“Flesh & Blood”, dos Poison, foi editado a 21 de Junho de 1990. Poison “Flesh & Blood”: o culminar do veneno

“No Baú do Hair Metal” é uma rubrica que surge com o intuito de divulgar e valorizar um dos subgéneros mais marginalizados dentro do espectro do heavy metal. O hair metal ou glam metal teve a sua génese nos anos 1980 nos bares e clubes da Sunset Strip, em West Hollywood, tendo dominado o panorama musical internacional até aos primeiros anos da década de 1990 quando o grunge irrompeu a partir de Seattle.

Influenciado pelo movimento glam rock dos anos 1970 padronizado por grupos como T-Rex, New York Dolls ou Hanoi Rocks, a sua sonoridade mistura elementos de heavy metal, punk e até mesmo pop. Com o surgimento da MTV em 1981, o hair metal explodiu para as bocas do mundo, e o canal permitia assim que bandas como Mötley Crüe, Poison ou Ratt divulgassem a sua música através da exibição de videoclipes que se popularizaram em programas temáticos como o Heavy Metal Mania (1985-87) ou o Headbangers Ball (1987-1995).

A sua componente estética apresentada nos videoclipes e concertos assente em penteados e maquilhagem de caráter andrógino, indumentária em cabedal, ganga e spandex (licra) e até mesmo o conteúdo lírico das suas músicas, que abordavam temáticas debochadas com referências ao estereótipo Sexo, Drogas e Rock n’ Roll, levaram a uma espécie de divisão de facções: de um lado encontravam-se aqueles que defendiam que o heavy metal se devia manter num contexto underground e fora do radar dos media, enquanto outros viam no hair metal uma oportunidade para as sonoridades mais pesadas assumirem uma posição predominante no negócio da música, visto que mais ou menos a partir de 1983 todas as editoras começaram a procurar e a assinar todas as bandas de hair metal que achavam que poderiam vingar no mundo da música e vender milhões de discos.

O que é certo é que com o passar do tempo torna-se imprescindível não se falar deste subgénero quando se procura traçar uma evolução histórica e cronológica do heavy metal. E se para alguns puristas este é um daqueles subgéneros que não faz parte do seu catálogo por uma questão de preconceito, para outros melómanos das sonoridades mais pesadas, o hair metal será certamente recordado como o som que marcou a geração de 1980.

Neste primeiro artigo da rubrica “No Baú do Hair Metal”, o destaque vai para o terceiro álbum dos Poison. “Flesh & Blood” foi editado a 21 de Junho de 1990 pela Enigma Records.

Este é o álbum que marca um ponto de viragem na carreira dos Poison. Por um lado, marca o fim de uma trilogia de álbuns multiplatinados considerados clássicos da banda, que tinha começado com “Look What The Cat Dragged In” (1986), seguindo-se “Open Up and Say… Ahh!” (1988). Por outro, é possível identificar um maior refinamento em termos de arranjos musicais em “Flesh & Blood”, algo que até então os Poison não eram muito creditados devido à sua fama de compositores e instrumentistas pouco dotados. Este desenvolvimento deve-se então ao facto de neste terceiro LP terem trabalhado com o conceituado produtor Bruce Fairbairn, que já contava no seu palmarés com álbuns seminais como “Slippery When Wet” (1986) e “New Jersey”(1988), dos Bon Jovi, ou “Permanent Vacation” (1987) e “Pump” (1989), dos Aerosmith.

Em relação ao conteúdo lírico, o álbum demonstrou também uma maior diversidade face aos anteriores. Por um lado, a banda não abdicou por completo das temáticas hedonísticas e que retratam todos os clichés do rock n’ roll em faixas como “(Flesh & Blood) Sacrifice” ou “Unskinny Bop”, cuja a expressão apesar de apresentar referências sexistas não tem qualquer significado, tendo mesmo o guitarrista C.C. DeVille chegado a admitir que a expressão foi usada porque se adaptava do ponto de vista fonético ao tempo da música. Por outro lado, procurou-se também abordar temas mais introspectivos e pessoais em faixas como “Life Goes On” ou “Something To Belive In”.

Segundo uma entrevista que o baterista Rikki Rockett deu à RAW Magazine em 1989, antes do lançamento do álbum, «…as letras são baseadas em cenas da vida…». «Passámos 14 meses a promover o nosso primeiro álbum e estamos agora no 10º mês do segundo, portanto vivemos mesmo na estrada. E quando fazes isso, vives tantas coisas que não seriam possíveis se ficasses apenas por L.A.. Quando estás numa cidade diferente todos os dias, apercebes-te de todo o tipo de coisas: como as pessoas vivem, as suas atitudes, as suas diferenças, o que é que é importante para elas. E quando absorves essas experiências todas, consegues fazer um bom álbum.»

Mas o que seria também de um álbum de Poison sem controvérsia, neste caso em relação à capa que retrata uma tatuagem no braço do baterista Rikki Rockett aparentemente sem maldade nenhuma? No entanto, houve uma primeira versão censurada que saiu rapidamente das lojas porque apresentava exactamente a mesma tatuagem só que acabada de fazer e ainda com vestígios de sangue. Alterada a capa, “Flesh & Blood” viria a ser certificado tripla platina nos EUA em 1991, gerando também uma tour bem sucedida que durou dois anos. No entanto, conflitos internos provocados pela adição e consumo de drogas de C.C. DeVille, levaram ao seu despedimento e consequente dissolução da formação original dos Poison, colocando assim um ponto final nos anos dourados da banda.

Bem vistas as coisas, apesar de ter vendido menos exemplares que os seus antecessores, “Flesh & Blood” viria a comprovar ser o culminar da carreira dos Poison. Porém, após este registo, o grupo nunca mais conseguiu retratar em estúdio a mística dos três primeiros álbuns, deixando assim muitos dos seus fãs a suspirar por mais um disco que retrate a dinâmica gerada pela banda entre os anos 1986-1991.