A experiência vivida em “Hearts of No Light” é abastada e sempre muito sensorial, mostrando que os Schammasch sabem como se devem movimentar neste... Schammasch “Hearts of No Light”

Editora: Prosthetic Records
Data de lançamento: 08.11.2019
Género: avant-garde black metal
Nota: 4/5

Uma das reacções que mais se ouviu após a actuação dos Schammasch no Vagos Metal Fest de 2018 foi precisamente o pedido de um novo álbum. Pouco mais de um ano depois da última passagem da banda pelo nosso país, os helvéticos surgem então com “Hearts of No Light”, prosseguindo assim a sua visão vanguardista no vasto mar de ideias que é o metal.

Se a segunda “Ego Sum Omega” é black metal atmosférico influenciado pela ortodoxia do género em relação aos aspectos melódicos provenientes de guitarras cativantes, a quarta “Qadmon‘s Heir” apresenta as primeiras abordagens a concepções dissonantes, com riffs a fazer lembrar criações que os Blut Aus Nord ajudaram a tornar-se mais populares. Tirando a introdução (“Winds That Pierce the Silence”) e o interlúdio (“A Bridge Ablaze”), que são pontes ricas em ambiências ritualistas, é também com a mencionada quarta faixa que somos primeiramente atingidos por uma toada cerimonial negra.

Seguidamente, “Rays Like Razors” é praticamente o culminar das duas faixas atrás detalhadas, havendo todo um percurso atmosférico e denso que preenche o vazio à nossa volta, deixando assim de existir vácuo, e, ao contrário do que muitas vezes acontece, a velocidade e a união de todos os instrumentos (sem esquecer uma voz agressiva mas em agonia) origina um ambiente quente, talvez não pelo enxofre mas por um fervor profético.

Por seu lado, “I Burn Within You” abre um novo capítulo neste disco, um que é muito mais avant-garde do que até aqui verificado, e, como não podia deixar de ser, o mais esquizofrénico e desorientado psicologicamente com tempos estranhos e estruturas complexas, havendo espaço para piano e para o convidado de honra Aldrahn (Thorns, ex-Dødheimsgard).

Acto contínuo, “A Paradigm of Beauty” prossegue a onda avant-garde de uma forma tão inteligente que ao longo dos seus quase oito minutos de duração somos surpreendidos por uma nítida inclinação ao rock/gótico alternativo, tanto pelas guitarras quase limpas como pela voz, também ela, próxima da claridade.

Por fim, “Katabasis” retorna ao plano ortodoxo, sem nunca se pôr de lado a noção atmosférica, e abre caminho para 15 minutos de introspecção, esoterismo, experimentalismo e exotismo em “Innermost, Lowermost Abyss”.

Assim, a experiência vivida em “Hearts of No Light” é abastada e sempre muito sensorial, mostrando que os Schammasch sabem como se devem movimentar neste campo mais esotérico, estando nós, muito provavelmente, perante o melhor álbum dos suíços.