Os Queen terão para sempre estampado o seu nome nos anais do metal e não é pecado nenhum aceitá-lo! Queen: como o álbum de estreia quase os transformou numa banda de heavy metal
Roger Taylor, Freddie Mercury, Brian May e John Deacon – Londres, 1973

«Talvez não tenha faltado muito aos Queen para igualar os Black Sabbath e dar-vos uma dose de doom sinistra, negra e pesada, como ditam (e bem) as regras. Isto, claro, se o Diabo fosse uma fada e vestisse collants.»

As primeiras linhas da letra de “Keep Yourself Alive” podem ser aplicadas, ainda que de uma forma distorcida, à influência que o disco de estreia dos Queen teve na indústria musical e na marca, qual ferro quente, que deixou em todos aqueles que se cruzaram com esta obra-prima onírica (porque Queen dá-nos sempre algo com que sonhar) que está a escassos anos de celebrar o seu 50º aniversário. Diz-se que os 50 são os novos 30, e não poderia estar mais de acordo a julgar pela forma como este disco de 1973 ainda me soa tão doce aos ouvidos, provocando-me arrepios que me deixam a ansiar pelo momento seguinte, como se a voz de Freddie Mercury ou as melodias de Brian May se traduzissem em juras de amor e fossemos transportados para um cenário romântico numa qualquer praia ou bonito jardim (porque “Queen” é daqueles discos que gostamos de exibir em público). Caso sintam que o texto está a ser demasiado erótico, então saibam que não é a brincar que digo que os Queen foram a minha primeira namorada. Mas diz-nos a letra do tema de abertura, na sua forma distorcida, claro está, que vos será dito um milhão de vezes que podem viver muitas experiências musicais nas vossas vidas, podem atravessar um milhão de rios e percorrer outros tantos quilómetros, que no fim vão ter ao ponto de partida – e no meu caso a verdade não poderia estar mais próxima disso.

Os Queen foram a minha primeira grande paixão. Foi com eles que aprendi que a música tinha todo um poder que mais depressa nos dominava do que era dominado, e que era algo capaz de nos aproximar de nós próprios, porque nunca estamos sozinhos quando temos a música do nosso lado. Afinal de contas, aquilo que nos permitimos sentir quando nos expomos ao mundo diz-nos muito da pessoa que somos, e os Queen, enquanto experiência musical, permitiram a este puto que ia a meio do ensino primário (costumo dizer que foram estes os quatro anos em que estudei para médico) descobrir os primeiros atalhos e estradas secundárias do caminho a que chamamos vida. Era uma verdadeira paixão vivida com a mesma intensidade que um qualquer fervoroso adepto de futebol, em que a nossa parcialidade não nos permite racionalizar o que temos à nossa frente de forma razoável. Que o diga o Hugo Américo, que deixei de lhe falar depois de me ter confidenciado que também gostava de Queen e de ter cantarolado “There was something in the air that night, the stars were bright, Fernando”.

Foi só mais tarde que consegui, finalmente, deitar as mãos aos títulos editados durante os primeiros anos de carreira do quarteto britânico. Acreditem ou não, e vindo de alguém que adorava de uma forma a roçar o doentio todos os clássicos que compunham a trilogia dos “Greatest Hits”, foi como se a atmosfera de “The Show Must Go On”, o rock suave de “Killer Queen” ou a alegria contida em “Don’t Stop Me Now” (obrigado NOS por terem arruinado isso) passassem a ser temas de segunda liga (“Bohemian Rhapsody” é um universo à parte), tamanha era a energia que pulsava da gloriosa jornada de hard rock e rock progressivo que é o disco de estreia dos Queen. Querem uma definição para autenticidade? Que outro álbum poderá ser candidato a esse título, se tudo começa com Brian May e uma guitarra caseira? É tão bom que chega a ser assustador. Percebi então que era um disco que não se podia entender com meia dúzia de audições, pelo facto de nele ter contido não apenas o universo dos Queen mas toda uma existência multidimensional, daquelas às quais os cientistas dedicam toda uma vida para tentar compreender.

Para aqueles que, por algum motivo, ainda não se cruzaram com este trabalho (e se o vierem a fazer lembrem-se que é da minha namorada que estamos a falar), e que estejam familiarizados com os primeiros passos dos Black Sabbath, vão perceber, tal como eu, que talvez não tenha faltado muito aos Queen para igualar a banda de Ozzy Osbourne e dar-vos uma dose de doom sinistra, negra e pesada, como ditam (e bem) as regras. Isto, claro, se o Diabo fosse uma fada e vestisse collants. Já dotados de uma visão desafiadora, em que prevalece o experimentalismo e nenhuma ideia vê os seus serviços dispensados, “Queen” dá início ao turbilhão musical que seria aprofundado em “Bohemian Rhapsody” (editada no quarto e também apaixonante “A Night At The Opera”), com composições complexas e contrastantes que uniam a calma de um piano a um clímax estrondoso e distorcido. Ouça-se, por exemplo, a gema perdida do rock progressivo que é “Great King Rat”, onde uma sonoridade saída de um filme western conduz o ouvinte a galope rumo a uma passada mais veloz, talvez mesmo agressiva, tão heavy metal quanto a década de 1970 nos poderia oferecer. Atentem aos riffs e ao solo que acompanha a fase final deste tema e digam-me que estou enganado. E o que dizer de “Liar”? Se a guitarra inicial à Led Zeppelin e o refrão cheio de fuzz não vos convencer do contrário, não sei o que mais fará. Ouçam também “Son And Daughter” e digam-me que não vêem o doom dos Black Sabbath à espreita e à espera de atacar. A segunda metade de “Jesus” lembra-nos uns Ghost em início de carreira (haverá quem diga que Ghost não é metal) e “Keep Yourself Alive” – porque podem atravessar um milhão de rios e percorrer outros tantos quilómetros, que voltarão ao ponto de partida – é uma lição de como dar vida ao rock, o que quer que isso signifique para vocês.

Por tudo isto, mas mais pela tal parcialidade que mencionei, os Queen terão para sempre estampado o seu nome nos anais do metal e não é pecado nenhum aceitá-lo!