Vocalista de Judas Priest, revolucionário Metal God, ícone revestido de aço – esta é a incrível vida de Rob Halford. Rob Halford: a história da minha vida

Vocalista de Judas Priest, revolucionário Metal God, ícone revestido de aço – esta é a incrível vida de Rob Halford.

Foto: Justin Borucki

Não é à toa que chamam Metal God a Rob Halford. O frontman dos Judas Priest ajudou a definir o som e a aparência do metal nos anos 1970 e 1980, desde os gritos operáticos ao uniforme de cabedal e o humor irónico. No final dos anos 1990, tornou-se o primeiro vocalista metal abertamente gay quando confirmou a sua homossexualidade numa entrevista marcante («Tornei-me o imponente homo do heavy metal», brincou posteriormente).

Um hiato de 11 anos com os Priest terminou em 2003 – desde então, a banda lançou uma série de álbuns que ajudaram a consolidar a sua reputação como uma das maiores influências do metal moderno, mesmo que nunca tenham sido totalmente aceites pelos guardiões da cultura musical mainstream. Mas comecemos voltando ao início…

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Onde e quando nasceste?
Nasci a 25 de Agosto de 1951. Nasci na casa da minha tia em Sutton Coldfield – foi aí que vim cá para fora sem aviso! E depois, claro, a minha mãe e o meu pai mudaram-se para Walsall, onde ainda tenho uma casa.

Qual é a tua primeira memória de infância?
Acho que, provavelmente, foi quando tinha uns quatro ou cinco anos, a andar pelas ruas do município onde fui criado. Acho que é a memória mais significativa para mim, mas também consigo recordar-me da foto que a minha irmã e eu tirámos antes disso. A minha mãe ainda tem essa foto, e estávamos com umas marionetas. Obviamente, houve fotos tiradas antes disso, mas essa é a primeira sessão oficial de que me lembro!

Como é que te davas com os teus irmãos?
Muito, muito bem. A minha irmã é um ano mais nova do que eu e nunca agimos como irmão e irmã – somos os melhores amigos. Cuidámos sempre um do outro e apoiamo-nos. Quando o nosso irmão mais novo nasceu, éramos ambos adolescentes e um estranho tinha chegado – não que queira chamar isso ao nosso Nigel! Mas quando és adolescente, estás a explorar o mundo e, de seguida, outro membro da família aparece e tornas-te novamente muito voltado para o lar e sentes-te muito protector da família. No geral, sempre fomos como uma família típica. Houve sempre um pouco de atrito entre nós – como deverá ser. Acho que isso acontece quando o carácter se desenvolve e é assim que nos ajudamos uns aos outros através dos obstáculos da vida.

Como foi ser o mais velho de três filhos a crescer numa área tão carente?
Toda a gente sabe que algumas partes de West Midlands são incrivelmente pobres, mas são pessoas honestas e trabalhadoras. Quando nasci, no início dos anos 50, a Segunda Guerra Mundial tinha acabado há apenas alguns anos e ainda havia racionamento. Mas as pessoas estavam muito orgulhosas e determinadas para voltarem e voltarem fortes. A vida era muito difícil. O meu pai trabalhava na indústria do aço e a minha mãe trabalhava em casa e também nas fábricas e outras coisas, mas foi uma boa infância.
Como a maioria das comunidades municipais, todos cuidavam de todos. Toda a gente sabia dos outros. Tenho muitas boas lembranças daquela época. Foi um bom lugar para começar a vida e ensinou-me o valor do trabalho árduo, e acho que essa ética ainda está enraizada nos Judas Priest. Ainda somos músicos que trabalham duro. Nunca tomamos nada por garantido e ainda temos aquela ligação inicial do porquê de querermos estar numa banda.

Continuando daí – num momento específico, quão difícil foi assumires-te?
Acho que esse tipo de experiência, em termos de pressão envolvida, é algo pelo qual toda a pessoa gay passa – sentes-te isolado e sentes que és a única pessoa no mundo que tem esse tipo de sentimento. Naquela altura, não se falava sobre esse tipo de coisas. Não era falado na impressa, nas novelas ou na TV. E, quero dizer, quanto a mim, foi só no final dos meus vintes que senti que era realmente parte de algo maior, sabes?
Acho que usei a minha música para trabalhar toda aquela agressão reprimida e a depressão que estava a sentir, já que todos usamos a música para desabafar. Eu sei que hoje ainda é difícil – mesmo com a ampla base da cultura popular no Reino Unido, ainda existe uma atitude muito preconceituosa em relação à homossexualidade. Eu sei que agora é um pouco mais fácil, mas ainda é difícil, especialmente no mundo do heavy metal. Embora, dito isto, eu goste de pensar que fiz explodir esse mito em particular.

O que sentes ao ser rotulado como um ícone gay?
Acho que quando és reconhecido por isso, é algo que não estás à espera. No fundo, sou um vocalista de heavy metal numa banda. Só porque a minha sexualidade não é considerada a norma, por algum motivo, parece que isso tem sempre um pouco de interesse extra na imprensa. Acho um bocado engraçado eu não ter absolutamente nenhuma relação com a imprensa gay – não que eu esteja à procura disso. Nunca fui abordado por nenhum desse tipo de publicações, porque acho que o heavy metal ainda é visto pela imprensa em geral como um ambiente muito machista e masculino, e a imprensa gay ainda o trata com algum distanciamento.

Não achas irónico que a imagética e as roupas de Judas Priest espelhem certos aspectos da cultura gay, mesmo com o heavy metal a considerar-se um movimento veementemente heterossexual?
Honestamente, isso nunca foi uma consideração! Quando incluímos essa imagética na nossa música, foi puramente para enfatizar a ligação entre como soamos e como parecemos – soamos assim, então temos de parecer assim. Sempre achei irónico que um certo aspecto da cultura gay também tenha escolhido vestir-se dessa maneira. Não gosto desse tipo de coisas. É para o que te der, sabes? Eu sou o que chamariam de gay muito enfadonho.

Nos anos 1980, quando era tudo sobre rapazes bonitos com batom e sacar miúdas a toda a hora, como é que te saías com as groupies?
Nunca me safei! [risos] E isso é triste. Fui celibatário praticamente durante toda a minha carreira musical. Eu sei que deveria ser sexo, drogas, rock ‘n’ roll… Bem, dei na droga e ainda faço rock ‘n’ roll, mas o mais próximo que cheguei do sexo foi voltar para o meu quarto de hotel e bater uma punheta! [risos] Não quero destruir a ideia de ninguém sobre o estilo de vida, mas, basicamente, dás um concerto, lavas-te, comes qualquer coisa e voltas para o quarto de hotel… sozinho!

Voltando atrás, como era a tua relação com teus pais enquanto crescias?
Na maior parte era muita, muito boa. Não me lembro de nenhum grande momento de problemas em si. Os meus pais eram muito abertos quanto a garantir que os seus filhos eram felizes.

Qual foi a reacção dos teus pais quando lhes disseste que querias pertencer a uma banda? Foi pior do que quando lhes disseste que eras gay?
Acho que pressentiram – a banda, quero dizer. Não me senti totalmente sério sobre ser um músico profissional até ao final da minha adolescência. E quando tinha 20-21 anos já fazia parte desse mundo. Mas a filosofia da minha mãe para tudo era: ‘Estás feliz? Bem, se estás feliz, estou feliz.’ Um tipo de mantra muito simples, não é? Os meus pais sempre me incentivaram e apoiaram em tudo o que fiz. Cantei no coro da escola e cantava nas produções da escola, e acho que eles sentiam que cantar era para mim uma grande satisfação.
Quanto a assumir-me: ou enfrentas o problema de cabeça ou, como aconteceu comigo, é algo que não discutes. Do tipo: ‘Se ele é… e daí? Desde que seja feliz.’ Mas, novamente, isso remete-nos à mente-aberta e à esperança de que todos na família encontrariam contentamento onde quer que estivessem ou o que quer que estivessem a fazer. Acho que seria terrível ser como aquele miúdo no filme “Billy Elliot” – o pai não aceita que ele queira dançar e decide mandá-lo embora, para nunca mais lhe falar ou dizer que vai parar o inferno.

A religião desempenhou um papel na tua educação?
Nunca falámos realmente sobre religião e espiritualidade quando eu estava a crescer, tanto quanto qualquer família não o faz. Vais à igreja para baptizar uma criança. Na próxima vez que vais, é um casamento e depois é um funeral, sabes? Então, a religião não fazia realmente parte da minha vida. Como a maioria das coisas que descobres na jornada da vida, quando te tornas adulto e estás a tentar entender o mundo – ‘por que é que estamos aqui?’ E coisas assim – tendes a tornar-te um pouco mais filosófico sobre as coisas.

Tens fé?
Sim, tenho uma fé tremenda. Encontrei a fé em 1986, quando parei de beber e de dar na droga. E depois de encontrar a fé e de ter começado o processo de cura, senti-me muito mais em paz por dentro. Comecei a apreciar o que é importante na vida e o que não é. Costumava beber tanto que desmaiava e acordava na manhã seguinte sem saber como tinha chegado a casa. Percebi que não precisava dessas coisas para me ajudar a escrever música e, certamente, não precisava dessas coisas para me ajudar a viver a vida – acho que tive um anjo da guarda a olhar por mim.

Consultar artigo original em inglês.