Ideias políticas não têm lugar no metal? Os nossos ídolos desmitificam tal noção com firmeza. Quando o metal é político – os nossos ídolos sem rodeios

Alice Cooper até pode dizer que rock n’ roll é o oposto da política, que esta não tem lugar na música, e centenas de comentadores nas redes sociais exigem aos artistas que se foquem singularmente na sua arte deixando de lado opiniões que, quer queiramos quer não, nos solidificam enquanto seres humanos. Nada mais errado. Tanto o metal como o punk, este último até mais, têm uma origem fortemente ligada ao desenvolvimento de acontecimentos sociopolíticos: a ideia de se ser parte de uma comunidade livre e ímpar em oposição ao sistema legislativo e económico é a peça fundamental da génese de bandas como Discharge, apenas para nomear uma entre milhares.

Um exemplo actual da relação metal – política é claramente evidente em bandas como Lamb of God, especialmente através do vocalista Randy Blythe. Para além de frontman de uma das maiores bandas metal do nosso tempo, Randy é um atarefado activista pela igualdade, seja ela económica, racial ou sexual. Todos os álbuns de Lamb of God são políticos (o ataque a George W. Bush no início dos anos 2000 foi feroz) e o mais recente, de título homónimo, não é diferente. Por exemplo, enquanto a faixa “Resurrection Man” possui uma combinação muito inteligente entre bruxos do voodoo e luta racial, como se o sistema fosse, e é, o mestre controlador, “Routes”, com Chuck Billy (Testament), é inspirada no protesto que milhares de indígenas levaram a cabo para travar a construção duma pipeline no North Dakota. Numa recente entrevista à Metal Hammer, Randy Blythe não teve papas na língua. «Quando as pessoas dizem, ‘não discutas política, fica-te pela guitarra’, é do tipo, ‘idiota do caralho, não sabes nada sobre a história da música?’», diz sem um rasto de incredulidade. «Não apenas punk e metal, mas música em geral. Leiam algumas letras de Black Sabbath, seus idiotas! Às vezes, só quero relaxar e ouvir Cannibal Corpse e beber uma cerveja sem álcool, e tudo bem, há um momento para isso, mas se quiseres algo que seja apenas entretenimento e que não tenha peso, mensagem ou significado, ouve o Top 40. Ouve algo sobre nada. Não ouças o nosso tipo de música. Que se fodam.»

Do norte passamos para o sul com Sepultura, que, entre altos e baixos, reina desde 1984. Tantos anos depois, os brasileiros continuam a lançar álbuns políticos, como é exemplo o excelente “Quadra” (2020). «Quadra é um espaço demarcado onde há regras e o jogo acontece. É a nossa vida. O Brasil é uma quadra. Cada país é uma quadra», disseram na apresentação do álbum. Antes, através da Nuclear Blast, já tinham apontado a mira ao capitalismo: «Dinheiro – somos escravizados por este conceito. Quem é pobre e quem é rico, é assim que medimos as pessoas e bens materiais. Indiferente da tua quadra, precisas de dinheiro para sobreviver, a regra primária deste jogo chamado vida.»

Mas regressemos a 1993 para assinalar “Chaos A.D.”, um álbum que tem no seu alinhamento músicas como “Refuse/Resist” («Chaos A.D. / Disorder unleashed / Starting to burn / Starting to lynch / Silence means death / Stand on your feet / Inner fear / Your worst enemy / Refuse/Resist»), “Territory” («Choice control / Behind propaganda / Poor information / To manage your anger / War for territory») ou “Slave New World” («You censor what we breathe / Prejudice with no belief / Senseless violence all around / Who is it that keeps us down»). Isto é discurso político – por isso, dizer-se que a política não tem lugar no metal e abanar-se a cabeça ao som de Sepultura é intelectualmente desonesto.

A luta pela igualdade racial é outro ponto firmado em Sepultura – ouvir “Kaiowas” e ler sobre essa tribo –, algo que é concretamente repercutido por Max Cavalera (ex-Sepultura, Soulfly). Sobre Bolsonaro, disse: «Sinto-me muito negativo com o que ele diz sobre índios e negros. Ele não quer saber da comunidade indígena. É isso que me incomoda mais.»

De seguida, partimos para este lado do Atlântico, para a Alemanha, com Kreator. Descrito como um músico anarquista, o vocalista/guitarrista Mille Petrozza não concorda plenamente com essa etiqueta, mas também não o desmente totalmente. Em entrevista à Metal Blast, disse: «Sou anti-categorias. Portanto, isso não faz de mim um músico anarquista. Ser apenas um músico anarquista não é como me vejo. Namorei muito o movimento anarquista, assim como a filosofia anarquista, mas também estava interessado noutras formas filosóficas. Meterem-me numa certa categoria ou darem-me um rótulo como músico anarquista é limitador. Tudo o que sei sobre anarquia, 99% aprendi com bandas de que gosto, não li nenhum dos escritores… Sei quem são, mas, tudo o que sei sobre anarquismo, aprendi com Jello Biafra e Ian MacKaye.» A visão do mundo aos olhos de Petrozza é descrita efusivamente em temas como “Violent Revolution” («My only hope, my only solution is a Violent Revolution») ou “Totalitarian Terror” («Resistance must rise when freedom has died»).

Recentemente, o alemão partilhou uma foto na sua conta de Instagram com uma t-shirt de Dead Kennedys, e escreve: «Eu, em 89, com a minha camisola favorita “Nazi punks fuck off”. No caso de se perguntarem por que é que nunca me calo e canto, fiquem a saber que venho da escola inicial do thrash metal / hardcore, quando era normal os artistas falarem contra racismo e injustiça social. Por isso, se ficaram ofendidos com a minha partilha sobre a camisola que fiz com a Hardcore Help Foundation, sintam-se livres para deixarem de me seguir e encontrar uma nova banda favorita, porque, obviamente, não perceberam Kreator!»

Ainda em solo europeu, em França nasceu uma das bandas mais acarinhadas do metal contemporâneo – Gojira. A primeira paixão que os fãs sentem por eles tem a ver com o death/groove metal complexo que produziram até, por exemplo, ao mais amigável e poppish “Magma” (2016), mas por trás da música há uma ideia politizada. A luta dos Gojira é ecológica, o que lhes proporcionou a classificação de eco-metal. Terá menos impacto do que contendas raciais ou sexuais, é certo, mas não deixa de ser uma posição política – “Global Warming” atesta isso mesmo: «A world is down / And none can rebuild it / Disabled lands are evolving / My eyes are shut, a vision is dying / My head explodes / And I fall in disgrace».

Filhos de mãe descendente de portugueses, os irmãos Duplantier contaram à Metal Hammer: «A nossa mãe ensinou-nos a respeitar as coisas e as pessoas. Ela sempre se interessou pelo mundo natural, pegava sempre em pequenas pedras e pedaços de madeira na praia e juntava-as para fazer algo bonito. Ela ajudou-nos a tornar quem somos.» Mais à frente, Mario atira: «Não somos guerreiros ecológicos, mas somos seres humanos conscientes e, é claro, pensamos na vida e em como gostaríamos de viver. E esses pensamentos têm eco. Não é apenas sobre a ecologia da natureza, é também sobre a ecologia dos seres humanos. Todos temos a responsabilidade de pensar e de fazer coisas que enriquecem a nossa palavra. É um mundo caótico, com uma economia baseada na fraude e na política baseada em corrupção, mas por mais feio que o mundo possa ser, podemos mudá-lo.»

Para fechar o ciclo, regressamos ao continente norte-americano, donde, por incrível que pareça, brotam as bandas mais interventivas com Panopticon e Wolves In The Throne Room à cabeça. Enquanto o primeiro nome apoia a luta proletária (ouvir “Kentucky” de 2012), o segundo engloba-se no paganismo e ambientalismo.

Acto contínuo, os Junius não escondem aquilo que são e o que defendem em vídeos como o de “Clean The Beast”. Em entrevista à extinta Ultraje, Joseph Martinez disse em 2017: «A canção foi feita para a minha esposa, ela adora-a, e, combinado com a imagem catártica de um neonazi a levar um murro, decidi fazer um vídeo. Tornou-se uma espécie de chamada de reunião para o meu espírito… Penso que, quanto à minha geração nos EUA, nunca tivemos que lidar com algo como Trump. Está tudo com medo de protestar e se alguém parte a janela de um Starbucks já pensam que é demasiado violento. Não creio que as pessoas percebam que vão ter que fazer algo mais do que apenas ficarem furiosas e partilhar qualquer coisa no Facebook. Tens de sair e protestar. Evitar violência se possível, mas se Trump ultrapassar os seus limites e se as suas políticas perseguirem a tua família, então os cidadãos dos EUA precisam de tomar o país. Obviamente que isto é o pior cenário, mas precisamos de manter a violência no nosso bolso traseiro e esperançosamente nunca usá-la.»

Das cinzas de Agalloch nasceram os Khôrada que, em 2018, lançaram o excelente “Salt”, um álbum de metal atmosférico e progressivo grassado por letras anticapitalistas – «Cruelty of competition / The catastrophe of capitalism», ouve-se e lê-se na última faixa “Ossify”.

Em 2018, questionado pela Ultraje se “Salt” era um álbum anti-Trump, Don Anderson respondeu: «Apenas num sentido geral. Acho que as letras são mais profundas do que isso. Certamente, Trump é uma parte daquilo que o ambiente enfrenta e da contínua acumulação de riqueza por uma quantidade muito pequena de pessoas, mas ele também é uma consequência de questões muito maiores, como a negação das alterações climáticas ou o racismo na nossa cultura e sociedade americana. Mas como uma declaração provocativa: sim, é anti-Trump, mas apenas porque já somos profundamente anti-racistas, feministas, pró-LGBT, pró-ambiente e profundamente cépticos em relação ao capitalismo.»

Conscientes da ideia de que o metal não pode conter política vai continuar a inflamar as redes sociais, para todos os confrontos há uma barricada. Cada um escolhe a sua. E, pelos vistos, os nossos maiores ídolos já escolheram a deles.