Decadentes e fatalistas, os Porta Nigra entram em 2020 com uma sonoridade diferente da vanguardista executada em álbuns anteriores. Assim, com "Schöpfungswut", os alemães... Porta Nigra: «”Schöpfungswut” é como um grito primitivo»
Foto: cortesia SSW

Decadentes e fatalistas, os Porta Nigra entram em 2020 com uma sonoridade diferente da vanguardista executada em álbuns anteriores. Assim, com “Schöpfungswut”, os alemães prestam tributo às suas raízes com um black metal mais directo e circular, mas sempre repleto de atmosfera e melodia. A Metal Hammer Portugal falou com o guitarrista/letrista Tobias (aka Gilles de Rais) que nos esclareceu o porquê desta nova abordagem, assegurando que os conceitos perversos e degenerados não foram perdidos.

«Tenho dúvidas de que voltaremos a fazer um álbum tão racional, conservador e ‘lógico’.»

A primeira coisa que nos prendeu a atenção foi aquele rugido de guerra que grita “PORTA NIGRA” na faixa de abertura. Tanta energia e fúria! Rotularias esse preciso momento como um ponto de viragem para a banda, como um “estamos de volta!”?
Ah sim, podemos dizer isso. Demorámos cinco anos para fazer este álbum. Isso não foi planeado e esse grito inicial com o nome da banda é como uma libertação de muita tensão e frustração.

O press-release refere que houve tensões em relação à orientação da sonoridade. Quanto se discutiu para obterem este som mais ortodoxo que ouvimos no novo álbum? E o título, tem algo a ver com essas tensões?
Depois do “Kaiserschnitt” [2015], começámos imediatamente com material novo e trabalhámos em dois álbuns ao mesmo tempo. Um que era ainda mais ecléctico e orientado ao ritmo e outro que eu descreveria como black metal repetitivo na veia da cena escandinava e alemã dos anos 1990. Isso não foi muito saudável, porque deixou a banda um pouco esquizofrénica, com duas partes diferentes a quererem coisas diferentes. No entanto, decidimos prestar homenagem às nossas raízes black metal e finalizámos “Schöpfungswut”, deixando de lado as coisas mais excêntricas. A esse respeito, o título poderia realmente ter uma ligação com as nossas tensões na banda (“Schöpfungswut” significa “Raiva da Criação”). Porém, refere-se mais ao prólogo de “Faust”, do Goethe – “Para sempre um novo sangue circula”. É uma palavra nova, que não existe no idioma alemão e combina algo que geralmente chamamos de positivo (criação) com algo negativo (raiva). Para nós, este álbum é como um grito primitivo. Não apenas lírico, pois lida com tópicos como Génesis e a Queda do Homem, mas também no sentido de prestar homenagem às nossas raízes musicais – aquela faísca que incendiou em nós o fogo chamado black metal.

Todavia, o resultado final foi excelente – adorámos aquelas malhas repetitivas e melódicas cheias de atmosfera. Quão satisfeito estás com “Schöpfungswut”?
Bastante satisfeito, na verdade. Mais do que nunca. Tudo o resto seria muito mau para nós, já que levou tanto tempo. Acho que o álbum estabelece uma base sólida para nós e colocar-nos-á no mapa dos fãs mais conservadores. Contudo, ninguém deve esperar algo específico vindo de nós. De momento, tenho dúvidas de que voltaremos a fazer um álbum tão racional, conservador e ‘lógico’.

«Tenho muito orgulho nas letras, porque separam-nos de outras bandas.»

Depois de definirem a orientação sonora para aquilo que ouvimos no disco, apontarias os leads melódicos das guitarras como uma das grandes conquistas alcançadas com “Schöpfungswut”?
Tenho muito orgulho nas letras, porque separam-nos de outras bandas. Infelizmente, muitas pessoas não serão capazes de entendê-las como pretendíamos, uma vez que estão em alemão. As guitarras, sim, estou confiante quanto a isso. Usámos material desde o final dos anos 1990 até hoje, portanto é muito interessante e também soa autêntico por causa disso. Odeio perder ou não usar o material que compus, mas às vezes faz sentido deixar as músicas ou os riffs descansarem. A sua hora chegará eventualmente.

Além disto tudo, há um novo vocalista. Com a banda a afastar-se da abordagem vanguardista dos álbuns anteriores, como é que mantiveram o conceito de “Fin de Siècle” [2012] com toda a sua decadência e fatalismo? De que forma é que o Tongue (Chaos Invocation) ajudou a desenvolver as novas letras?
Ele é óptimo. Um tipo com altos níveis de energia das vastas florestas de Westerwald. Black metal puro. Acertar as vozes foi uma tarefa difícil, mas ele conseguiu fazê-lo perfeitamente e dedico-lhe o álbum inteiro, porque sem ele o projecto acabaria por morrer. O Tongue contribuiu com algumas letras e até leads de guitarras. Temos planos soltos para o quarto álbum e espero que aconteça, pois temos muitas ideias interessantes.
O “Fin de Siècle”, sim… Eu queria que houvesse ligações para mostrar que isto ainda é Porta Nigra, só que com um som diferente. Penso que há uma ligação disso com a excelente capa assinada pelo Klaus Pichler, de Viena. Além disso, as letras contêm traços do nosso ADN decadente. Estou muito confiante de que pessoas familiarizadas com a banda verão essas ligações. Na verdade, recebi exactamente essa opinião: soa diferente, mas ainda é, de certa forma, muito Porta Nigra. Isso é óptimo, porque era essa a intenção.