Nas últimas semanas explodiu mais uma polémica em torno dos vídeos de performance que alguns guitarristas publicam nas suas redes sociais, em particular no... Speed (s)Kills – quando os guitarristas aceleram os seus vídeos nas redes sociais

Nas últimas semanas explodiu mais uma polémica em torno dos vídeos de performance que alguns guitarristas publicam nas suas redes sociais, em particular no Instagram.

Tudo começou com um pequeno grupo de artistas que, devido às capacidades sobrenaturais evidenciadas nos seus vídeos, foram acusados de estarem a acelerar os mesmos. A maior parte dos acusadores ocultou a identidade dos batoteiros, mas alguns não tiveram papas na língua.

Não demorou muito a que as alegações generalizassem e visassem um conjunto bastante extenso de tocadores. Os argumentos que sustentam esta campanha são diversos e incluem posições não-naturais dos dedos, saltos de corda suspeitos, movimentos de pulso com descontinuidade, artefactos no áudio, artefactos no vídeo, etc..

Muitas figuras conhecidas da cena da guitarra vieram a público oferecer a sua opinião, e se de um dos lados tínhamos um grupo que procurava o linchamento a todo o custo, do outro encontrávamos pessoas que garantiam ter presenciado os visados a executarem as peças em questão, certificando as suas habilidades. Alguns dos alegados aldrabões deram-se ao trabalho de gravar extensos vídeos de explicação e refutação das acusações, como Lucas Mann, dos Rings of Saturn, que nos apresenta a sua explicação, testemunhos de terceiros e, como seria de esperar, exemplos de excertos acrobáticos a altas velocidades.

Outros guitarristas optaram pela abordagem inversa, gravando vídeos onde dissecam as diversas técnicas disponíveis para realizar as manipulações de velocidade, de forma a dotar os visualizadores da capacidade de discernir o real do artificial.

A partir deste instante foi uma autêntica avalanche de vídeos de opinião e arremesso de lama, de parte a parte – um pouco como a guerra em torno das imagens manipuladas com Photoshop que eram carregadas pelas socialites nas suas contas de Instagram há uns anos. Tal como nessa altura, a fossa tornou-se tão larga e profunda que até já se estava a colocar em questão nomes de referência com provas dadas, durante anos e anos, por esses palcos nos quatro cantos do mundo. Mas inevitavelmente a discussão perdeu pressão e baixou de tom, com muitos dos acusadores a publicarem vídeos onde retiravam o que haviam dito e com alguns mesmo a pedir desculpa por terem criado nuvens de suspeição sem fundamento que tiveram um impacto negativo na popularidade e credibilidade dos seus pares.

Toda esta situação apenas serviu para apontar o holofote na direcção de alguns guitarristas de nicho que, de um momento para o outro, se viram destacados e incluídos (pelas piores razões) nos conteúdos dos influencers. Estes, com mais ou menos cabeça, vão alimentando estas tainadas por meio dos seus milhares de seguidores com o objectivo de manter ou amplificar os seus clicks (e, peculiarmente, também os dos seus visados), não fosse a publicidade (e o pagamento) o conceito fundamental subjacente a todo este circo dos nossos dias – “toda a publicidade é boa publicidade”.

Ao longo dos tempos, sempre existiram pessoas que tentaram exibir características/qualidades que não dispunham. O caso mais exuberante que vem à memória é o do ciclista Lance Armstrong que, através de um programa extremamente organizado, conseguiu enganar o mundo inteiro e conquistar por sete vezes o prestigiado Tour de France. A grande diferença entre este caso (que se arrastou durante anos, envolveu avultados prémios, patrocínios das maiores marcas e uma desgraçada fundação de luta contra o cancro) e o dos músicos que agora se encontram na mira da turba enraivecida, é que estes tocadores apenas o fazem pela fama efémera, para terem o seu dia de sol. Alguns acusadores sublinham que estas pessoas estão a usar estes mecanismos para vender aulas de guitarra, álbuns ou bilhetes para espetáculos ao vivo, mas sem dúvida que o argumento-bandeira é o facto de estes aldrabões estarem a estabelecer padrões de excelência inatingíveis, destruindo os sonhos e ambições dos guitarristas principiantes – coitadinhos…

Há ainda quem questione as performances ao vivo, com recurso a backing tracks em que faixas de guitarra sintética são justapostas ao que está a ser tocado, criando uma ilusão de claridade e articulação que os intrujões não conseguiriam executar consistentemente. Esta ilusão é comum nos dias que correm, especialmente nos espetáculos ao vivo dos principais artistas da pop, onde é frequente todos os sons serem pré-gravados e o músico apenas finge a performance. O objetivo é simples: fazer com que quando o ouvinte chegue a casa sinta que a banda detonou e perpetue o culto da mesma, sem grande trabalho para o artista – talvez por isso, esta seja a abordagem de eleição nas performances de quase todos os programas de televisão onde é tocada música.

Este fenómeno de justaposição é bastante banal nos dias que correm, predominante nas redes sociais, mas também em ambientes de estúdio, onde substituir ou emparelhar performances de estúdio com versões quantizadas (ou originadas em MIDI e passadas por instrumentos virtuais) é uma solução para problemas de execução ou de claridade na mistura.

Mas voltando aos vídeos maléficos… Em grande parte dos casos, estes são de qualidade reduzida e, sejamos francos, para se poder concluir com certeza que o vídeo não é real, seria necessária uma filmagem de grande qualidade e com elevado número de frames por segundo, para garantir que não é o formato do vídeo o responsável pelas descontinuidades ou saltos que possam figurar no produto alojado nos serviços de distribuição via Internet. Sim, este ponto é de particular importância: os próprios serviços que alojam os conteúdos recodificam os vídeos, o que pode também introduzir os problemas já referidos.

O próprio processo de aceleração é muito utilizado por artistas de todo o espectro, quer como um auxiliar de evolução – permitindo definir um objectivo de pequeno incremento que uma sessão de treino – quer como um exercício estético, impossível de executar, mas capaz de conferir um sentimento específico a um determinado momento. Quem não se lembra da “War Pigs” dos Black Sabbath que terminava com aquela aceleração complicada de executar ao vivo (especialmente naquela altura)?

Por isso vale a pena perguntar: será que acelerar os vídeos importa alguma coisa? De certa forma podemos comparar este mecanismo com o famoso autotune que prevalece no mundo da pop e que até se tornou num emblema de alguns géneros musicais, deixando de ser um truque para esconder incapacidade vocal para passar a ser um efeito ou uma característica diferenciadora. O mundo da guitarra vê-se agora totalmente imerso nas redes socias, estas que vieram desenterrar um antigo monstro: o da guitarra competitiva ou dos jogos olímpicos da guitarra, que na década de 1980 foi o grande responsável por eclipsar quase por completo a guitarra dos géneros mais populares e afastar gerações do nosso bem-querido instrumento.

No final do dia, vamos ter sempre um grupo de pessoas que vai utilizar todos os recursos à sua disposição para obter notoriedade, mas o que a história já nos ensinou várias vezes é que os que triunfam e perduram são aqueles que constroem ou extravasam as suas composições com emoção e sentimento, sendo ou não capazes de as executar na perfeição. Muitas vezes é essa a intenção… Como Frank Zappa nos mostrou na década de 1970 com a sua “The Black Page”, que se revelou um verdadeiro pesadelo para Terry Bozzio e todos os bateristas que desde então a tentam executar! O mundo da música clássica está também carregado destes exemplos, como a tenebrosa “Opus Clavicembalisticum” de Kaikhosru Sorabji ou a atlética “Chaconne da partita nº2” do BWV 1004de Johann Sebastian Bach – afirmações fortes de personalidade onde fica bem claro que a capacidade de execução não condiciona a composição.

A liberdade para a criação deverá sempre reinar, por forma a potenciar a inovação. O artista deve ter a capacidade de se exprimir como bem entender, e as suas limitações técnicas ou físicas não deverão ser a fronteira do que este pode ou não criar. Do ponto de vista ético, é tudo uma questão de marketing e como o artista explora a sua obra/performance – qual o seu objectivo…

Os charlatões são sempre (mais cedo ou mais tarde) desmascarados, e a capacidade de detectar a falsa excelência é algo que todos deveríamos procurar, uma vez que censurar e esconder para proteger sempre levou a maus resultados.

Ao vivo é mais difícil ser tão liberal. Como espectador, prefiro ser sujeito às falhas e limitações dos músicos, partilhando o momento autêntico, visceral e único ao invés de assistir a espectáculos de mímica ao som de gravações perfeitas e esterilizadas.