O longa-duração consegue ter a capacidade de repetir a receita, ao mesmo tempo que a inova, modifica e recria. Sepultura “Quadra”

Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 07.02.2020
Género: thrash/groove metal
Nota: 4/5

Sepultura é daquelas bandas que cria um burburinho quando começam a preparar um álbum de estúdio, apesar de muitas serem as vozes que tentam abrandar o poderio mediático e criativo desta formação que parece nunca ter sido bem aceite pelos fãs mais acérrimos dos lendários brasileiros. Ora, neste “Quadra”, o grupo liderado por Andreas Kisser quis levar o poder da narrativa um pouco mais além, como tem sido apanágio do quarteto, sobretudo desde o lançamento de “Dante XXI” (2006).

No entanto, muitos discos foram lançados desde então e muito feedback saiu à rua. Neste novo ano de 2020, o grupo preparou um dos trabalhos mais bem pensados dos últimos anos, conseguindo conservar um estilo que lhes é tão próprio, enquanto inovam em termos rítmicos e narrativos. “Quadra” é uma representação do mundo actual, do «conjunto de leis em que vivemos» e «as fronteiras das nações com linhas imaginárias que separam pessoas por conceitos de raça e do que é sagrado». Na verdade, a palavra quadra pode representar isto mesmo, apesar de ser mais típico do português do Brasil. Mas “Quadra” conta a história que é preciso contar com um álbum conceptual muito progressivo para uma banda que ajudou a desenvolver o thrash metal com os devidos tweeks temporais dos anos 1980. O longa-duração, o décimo quinto da discografia, apresenta quatro lados para um tema que merece uma escalpelização minuciosa – cada lado conta com três faixas que são apresentados de forma ordeira: o lado A apresenta os Sepultura que todos conhecemos desde a sua fundação, o lado B apresenta ritmos mais alternativos, como os brasileiros, apesar de o peso continuar a subsistir, o lado C é mais instrumental e incrivelmente rápido, e e o lado D é mais melódico e até mais sinfónico e lento.

A variedade é perceptível, apesar de que, para um álbum conceptual, cada lado acaba por saber a pouco em termos de narrativa, pois nenhum deles acaba por ser devidamente desenvolvido. No entanto, a riqueza técnica do quarteto é claramente demonstrada em grandes momentos, como “Isolation”, “Last Time”, “Raging Void”, “The Pentagram”, “Autem” e “Agony of Defeat”. Uma das grandes vantagens deste seccionamento é o poder agradar a diversos grupos de fãs, desde os mais acérrimos aos mais novatos. A vertente melódica do lado D não é demasiadamente aprofundada, podendo agradar aos que preferem o lado A ou até o lado C que, apesar de instrumental, exibe verdadeiras malhas de thrash metal, merecendo Derrick Green um descanso neste terceiro lado com a sua ausência na fantástica “The Pentagram”. Mas quem não tem qualquer tipo de descanso é o incansável Eloy Casagrande que, mais uma vez, demonstra o enorme valor que tem para a banda, rejuvenescendo-a e dando-lhe uma abertura para expor uma rapidez invulgar numa banda com quase 40 anos de carreira.

Com tudo isto, “Quadra” surpreende, não encanta nem deslumbra, mas consegue apresentar uns Sepultura frescos e prontos para a batalha. Não é fácil encontrar bandas com uma longevidade tão grande que consigam explorar diferentes conceitos, sobretudo no thrash metal, com um álbum conceptual que apresenta inovações inesperadas. Ora, para tal basta verificar o lado mais melódico deste longa-duração – a melódica “Agony of Defeat” expõe um Derrick Green incrível e um Paulo Jr. que deslumbra num registo que claramente o evidencia, e a surpreendente “Fear, Pain, Chaos, Suffering” (que até conta com um vocal feminino) apresenta um resumo muito breve das várias jornadas do ser humano numa realidade infelizmente tão contemporânea. “Quadra” pode muito bem ser o bebé de Andreas Kisser, tendo sido um dos trabalhos mais aprofundados e acarinhados pelo ele ao longo dos anos. O longa-duração consegue ter a capacidade de repetir a receita, ao mesmo tempo que a inova, modifica e recria.