Lançado no início de Maio de 2020, “Tomorrow's gone” é o novo álbum de Reminiscence, o projecto post-rock sonhador versus depressivo de Ricardo Brito,... Ricardo Brito (Reminiscence): «O frio de Dezembro e a solidão do meu estúdio ajudaram a uma estética escura»

Lançado no início de Maio de 2020, “Tomorrow’s gone” é o novo álbum de Reminiscence, o projecto post-rock sonhador versus depressivo de Ricardo Brito, mais conhecido na cena nacional pelo seu papel nos neo-folkers Urze de Lume.

Num tipo de sonoridade que possui uma linha muito ténue entre o sonhador e o depressivo, quem for fã de dream-rock talvez enverede nalguns momentos pelo primeiro, mas quem conhecer os caminhos do depressive rock/metal vai sentir um peso negro e solitário. Olhando-se para títulos como “I see you in empty spaces”, “A sense of an ending” ou “Tomorrow’s gone” (o seu clímax não engana), talvez estejamos muito perto de admitir que Reminiscence pende para a ala depressiva e de isolamento. Ricardo Brito traça as suas noções: «Reflectindo um pouco sobre essa temática, creio que grande parte da música por mim criada até aos dias de hoje balança-se nessa linha ténue, por vezes sonhadora, outras vezes mais depressiva, sendo que o lado depressivo, na minha opinião, acaba por sair mais vezes vencedor. Creio que Reminiscence é, claramente, fruto das minhas reminiscências passadas, com as quais cresci e aprendi a viver. Sempre influenciado pelo meio que me rodeia e que me leva a percorrer novos caminhos.»

Afastado de sons rock, pelo menos publicamente, devido ao trabalho ligado ao neo-folk de Urze de Lume, quisemos saber que tipo de necessidade sentiu para criar um álbum eléctrico como este. «Reminiscence nasceu de uma forma muito natural. Certo dia, um grande amigo e companheiro de muita estrada convidou-me para fazer a banda-sonora para uma peça da qual ele era o encenador. E segundo ele, eu teria o perfil ideal para o fazer. De facto, esse convite foi muito acertado, pois fez com que eu me confrontasse com as minhas antigas companheiras – as guitarras – e com uma linguagem que já me tinha sido familiar, mas que devido a inúmeros factores me desviaram do seu caminho. Esse motivo foi, efectivamente, o rastilho para algo que queria aparecer e que, de certa forma, evitei durante muito tempo. Ainda agora não sei porquê..

Com uma sonoridade que nos remete ao isolamento social (tão ironicamente adequado aos tempos actuais) e ao escuro, o multi-instrumentista refere que guarda sempre o processo criativo para o Outono/Inverno: «Não só porque é a altura do ano em que me sinto mais produtivo, mas também porque é quando a azáfama dos concertos e tours acaba, fazendo com que respire fundo no Outono e me lance ao trabalho no Inverno. Seguindo esse princípio, este disco não foi excepção. Gravei tudo no final do ano passado. O frio de Dezembro e a solidão do meu estúdio, creio que ajudaram a uma estética escura.» Acto contínuo, todos sabemos que a arte é uma extensão intelectual e visual/auditiva do homem, que é feito de carne e osso. «A música é também um reflexo da minha pessoa, e apesar de já ter algumas ideias bem definidas quando decidi avançar com as gravações, grande parte do que se pode ouvir em “Tomorrow’s gone” foi criada nesse ambiente. Nem eu sabia que iria continuar em isolamento na Primavera. Sem querer, parece que essa ironia faz cada vez mais sentido.»

«Creio que Reminiscence é, claramente, fruto das minhas reminiscências passadas, com as quais cresci e aprendi a viver.»

Ricardo Brito

Simples e bonito, negro sem ser sinistro – nem tudo precisa de ser complexo –, o álbum começa com inclinações a um post-rock suave, com guitarras cintilantes, mas a sua segunda metade é um pouquinho mais agressiva, com mais ritmo, com atmosferas mais densas e guitarras mais cheias. Será que há aqui uma narrativa? «O seu desenvolvimento segue lado-a-lado com a experiência que vivi durante o processo. Poderei dizer que respira como uma narrativa quase teatral, onde o guião comanda os actores, e que, a cada representação/execução, sentes-te parte da acção e aproprias-te dela, fazendo-a tua, levando-te a exprimir de uma forma cada vez mais natural.»

Com um álbum ainda muito fresco sob Reminiscence e com Urze de Lume a ser um projecto sempre exigente, Ricardo Brito afirma que esta sua faceta mais rock é para continuar. «Ainda há poucos dias gravei cinco temas em guitarra clássica que creio que irão fazer parte do próximo disco», revela. «Julgo que no final deste ano terei novidades, isto seguindo o processo normal… Mas o que era normal, hoje em dia também já não é. A experiência COVID-19 veio reformular muita coisa, e já me sinto em início de processo de mudança, mas a música, e o gosto pela composição, creio que nunca me abandonarão.»

Confere “Tomorrow’s gone” na íntegra imediatamente abaixo.