acto de rebeldia para com as bandas com um som muito moderno e polido. Estava muito focado a empurrar a banda em direcção a uma sonoridade que achei que precisava de ter, ao invés de preocupar-me com aquilo que me satisfazia musicalmente. A minha frustração surgiu do facto de querer soar super pesado, coisas pequenas como esta que deixei que fossem acumulando. Então, depois da última tour, em Março de 2016, interrompi a actividade da banda. Comecei a compor temas para uma banda nova com o objectivo de abandonar os Sylosis. Depois de alguns meses, enviei demos para a Nuclear Blast e para o meu manager, e ambos disseram-me: ‘Isto parece Sylosis! Por que é que vais começar uma banda nova?’ Acontece que abordei a minha música através de uma perspectiva diferente, sem as regras que estabeleci para os Sylosis, e era mesmo disso que precisava, uma perspectiva fresca, e isso libertou-me. Acabei por perceber que podia fazer os Sylosis funcionar e ignorar todas estas regras para que me concentrasse a fazer algo que me deixava feliz, musicalmente. Senti-me mais realizado a nível criativo, mas quando voltei a sentir-me bem com isso surgiu a oportunidade de trabalhar com os Architects. Podia ter-me logo dedicado ao novo disco, mas creio que este tempo afastado da banda foi algo que nos beneficiou, e isso permitiu-me amadurecer e desenvolver outro tipo de percepção. Trabalhar neste disco sem stressar e fazer as coisas de forma natural ajudou-me. Agora que estamos de volta, seremos mais consistentes a lançar discos. Não vejo mais nenhum intervalo destes a acontecer.

Percebo que te sentisses dessa forma, até porque deves acusar a pressão dos fãs, que acabam por ser parte dos Sylosis, ainda que de uma maneira diferente. Para mim foi sempre muito claro que os Sylosis não eram o tipo de banda que segue uma fórmula. “Conclusion Of An Age” [2008] foi um excelente álbum e a banda adaptou-se formidavelmente às mudanças exigidas em “Edge Of The Earth”, com a saída do Jamie [Graham, vocalista] a obrigar-te a assumir os vocais e com isso teres alcançado um novo nível na sonoridade da banda. Sentes que talvez tenhas sido demasiado exigente contigo próprio?
Talvez, sim. O que disseste sobre os fãs é verdade; há muitas coisas que os fãs querem ouvir na música dos Sylosis, o que não significa que eu queira, de facto, fazê-las. É difícil, pois as pessoas aplicam a expressão ‘venderam-se’ a bandas que seguem uma direcção mais melódica e menos pesada, mas para mim acredito que esse termo só faria sentido se eu estivesse a fazer algo para agradar outras pessoas. Os Bring Me The Horizon eram bem pesados e depois apostaram numa sonoridade mais pop. Só que eu conheço-os e sei que eles queriam fazer música pop. É algo que gostam de fazer, por isso, ainda que seja mais melódico, eles não estão a vender-se. Os Sylosis não querem seguir essa direcção, até porque sinto que este novo disco tem o mesmo peso – se não for mais pesado – do que os anteriores. Não se trata disso. São coisas como baixar o tom, algo que fizemos para este disco, e que me preocupava no passado. Pensava que os fãs iam estranhar a mudança e ficar aborrecidos com isso. Depois era a questão de sermos uma banda pequena, em que não nos podíamos dar ao luxo de ir em tour e de cada um de nós transportar quatro guitarras para as diferentes afinações e ter uma guitarra de reserva para cada uma delas. Agora sim, deixei de preocupar-me com isso. O mais engraçado é que não li um único comentário negativo em que alguém dissesse que o novo disco não soa nada a Sylosis. Na realidade, as reacções ao novo material têm sido muito positivas.

Como foram estes últimos para ti, a nível musical? Já me disseste que iniciaste a composição do novo álbum mal os Sylosis entraram em hiato, mas tiveste a necessidade de explorar outro tipo de sonoridades? Pergunto-te isto porque sei que bandas como Tool ou Radiohead são duas referências musicais muito importantes para ti.
São bandas que cresci a ouvir. Aprendi a tocar guitarra com os discos dos Radiohead. Quando descobri o heavy metal, com bandas como Metallica, percebi que tanto os Tool como os Radiohead não tinham muito em comum com outras bandas deste estilo… Eram bandas mais sofisticadas do que o thrash que gostava de ouvir, como “Arise” dos Sepultura, que é uma banda que adoro. Foi como se ficasse dividido entre estes dois mundos. Nos últimos cinco anos não estive necessariamente a explorar sonoridades próximas a essas bandas, mas tocar com os Architects e compor músicas para o último disco, e até o facto de poder trabalhar com estilos diferentes e colaborar com outras pessoas foi muito inspirador.

Vão tocar no VOA Heavy Rock Fest, em Portugal, no dia 3 de Julho, um dia depois dos Sepultura. Já partilhaste o palco com eles?
Acho que ainda não tocámos em nenhum festival com eles. Já fizemos uma pequena tour com os Cavalera Conspiracy…

Então já estiveste com metade da banda. [risos]
Sim, verdade! [risos]

O que podem os fãs portugueses esperar do vosso concerto? As pessoas aqui, e creio que isto aconteça em todo o lado, são muito críticas para com os cartazes, mas parece-me que se há banda que não está a ser alvo de comentários negativos são os Sylosis.
Isso é muito fixe! Não sei porquê mas sinto que em Portugal e Espanha há algo que gravita em torno da nossa música, que é superior ao que acontece no resto da Europa continental. Somos muito melhores músicos, temos ensaiado com mais frequência, temos um novo baixista que é espectacular, pelo que daremos um concerto mais profissional do que é habitual. Não sei a que horas vamos tocar e se iremos até levar o mesmo equipamento de luzes que temos usado, mas vamos fazer as coisas muito melhor daqui em diante e faremos desse concerto algo especial. Agora que estamos de volta teremos que compensar os fãs pelo tempo perdido.