Primeiro, os Sepultura quebraram as fronteiras entre o punk e o thrash. Depois inventaram um género totalmente novo. Aqui, Max Cavalera... Sepultura: a história de “Roots”

Primeiro, os Sepultura quebraram as fronteiras entre o punk e o thrash. Depois inventaram um género totalmente novo. Aqui, Max Cavalera fala sobre o álbum que mudou o metal para sempre.

Provavelmente a primeira banda de metal a desafiar o domínio da América e da Europa no cenário mundial, os Sepultura colocaram o Brasil no mapa em termos inequívocos em meados dos anos 1980. Numa altura em que thrash, death e black metal eram essencialmente a mesma coisa, o guitarrista Max Cavalera, o seu irmão baterista Igor, o baixista Paulo Pinto (Jr.), o guitarrista Jairo Guedes e, brevemente, o vocalista Wagner Lamounier reuniram-se pela primeira vez em Belo Horizonte, Brasil, em 1984. Na época em que a primeira maquete foi gravada, Max tinha assumido funções vocais e começou a moldar o som primitivo, mas inovador da banda – uma nova estirpe de metal vicioso, negro e cru que devia tanto à simplicidade do punk hardcore como às estruturas mais complexas da cena thrash emergente. Um EP, “Bestial Devastation”, surgiu através da editora brasileira Cogumelo Records em 1985 e foi seguido pelo primeiro álbum “Morbid Visions” em 1986.

Apanhados pela Roadrunner e lançados ao destaque internacional pelo sucesso underground do seminal “Schizophrenia”, de 1987, que também marcou a saída de Jairo e a chegada do seu substituto, Andreas Kisser, os Sepultura estavam a transformar-se numa grande força musical. A destruição precisa e mais orientada ao thrash dos álbuns “Beneath the Remains” (1989) e “Arise” (1991) estabeleceu ainda mais os Sepultura como um grande êxito e, apesar do declínio comercial do metal no início dos anos 1990, a banda viu-se a acumular uma global vasta base de fãs e uma reputação crescente como uma das poucas bandas de death metal capazes de gerar vendas significativas de álbuns.

Em 1993, os Sepultura lançaram o quinto álbum. Não menos brutal ou intenso do que os seus predecessores, “Chaos AD” foi, no entanto, uma mudança significativa para a banda, incorporando grooves esmagadores e de ritmo médio e um maior grau de experimentação. Gravado no País de Gales com o renomado produtor Andy Wallace, o álbum contou com colaborações do vocalista dos Dead Kennedys (Jello Biafra em “Biotech Is Godzilla”), Evan Seinfeld dos Biohazard (“Slave New World”) e uma cover de “The Hunt”, dos politizados britânicos New Model Army, o que sugeria uma ampliação das perspectivas da banda. Contudo, foi a inclusão de “Kaiowas”, um instrumental acústico impulsionado pela percussão tribal e gravado ao vivo no Castelo de Chepstow, que realmente apontou aos desenvolvimentos inovadores que se seguiriam. Mais do que qualquer outra coisa, “Chaos AD” ensinou a Max o valor de correr alguns riscos – uma abordagem que daria frutos gloriosos no próximo álbum dos Sepultura…

«O verdadeiro início de “Roots” começou comigo a ver um filme chamado “At Play in the Fields of the Lord”», recorda Max. «É sobre dois missionários que vão para a floresta tropical. Chamei a Gloria [esposa de Max e ex-agente de Sepultura] e disse: ‘Provavelmente vais pensar que sou maluco, mas gostava de gravar um álbum conceptual e será gravado com as tribos brasileiras.’ Eu queria aprofundar-me nas raízes da música brasileira. A Gloria disse algo como: ‘É uma óptima ideia, mas não temos esse tipo de dinheiro. Como é que vais fazer isso?’ De alguma forma, contornámos isso e o conceito cresceu. Falei com a directora brasileira dos assuntos indígenas. São centenas de tribos e ela levou-nos até à tribo Xavante, que tem a mente mais aberta aos brancos e à música. Um bando de aberrações com cabelos compridos não teria permissão para se aproximar de algumas das outras tribos!»

Mas primeiro, Max e Gloria tiveram de convencer Cees Wessels, o dono da Roadrunner Records, de que valia a pena investir no projecto.

«Ele disse: ‘OK, então vais fazer um álbum que soa a uma compilação de reggae e gravá-lo com um bando de índios nus? Perdeste a cabeça!’ Assustámo-lo como o c*ralho, mas concordou. Ele confiou em mim, confiou na Gloria.»

A próxima etapa do projecto “Roots” era recrutar um produtor compreensivo. Entra em cena Ross Robinson, o excêntrico rebelde das mesas de mistura que era, em meados dos anos 1990, sinónimo da chegada de um novo estilo de metal propagado por nomes como Korn e Deftones.

«Descobri Deftones através do meu enteado, o Dana», explica Max. «Ele apareceu com uma cassete deles e soava muito diferente. Achei muito porreiro – soa a metal, mas com todas aquelas outras merdas a acontecer.»

Depressa os Sepultura e aquela nova geração de bandas metal formavam uma sociedade de apreciação mútua e os brasileiros iam para o estúdio de Ross Robinson, em Malibu, com as cabeças a transbordar de uma nova inspiração.

«Eu soube mais tarde que os Deftones ouviam o “Chaos AD” a toda a hora quando gravaram o seu primeiro álbum, por isso é incrível que a coisa toda tenha dado 360 graus», observa Max. «Eu estava na descoberta e eles já tinham descoberto o que estávamos a fazer. O mesmo com Korn. Eles gostavam muito do “Chaos AD”. Acho que o Ross entrou em cena através dos gajos de Korn.»

Mais conhecido pelo seu trabalho na estreia de Korn, Ross pode não ter parecido a escolha mais óbvia como produtor para Sepultura, até pela sua reputação de se comportar como um maníaco durante as gravações.

«Ele era famoso por atirar coisas e criar o caos», diz Max. «Ele não foi assim connosco. Acho que estávamos a dar espectáculo ao Ross e não o contrário. Éramos pessoas muito sólidas. Sabíamos o o que estávamos a fazer e tivemos aquela ideia selvagem para o conceito. Acho que o Ross ficou mais chocado do que nós. Ele garantiu que captássemos performances ao vivo realmente fortes. Ele estava pronto para registar tudo, qualquer erro ou coisa espontânea. A fita estava sempre ligada, por isso ele captou um monte de coisas porreiras e soava realmente ao vivo. O exemplo perfeito é “Spit”. É tão crua e viva. Ouves com auscultadores e é como estares no estúdio com a banda.»

A primeira música que alguém ouviu vinda das sessões de “Roots” foi, claro, a poderosa “Roots Bloody Roots”. Até hoje o momento decisivo nas carreiras de Sepultura e de Max, esta violenta tirada de riffs estrondosos, percussão retumbante e a voz de chamamento às armas vinda da garganta de Max foi um clássico instantâneo quando lançada como single pouco antes do lançamento do álbum.

«A “Roots…” captou realmente a imaginação das pessoas», concorda. «As pessoas adoram e as bandas gostam de tocá-la porque é muito fácil! [risos] É apenas uma corda, um riff repetido, como um mantra. Devia escrever mais músicas com apenas uma corda – toda a gente gostaria mais disso do que todas as merdas complicadas que faço. Há algo nisso que é muito cativante. Gravei sozinho, com guitarra e bateria electrónica, antes de começarmos o álbum, quando o conceito ainda me era muito pessoal.»

O momento decisivo nas sessões de gravação de “Roots” surgiu no final do processo, quando os Sepultura viajaram até às profundezas da floresta tropical brasileira para gravar “Itsári” em colaboração com a tribo indígena Xavante – o cumprimento do conceito de Max para “Roots”.

«Gravamos em Malibu durante um mês, mas visitar a tribo foi como gravar outro álbum inteiro», diz Max. «Foi apenas para uma música, mas foi uma experiência totalmente diferente. Voámos para o Brasil e depois fomos numa avioneta que parecia um Volkswagen velho. Todos pensavam que íamos cair. Era um avião pequeno e f*dido! [risos] Portanto, voámos para o meio do nada – floresta por todo o lado e uma faixa de terra para pousar. Ficámos três dias com a tribo. Foi mesmo uma merda selvagem à National Geographic.»

Apesar das diferenças culturais e da estranheza de toda a situação, tanto os Sepultura como a tribo Xavante divertiram-se muito a gravarem juntos, principalmente quando o produtor da banda proporcionou um entretenimento inesperado enquanto as fitas rodavam…

«Quando ouves a “Itsári”, a meio dá para ouvir os índios a rir», diz Max. «Estávamos sentados num círculo de 60 índios, nós no meio e o Ross estava a tentar entusiasmá-los, então ele andava a correr à volta deles enquanto abanava um galho e caiu de cu. Os índios começaram todos a rir daquele gajo maluco que caiu de cu. Para mim, a cena toda foi uma óptima experiência, toda a magia disso. Foi tão original e tão diferente. A tribo era incrível. Eles deram-nos umas grandes máscaras rituais que tenho em minha casa – demos-lhes todos os instrumentos. Pensei que talvez eles formassem a sua própria banda algum dia! [risos]»

Com alguns toques estilísticos sacados da nova geração metal, a atmosfera nítida de “Itsári”, notáveis colaborações com Jonathan Davis (Korn) e Mike Patton (nos loops de “Lookaway”) e a influência caótica, mas poderosa, da abordagem única de Ross Robinson para a produção de discos metal, “Roots” sempre esteve destinado a ser um capítulo radical na história dos Sepultura. Mas a ideia mais bizarra que surgiu nas sessões do álbum veio do próprio Max.

«Enterrámos as fitas master no subsolo», ri. «Acho que estava com a moca. Eu queria captar as ondas terrestres da gravação. Estávamos nas montanhas. Todo o lugar parece uma sessão de fotos de Black Sabbath, com uma grande floresta. Foi de loucos. Então eu disse: ‘F*da-se, vamos enterrar as fitas!’ Enterrámo-las durante 24 horas. O Ross estava completamente nessa. Quando o Andy Wallace recebeu as fitas para fazer as misturas finais havia sujidade e merda por todo o lado. Graças ao Ross, soou muito cru e f*dido.»

Finalmente lançado em 1996, “Roots” tornou-se rapidamente o álbum mais vendido dos Sepultura e levou Andreas, Paulo, Igor e Max a um nível de popularidade e aclamação que superou as expectativas de todos os envolvidos. Foi uma situação que os apanhou de surpresa e sobre a qual Max nunca chegou a um termo, permanecendo ambivalente em relação ao enorme impacto e sucesso do álbum.

«De certa forma, eu preferia o lado não tão bem-sucedido de se estar numa banda», encolhe os ombros. «Ficou tudo muito grande. Foi estranho, porque nos tornámos uma tendência e havia algo de errado nisso. Éramos uma banda de metal, devíamos ser ovelhas negras! Há gente que gosta, mas supostamente toda a gente devia detestar. Quando todos gostam, há algo de errado, seja connosco ou com o mundo! [risos] Por isso, não gostei assim tanto do “Roots”. Agora é estranho para mim porque olho para trás e penso na maneira como me separei da banda naquela altura, logo após o “Roots”.»

A saída de Max dos Sepultura no final do ciclo de promoção a “Roots” foi recebida com consternação pelo exército de fãs da banda. Quando o resto da banda decidiu que não queria mais ser gerido por Gloria, danos irreparáveis foram causados nos relacionamentos internos e Max foi embora, apenas para ressurgir alguns meses depois com uma nova banda, Soulfly, que deu às experiências em world music de “Roots” alguns passos em frente enquanto mantinha as raízes de Max no metal bruto. Os Sepultura recrutaram um novo frontman, Derrick Green, e deram início a uma variedade de saltos tangenciais em “Against”, de 1998, o primeiro álbum sem Max.

Apesar do fim da formação clássica da banda e da turbulência pessoal que cercou esses acontecimentos, Max está extremamente orgulhoso de “Roots”, da sua importância na sua carreira e na evolução contínua do próprio metal.

«O “Roots” levou o metal a um novo nível», conclui. «É considerado um dos álbuns metal mais inovadores. O Dave Grohl disse numa entrevista que o “Roots” lhe mudou a vida. Portanto, sim, é óptimo ter-se feito isto. É bom que as pessoas saibam que não tínhamos medo de correr riscos e de fazer o que pensávamos ser certo. E tudo surgiu por ver um filme. É um álbum porreiro como o c*ralho.»

Consultar artigo original em inglês.