«Estou completamente pronto para isto, vamos lá!» É assim Frost: a chamada telefónica é efectuada à hora certa e transpira-se vontade, algo que não... Frost (Satyricon): «Black metal faz parte da nossa linguagem»

«Estou completamente pronto para isto, vamos lá!» É assim Frost: a chamada telefónica é efectuada à hora certa e transpira-se vontade, algo que não era para menos, até porque “Deep calleth upon Deep” é um grande regresso dos noruegueses Satyricon, e a banda sabe disso. «Estamos muito entusiasmados, pois adoramos este álbum. Temos muito orgulho no que fizemos», conta. «Passaram-se alguns anos desde o último álbum [“Satyricon”, 2013] e quando ouvimos o produto final ficámos muito contentes por perceber que era este o álbum que queríamos gravar. Agora parece-me muito natural e para um músico é sempre gratificante poder tocar músicas ao vivo de um disco assim.» Bons sentimentos emanam deste trabalho, algo surpreendente se tivermos em conta que o vocalista Satyr foi diagnosticado com um tumor cerebral em 2015, algo do qual se encontra recuperado mas que, ainda assim, teve um grande impacto na sua vida pessoal e que colocou em risco o futuro da banda. Sobre este acontecimento e a sua repercussão, Frost comenta: «Houve algum medo em torno do seu estado de saúde, principalmente aquele receio de não se saber o que é que o dia de amanhã poderá trazer ou durante quanto mais tempo podemos aguentar. Não é um bom lugar para se estar. Percebes que não tens grande margem para perder tempo; há que aceitar o que a vida nos dá e tentar viver da melhor forma que conseguirmos, e tornarmo-nos também melhor naquilo que fazemos.» Tal postura pode ser verificada neste álbum, onde há uma clara intenção de levar Satyricon um pouco mais adiante: «Tornámo-nos melhores e não nos cingimos ao que já sabíamos. Fomos um pouco mais alto e um pouco mais em frente», revela. “Deep calleth upon Deep” destaca-se assim da restante discografia dos Satyricon como um novo capítulo, não só para a banda mas também para os fãs: «Quando oferecemos um álbum aos nossos fãs, oferecemos a música, a paisagem sonora, os sentimentos, a energia, a atmosfera… A forma como tudo isto chegará aos diferentes ouvintes dependerá de cada um deles. Criamos música pela qual nós próprios nos sentimos apaixonados e à qual nos dedicamos muito. As pessoas que já nos seguem há algum tempo, e que até aqui gostaram do trabalho dos Satyricon, vão também gostar do que nos faz sentir apaixonados.» Frost refere ainda que acredita ter dado aos fãs aquilo que considera ser «uma fonte rica em música», de onde podem ir beber os «sentimentos, energia e vida» daquele que é um dos duos mais prolíferos da história do metal extremo.

É frequente considerarmos o primeiro ou os primeiros álbuns de uma banda como os melhores da sua discografia, e no caso dos Satyricon o álbum de eleição é “Nemesis Divina”. Lançado em 1996, este disco quebrou logo todas as regras do black metal ao apresentar um artwork vivo (para a época), com temas devastadores e cheios de confiança, que deram aos Satyricon toda uma nova e refrescante visão. O próprio Satyr admitiu que este foi o álbum pioneiro da carreira da banda e é daí que retiram o maior número de temas para as suas apresentações ao vivo. Já Frost olha para isto com uma perspectiva diferente, que passa desde logo a explicar: «Daquilo que posso retirar da nossa experiência e realidade, vejo muitas pessoas que acham que é assim mas não é, de todo, a nossa experiência. Quando damos um concerto, seja onde for, sentimos que obtemos uma resposta maior com os temas novos, enquanto com as músicas mais antigas dá a entender que só atingimos um certo número de pessoas; aqueles fãs mais antigos que seguem a banda há muito tempo, sabes? Ou que gostam de uma determinada era em particular. Mas, no geral, sinto que as músicas que são mais bem recebidas pelo público são as recentes.» Para os que nutrem mais simpatia pelos clássicos, Frost mostra-se igualmente satisfeito: «Não nos importamos se preferem os nossos temas mais velhos. Nós também somos velhos, por isso…» O baterista admite ainda ouvir os primeiros registos da banda, dizendo, no entanto, que é mais estimulante para os Satyricon tocar e ouvir os novos: «Há bandas que parecem ter ficado presas a padrões de retrospecção e que, apesar de continuarem a ser capazes de criar boa música, sentem que os seus melhores dias já passaram e concentram-se nos êxitos antigos. Pelo menos aqui, nos Satyricon, sentimos que estamos melhores a cada álbum: melhores na composição, nas actuações, desenvolvemos capacidades que não tínhamos antes, e isto é algo que contribui muito para nós enquanto banda. Somos uma melhor banda hoje em relação ao que éramos no passado.» O norueguês deixa também um aviso para quem opta pelos trabalhos mais antigos: «Ao dizerem que preferem os nossos primeiros álbuns aos mais recentes, pelo menos façam-no de uma forma honesta, por ser isso que realmente sentem. Não o façam só porque alguém expressa uma opinião diferente.»

Com o passado a ter um papel muito activo nesta entrevista, Frost aproveita para recordar os tempos em que a cena black metal norueguesa começou a atrair muitas atenções. Formados em 1991, os Satyricon juntavam-se assim ao núclero duro do black metal, lado a lado com Mayhem, Burzum e Darkthrone. «Eram tempos mais entusiasmantes», conta-nos o músico. «Em primeiro lugar, há muita música que foi criada nessa altura que ainda hoje tem um grande impacto. Gosto de pensar que os álbuns que gravámos nesse tempo foram trabalhos pioneiros. Agora não faz sentido tentar recriar algo que foi feito especialmente no início da década de 1990 e que já foi repetido vezes sem conta durante décadas, mas naquele tempo éramos todos pioneiros do género e vivemos tempos muito entusiasmantes. Para aqueles que não estavam lá, torna-se mais difícil entender sobre o que era este movimento. O espírito e os ideais que partilhávamos à volta do black metal ser algo extremo e que desafiava os limites físicos, espirituais e ideológicos. Havia toda uma atitude que de certa maneira se pode comparar ao que aconteceu no punk na década de 1970.» Mais do que apenas inovadora, a cena black metal que se viveu na Noruega era, para o baterista, «sincera e partilhada entre indivíduos excepcionais e muito dedicados». «Este tipo de espírito é como uma espécie de orgasmo que dura por pouco tempo, mas poder ter estado lá e vivido isto foi muito importante para nós e para os Satyricon. Esta chama do black metal já desapareceu por ter ficado tão gasta durante os anos em que existiu, mas continuamos a transportá-la nos nossos corações e nas nossas mentes, esperando que esta fase relevante e sem precedentes viva na nossa música. O black metal faz parte da nossa linguagem.»