A lançar novas músicas incendiárias, a ir para as ruas protestar, a apimentar as coisas em casa: o líder de Machine Head, Robb Flynn,... Robb Flynn: «Estou a ter duas vezes mais sexo do que antes da pandemia. Podia ser muito pior!»

A lançar novas músicas incendiárias, a ir para as ruas protestar, a apimentar as coisas em casa: o líder de Machine Head, Robb Flynn, não desperdiçou o tempo em quarentena.

Foto: Travis Shinn

Robb Flynn não precisava de uma pandemia global para se esconder. O espectacular frontman e líder incansável de Machine Head já tinha adquirido o hábito de aproveitar ao máximo o conforto da sua casa antes do mundo, de repente, ter parado de girar. Nos últimos dois anos, quando não estava na estrada, passou praticamente cada segundo trancado em casa nos arredores de Oakland, Califórnia, com a esposa e os dois filhos, a desfrutar da vida familiar, a escrever no blog e a trabalhar em potencial novo material de Machine Head.

«Nunca tinha percebido o quanto sou eremita até o mundo ter entrado em quarentena!», ri através do telefone. «Quando não estou na estrada, trabalho em casa, portanto a minha vida não é realmente muito diferente. Comprei alguns equipamentos de ginástica, transformámos a garagem numa área de treino, pusemos lá um sofá e a minha esposa e eu começámos a ter um encontro nocturno à sexta e sábado em que apenas vamos para a garagem e vemos ao pôr-do-sol e bebemos.» Faz uma pausa antes de dizer com outra risada: «Estou a ter duas vezes mais sexo do que antes da pandemia. Não é assim tão mau! Podia ser muito pior!»

Certamente, Robb aproveitou ao máximo a quarentena. Para além de lançar novas músicas de Machine Head (mais sobre isso à frente), pode ser encontrado a tocar covers acústicas online, a apresentar o seu novo podcast “No F’n Regrets”, a ter aulas de canto («Preciso de desaprender algumas hábitos») e a aproveitar ao máximo o tempo extra com a patroa. Enquanto conversamos no final de Junho, grande parte do mundo está a começar a abrir-se novamente – no Reino Unido, bares, cinemas e espaços públicos estão a voltar provisoriamente ao negócio, enquanto nos EUA vários Estados aceleraram o regresso à ‘normalidade’ com resultados variáveis, já que mais de metade reportou um aumento de novos casos de coronavírus. A sociedade ainda está muito longe de qualquer coisa verdadeiramente semelhante à vida normal, e a indústria da música será certamente uma das últimas a retomar o negócio normalmente na totalidade.

Tudo se tornou mais surpreendente quando, do nada, Robb lançou novas músicas, totalmente misturadas e masterizadas, de Machine Head – uma delas, “Stop the Bleeding”, não só teve uma aparição do vocalista dos Killswitch Engage, Jesse Leach, como também surgiu num vídeo que acompanha os dois frontmen. Ainda mais interessante é que tanto “Stop the Bleeding” como a companheira “Bulletproof” foram claramente gravadas após o assassínio de George Floyd e a explosão internacional Black Lives Matter que se seguiu.

«Gravei a música há um tempo», revela Robb. «Para mim, por algum motivo, [Stop The Bleeding] teve sempre um pouco da onda de Killswitch, então fui à procura do Jesse. Estávamos a conversar nas DMs do Instagram, e disse: ‘Ei, tenho esta música, adorava que participasses nela se tiveres hipótese.’ Ele estava em digressão e eu estava em digressão, então pensámos: ‘Tanto faz.’ Depois tive-o no podcast, e, cerca de uma semana depois, disse: ‘Ei, talvez agora seja um bom momento para se pensar naquela música.’»

Nessa altura, a música não tinha letra, mas assim que Robb começou a reunir os seus pensamentos sobre um assunto, um vídeo, que chocaria o mundo e desencadearia o maior movimento pelos direitos civis numa geração, foi partilhado online. Quando o clip da morte sem sentido de George Floyd começou a rebentar, Robb ligou-se, assistiu aos 7 minutos e 46 segundos que enojariam uma nação e começou a escrever.

«Fiquei furioso», diz, e o bom humor tinha firmemente desaparecido da sua voz. «Escrevi todas aquelas letras e fui até Oakland. Já estavam a acontecer todos aqueles protestos e manifestações, e passei por todos eles, entrei no meu estúdio e, literalmente, vomitei cada palavra que tinha escrito uma hora antes. Copiei a letra e mandei uma mensagem ao Jesse, do tipo: ‘Pá, escrevi estas letras, estou f*dido da vida, entras nisto?’ Respondeu-me imediatamente: ‘100%, estou dentro, vamos fazer isto.’»

E assim, os Machine Head lançaram “Stop the Bleeding” e “Bulletproof” sob o título “Civil Unrest”, um mini-EP com artwork que inclui imagens de George Floyd, Donald Trump e da polícia de choque. Foi um dos tiros mais audíveis disparados do universo metal em apoio ao movimento Black Lives Matter, cujos protestos ainda estavam a acontecer em todo o mundo, ao mesmo tempo este mesmo texto estava a ser escrito. Não satisfeito em simplesmente produzir arte em nome do protesto, no entanto, Robb também fez questão de sair para mostrar o seu apoio nas ruas, participando em algumas manifestações do BLM no seu Estado natal.

«Fui a um em Oakland», conta. «E depois fomos a um em Sacramento, cerca de uma hora e meia de carro.»

Como o seu pai mora em Sacramento, Robb pensou em trazer os seus filhos e aproveitar a oportunidade para dar continuidade à rica tradição da família Flynn.

«O meu pai entrou para o exército quando tinha 18 anos, cumpriu o seu tempo, foi dispensado com honra, odiou a guerra do Vietname e foi protestar contra ela», revela. «Vi esses dois lados: podias servir o teu país e, ainda assim, não concordar com tudo o que o teu país está a fazer. Ele marchou contra a Guerra do Vietname, marchou nos protestos pelos direitos civis, marchou pelos direitos das mulheres. Então, fazer isto com ele, fazer isso com três gerações de Flynns, foi poderoso. As pessoas estão f*odidas da vida, pá – Bristol do c*ralho, derrubaram aquele merdas comerciante de escravos [estátua de Edward Colston]! Eu estava do tipo: ‘P*ta que pariu, pá!’ Que se f*dam, vamos pôr essa merda toda abaixo.»

A voz de Robb tem sido um bem-vindo chamamento às armas na cena metal que, de forma inexplicável, continua a lutar internamente quanto ao cenário político actual. Apesar da política e do metal andarem de mãos dadas desde que uma pequena banda chamada Black Sabbath escreveu uma música intitulada “War Pigs”, e apesar de vários membros de Sabbath, Avenged Sevenfold, Rage Against The Machine, System Of A Down, Beartooth, Architects, Venom Prison, Loathe e incontáveis outros mostrarem apoio ao movimento Black Lives Matter, algumas pequenas facções do mundo metal ainda parecem genuinamente doridas com a ideia de terem as suas bandas favoritas a defender a justiça social. ‘Deixem a política fora do metal’ é um comentário surpreendentemente comum em websites e redes sociais. Chiça, até bandas que sempre carregaram orgulhosamente as suas crenças não estão imunes a tal discurso – perguntem a Tom Morello, que parece ter que recordar regularmente às pessoas que é formado em ciências políticas por Harvard e toca em Rage Against The Machine. É uma retórica curiosa que Robb também enfrentou, apesar de ter escrito músicas políticas em Machine Head desde o início da banda.

«Isso confunde-me muito», admite com um suspiro. «Do tipo, estou genuinamente perplexo com isso. ‘Cala-te e canta.’ Achas que estou a cantar sobre o quê? Calo-me e canto sobre o quê? “Clenching the Fists of Dissent” ou “Aesthetics of Hate” ou “Halo”? Talvez haja gente que não ouve a letra, não sei. Talvez estejam apenas a ouvir os riffs e o groove, mas, para mim, isto é a mesma coisa sobre a qual cantamos desde 1992. Não é diferente para mim. Não sei por que é que é diferente para eles.»

Basicamente, não esperem que Robb pare de fazer a boa luta tão cedo. Se uma pandemia global não o impediu, é improvável que alguns comentários insensatos o travem. Mas, e quanto a mais músicas novas? Embora, liricamente, o novo material de Machine Head seja inspirado em eventos muito recentes, parece que, pelo menos musicalmente, já anda a trabalhar há algum tempo. Será que a quarentena poderia ter ajudado a pôr um novo álbum de Machine Head em acção? Provavelmente não…

«Não estou preocupado em lançar álbuns a cada três anos», responde Robb, simplesmente. «Adoro a ideia de lançar singles digitais porque podemos lançá-los [a qualquer momento]… ‘Este single foi masterizado há dois dias e já está cá fora!’ Temos feito isso há algum tempo – fizemos [o single de 2016] “Is There Anybody Out There?”, que foi um enorme sucesso. Já se passaram dois anos e meio desde “Catharsis”, um álbum está pelo menos a um ano de distância. Precisamos de muito tempo, pá. Gosto da ideia de lançar músicas a cada dois ou três meses e dar aos fãs esse fluxo constante de músicas novas. Já o dizia na pré-pandemia, e agora que a pandemia atacou, sinto que esta é a maneira de estar.»

Os tempos estão a mudar e temos de mudar com eles. Seja através da evolução dos Machine Head ou simplesmente a garantir que Robb Flynn está a juntar a sua voz aos sons do progresso, podemos pelo menos contar com ele para fazer sua parte.

Consultar artigo original em inglês.