“Lamenting of the Innocent” é um trabalho feito com muita alma, paixão e lucidez, de uma simplicidade e naturalidade desconcertantes. Sorcerer “Lamenting of the Innocent”

Editora: Metal Blade Records
Data de lançamento: 29.05.2020
Género: heavy/doom metal
Nota: 4.5/5

“Lamenting of the Innocent” é um trabalho feito com muita alma, paixão e lucidez, de uma simplicidade e naturalidade desconcertantes.

A Inquisição foi das piores atrocidades que a Igreja Católica Romana impôs ao mundo. Este álbum fala do combate à heresia conduzido pelo Tribunal do Santo Ofício durante cerca de 300 anos até à sua extinção em 1821 através duma narrativa ficcionada de contornos emocionais. Todo o conteúdo lírico é envolvido por uma forte carga dramática, melancólica e negra. Se os vikings sempre tiveram fama de bárbaros, o que dirão os nórdicos das actividades terroristas, das perseguições religiosas, das torturas ou dos genocídios comandados pela Igreja Católica dos povos do Sul da Europa ao longos desses séculos? É nessa perspectiva que os Sorcerer assentam a temática de “Lamenting of The Innocent”, o álbum que sucede a “In The Shadow of The Inverted Cross” (2015) e “The Crowning of The Fire King” (2017). Os horrores sofridos pelas vítimas da Inquisição são a principal substância na atmosfera que paira sobre os dez temas que perfazem o disco, desde a intro “Persecution”, passando pelos singles “The Hammer of Witches” e “Deliverance” (com Johan Langquist, dos Candlemass), e pela faixa que dá título ao álbum.

O quinteto sueco cujo núcleo duro é constituído por Anders Engberg (voz) e pelos guitarristas Kristian Niemann e Peter Hallgren, apresenta um line-up reformado com a entrada do baixista Justin Biggs e do baterista Richard Evensand. De acordo com a nota biográfica emitida pela Metal Blade, estes cinco violinos, passe a gíria futeboleira, cumprem todos os objectivos a que se propuseram, e que passamos a citar: «Great melodies, an ambient, big sound, heavy, badass riffs and big epic chorus.»

O mundo é cheio de surpresas – ninguém diria que um dos melhores álbuns de hard rock e NWOBHM de 2020 fosse sair da Suécia pelas mãos dum projecto catalogado na esfera do epic doom metal. Isso seria tão improvável como esperar dessa latitude a produção dum bom whisky de malte. No entanto, “Lamenting of the Innocent” traduz-se pela combinação perfeita dos melhores maltes que o heavy metal clássico tem para dar ao mundo. Envelhecido em cascos de Rainbow, Iron Maiden e Black Sabbath, o terceiro álbum dos Sorcerer destaca-se como o melhor dos whiskies, dono dum vigor retro em conjugação com a suavidade dum Porto bem maturado. Grandioso e épico, sem dúvida.

“Lamenting of the Innocent” é um trabalho feito com muita alma, paixão e lucidez, de uma simplicidade e naturalidade desconcertantes. Revolver este alinhamento é como sacudir o pó aos clássicos do hard rock e do heavy metal, traz aquele cheirinho reconfortante a mofo, com a vantagem duma produção moderna e impoluta que lhe confere um brilho renovado.

Um resultado deste calibre faz-nos imaginar os músicos após a masterização final, a cruzar um olhar cúmplice, cofiando as barbas com um sorriso de satisfação estampado na cara. É escusada uma análise faixa a faixa, porque o álbum vale pelo todo, sendo intenso e certeiro. Importa, isso sim, descrever o ambiente melancólico e de tragédia que prevalece em toda a extensão, a forma superiormente equilibrada nas mudanças de tom entre músicas e no seu interior ou a classe técnica duma execução vocal a la Dio, e dos instrumentais na melhor tradição do heavy metal puro e melódico. Aliás, classe é o que não falta às orquestrações e aos arranjos, os sólidos alicerces que sustentam a maioria das composições numa estrutura pop orientada para o formato canção muito por conta dos coros e dos refrãos orelhudos.

Há a notar ainda a facilidade na forma como os músicos se articulam, e uma vez mais o factor equilíbrio, desta feita no entendimento entre os dois guitarristas, entre riffs e solos, apoiados por uma secção rítmica que lhes serve de acolchoado. “Lamenting of the Innocent” é todo ele construído com conta, peso e medida. Isto não é um despejar de elogios esvaziados de significado. O álbum é tudo isto e muito mais. Perfeito. Procurem-no.