Diante do cenário político actual, grandes nomes do metal brasileiro uniram-se para lançar um novo projecto. Revolta é um supergrupo que reúne João Gordo... João Gordo (RxDxPx, Revolta): «A minha letra caiu como uma bomba atómica no meio dos conservadores»
João Gordo

Diante do cenário político actual, grandes nomes do metal brasileiro uniram-se para lançar um novo projecto. Revolta é um supergrupo que reúne João Gordo (Ratos de Porão) e Prika Amaral (Nervosa) nas vozes, Moysés Kolesne (Krisiun) e Guilherme Miranda (Entombed A.D.) nas guitarras, Castor (Torture Squad) no baixo e Iggor Cavalera (Cavalera Conspiracy) na bateria. Devido às críticas sobre a banda, João Gordo, Guilherme Miranda e Castor concederam uma entrevista à Metal Hammer Portugal em que nos contam mais detalhes do projecto, os seus posicionamentos políticos, a surpresa ao verem o alcance que o primeiro single conseguiu e o que esperam para o futuro com Revolta.

Anunciado muito recentemente, a banda diz que Revolta foi criado para «expressar e protestar em forma de música» diante o momento que o Brasil vive actualmente. A ideia começou com o Guilherme Miranda. «Apareceu do nada, mas disse à Prika que eu tinha vontade de criar uma música ha´uns tempos. Fizemos uma música para a colectânea Metal Against Coronavirus, e eu queria fazer algo só nosso. Queria fazê-lo com alguém com quem tenho amizade, e que são ídolos mundiais. Mandei o riff para o Moysés e disse à Prika que se fosse em português, teria de ser o João Gordo a cantar.» Sobre a formação, Guilherme completa:«Eu e a Prika conversámos muitos sobre isso. Como é época de quarentena e está todo o mundo em casa… Não tínhamos plano B. O plano A era o Moysés, João Gordo, o Castor para o baixo – eu e a Prika não tínhamos dúvida. Então, tentei falar com o Iggor – eu sempre quis fazer uma música com ele.» Iggor Cavalera aceitou e colocou a identidade dele na música, uma marca registada do baterista, o puro thrash metal mineiro das bandas brasileiras. Referente a Iggor, João Gordo acrescenta: «Eu estava sem o contacto com os irmãos Cavalera. Não falei mais com o Iggor desde que se mudou para Inglaterra. E o Max, todos sabem que não falo com ele desde 97. Mas só pelo facto de eu estar a tocar na mesma banda em que o Iggor está, caiu como um tijolo na galera – a música mexeu muito com a galera e o line-up é avassalador.»

A primeira música, “Hecatombe Genocida”, já foi divulgada e oferece uma mensagem crítica ao governo do país, com letra criada pelo João Gordo. O single causou muito burburinho no Brasil e nos países que falam português. «A minha letra caiu como uma bomba atómica no meio dos conservadores. A reacção da galera a chorar. Acho que se mexeu com esses caras, e se eles ficaram putos é porque a música é muito verdadeira e serviu a carapuça certinho. Se a música fosse cantada em inglês não iria levar essa mensagem tão directa na cara das pessoas, iria passar batido, pois 90% da galera no Brasil não entende inglês. A letra é muito boa, é algo que eu falaria em Ratos de Porão. Factos do quotidiano ao meu redor. Para mim, é fácil escrever esse tipo de música. O Guilherme deu-me um texto, peguei em duas frases e musiquei», acrescenta João Gordo.

Ainda sobre a música, Castor diz: «Uma mistura de metal, punk, hardcore, tudo o que a gente gosta.» Para quem escutou, é uma composição que traz referências de cada músico e tudo casou perfeitamente para se criar “Hecatombe Genocida”. O projecto é uma forma de protestar por meio da música em que os protestos podem ser abrangentes e conciliar diversas pautas e exigências. Existe actualmente a moda do ‘cancelamento’ nas redes sociais, e questionado sobre se há um limite para a crítica e para a liberdade de expressão ou se as pessoas confundem as coisas, João diz: «Estamos à beira do fascismo e da censura. Se eu pude falar tudo isso até agora e a polícia ainda não veio aqui a casa prender-me, então está bom. Se continuar do jeito que está, vai chegar um momento em que mais ninguém vai poder abrir a boca. Falar o que se pensa não tem limites, isso é liberdade de expressão. A partir do momento que começam a cancelar-te… Eu quero mais é ser cancelado por esse bando de idiotas. Não faço músicas para eles, não preciso deles.» Guilherme também deu a sua opinião, citando a arte da capa do single: «Até a capa que a gente fez para a música, o desenho, expressa uma ideia. Esses caras estão apoiados numa ideia, e, no caso do Brasil, no fundamentalismo religioso de ultra-direita. Cristianismo fundamentalista foi o único grupo que se organizou durante décadas para tomar o poder, e agora tomou. Nunca imaginei que em 2020 estaríamos a discutir se a Terra é plana – está muito absurdo. Nunca achei que indicar alguém para o poder, para algo tão importante como o Supremo Tribunal… O cara chega lá e diz que a pessoa tem de ser terrivelmente evangélica, fora a questão do militarismo que está assustadora. Países que partiram para esse fundamentalismo religioso, a gente viu no que deu. O Brasil está a aliar-se com o que há de pior no mundo. Achámos que isso já tinha acabado, acho que é um retrocesso. O desenho está bem explicado.» Castor complementa: «Estamos a criticar o que está a acontecer na actualidade. Criticamos os governos anteriores, mas quem está na linha da frente agora, o ‘Bozo’… Ele vai ouvir da gente. Acho que devemos defender a gente, a minoria tem que se unir e não ficar dividida para criticar o recente, o que importa é o presente e o futuro. O que passou, passou.»

«Se mexeu com esses caras [conservadores], e se eles ficaram putos, é porque a música é muito verdadeira e serviu a carapuça certinho.»

João Gordo

A divergência política é algo que está em alta, mais do que nas épocas anteriores, e com a política de cancelamento pode haver desentendimento com colegas de banda ou outros músicos da cena metal. João Gordo partilha um desentendimento com Ricardo Confessori (ex-baterista dos Angra) através do Twitter, mas que não foi levado em frente. «Há vários amigos meus do metal que são bolsonaristas, há uns que gosto tanto que não consigo deixar de gostar deles por apoiarem o Bolsonaro. Não acredito que essas pessoas sejam fascistas ou nazis, é mais ignorância mesmo. Não admitem pessoal do death metal e black metal e apoiam cristãos fundamentalistas. Metaleiro conversador… Fico pirado com essa história. Acho que a gente tem que se salvar a fazer som pesado, e enquanto a gente tiver condições de falar o que quiser nas nossas letras, há que aproveitar porque um dia isso vai acabar.» Castor adiciona: «Temos que contestar mesmo, não defender partido. Devemos defender os nossos direitos em primeiro lugar. Se estão a abusar do poder, tem que se meter o dedo na ferida deles, não dá para defender e ficar com o rabo preso.»

Por fim, muitos fãs querem ouvir mais músicas de Revolta e saber se o projecto vai continuar e lançar algo novo. Sobre esses planos, João Gordo ressalva que quer fazer mais músicas com este line-up e enfatiza a vontade de continuar a criar com o Iggor. Guilherme também está animado para criar um EP, e talvez ir mais longe. «Eu estava preocupado em lançar o single, divulgar para o mundo, mas como são seis pessoas e cada um tem a sua banda, não depende só de mim. Mas eu gostaria de fazer mais coisas, tenho composições.» Castor também está animado com o projecto e concorda com os colegas de Revolta em lançar mais músicas, e talvez um EP, se tudo der certo: «Se houver uma brecha, se houver uma música e der certo, a gente lança. Vontade nós temos!»