São os riffs muitíssimo cativantes que te vão fazer ficar preso a este “Schöpfungswut”. Porta Nigra “Schöpfungswut”

Editora: Soulseller Records
Data de lançamento: 17.01.2020
Género: black metal
Nota: 4/5

Fundados em 2010 na cidade alemã de Koblenz, os Porta Nigra ganharam algum reconhecimento no black metal devido a uma abordagem vanguardista que tinha a decadência do fin de siècle como principal temática. Com dois álbuns lançados em 2012 e 2015, a dupla (agora trio) teve um papel importante ao nível do nicho na forma como utilizou a literatura decadente do final do Séc. XIX e métodos musicais/criativos pouco usuais, fazendo de Porta Nigra uma banda avant-garde.

As tensões quanto à direcção a ser tomada começaram a surgir quando tinham de decidir que caminho seguir no terceiro álbum. De um lado, pretendia-se que noções post-rock/metal fossem incorporadas; do outro, desejava-se voltar às raízes do black metal com uma orientação mais directa e menos complexa. A segunda opção prevaleceu e surgiu “Schöpfungswut”.

Consistindo essencialmente em blast-beats e tremolo picking, o terceiro álbum dos alemães não deve ser comparado ao catálogo anterior. Ainda que se continue a ouvir uma sonoridade sedutora, a decadência está menos presente, ainda que se sinta tal condição na forma como o novo vocalista Tongue entoa os versos que ajudou a escrever. Entre a fúria de berros robustamente graves e alguma agonia aqui e ali, Tongue apresenta-se com uma postura de discurso, uma vezes a apontar o dedo e outras como se estivesse a contar uma história, recorrendo por vezes a noções de spoken-word.

Algures entre o black metal mais ortodoxo e o melódico, há toda uma atmosfera espessa que se rege essencialmente por magníficos leads de guitarra que grassam por todo o disco, do seu princípio ao seu fim. A abertura com “Die Kosmiker” é um ponto de partida que se augura vencedor com toda a sua toada melodiosa, mas sempre veloz, e só peca por um solo estranho e, talvez, mal colocado, o que só volta a acontecer, mas com menos alarme, em “Unser Weg nach Elysium”.

Num olhar geral, melancolia pode não ser a melhor expressão para se usar quando falamos deste álbum, mas austeridade assentará muito bem se ouvirmos faixas como a pesarosa e reflectiva “Die Augen des Basilisken”.

Sem esquecer um baixo galopante aqui e ali, são os riffs muitíssimo cativantes que te vão fazer ficar preso a este “Schöpfungswut”, e o melhor disso encontra-se no invariável clímax de praticamente todas as faixas – segmentos finais através dos quais se sente ainda mais aquele fulgor que cruza intempérie com bonança, deixando-nos com vontade de ficar a ouvir a mesma coisa por tempo indeterminado, tal é a ligação que a música impele em quem ouve.

Se 2019 teve bons álbuns neste quadro, como o de Fen e o de Imperium Dekadenz, o início de 2020 está bem entregue com este aguardado regresso dos decadentes Porta Nigra.

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