Um início prometedor e (muito) fulgurante (2007-2010)Será muito difícil encontrar banda que tenha tido melhor álbum de estreia do que os Haken, quando o... Perdidos no Arquivo: Haken

Um início prometedor e (muito) fulgurante (2007-2010)
Será muito difícil encontrar banda que tenha tido melhor álbum de estreia do que os Haken, quando o grupo decidiu lançar, em 2010, o fantástico “Aquarius”. Mas isso é saltar à frente de uma história que tem de ser contada com alguma calma antes de se fazer este salto cronológico relativamente ambicioso. No entanto, não é necessário recuar imenso para falarmos dos inícios dos Haken. Basta recuar a 2007, quando o sexteto decidiu formalmente criar a banda. Contudo, 2004 acabou por ser um ano por de mais decisivo, pois foi quando os três membros fundadores Ross Jennings (vocalista), Richard Henshall (guitarra, teclas) e Matthew Marshall (guitarra) pensaram em criar uma banda, mas decidiram-se por melhorar as suas habilidades antes de partirem para um projecto profissional.

Finalmente chega 2007 e o grupo forma-se, tendo sido recrutados três novos membros: Raymond Hearne (bateria), Peter Jones (teclado) e Thomas MacLean (baixo). Assim, a banda prepara-se para dar um enorme passo em frente, antes de voltar a recuar outro tanto com a saída de alguns membros, incluindo um dos fundadores. Em 2008 é finalizado a demo “Enter the 5th Dimension” – que é até uma demo preservada nos arquivos do YouTube – e, como seria de esperar, consegue manter um estatuto de clássico moderado, apesar de se ter a noção de que é uma produção ainda muito crua, mas com claros sinais de extrema qualidade e complexidade.

Apesar do sucesso da demo e de uma maior recepção, Peter Jones e Matthew Marshall decidiram sair da banda para procurar novos desafios. Ambos foram substituídos de forma exímia por Diego Tejeida e Charles Griffiths (ex-Linear Sphere), respectivamente. Daí em diante, o grupo foi ganhando inteligentemente o público, apostando em concertos criativos e bem trabalhados, e trabalhando no grande álbum de estreia que só sairia em 2010.

E agora voltámos ao início deste artigo com “Aquarius”, que, de imediato, torna-se num separador da demo, não em termos instrumentais, pois mantém a mesma complexidade instrumental e os mesmos objectivos, mas devido ao grau de ambição que o disco apresenta, com uma produção muito bem desenvolvida, mas também muito audaz e rebelde em determinados momentos. “Aquarius” traz uma luz nova ao metal progressivo com faixas longas, mas também mais breves, como “Eternal Rain” e “Sun”; no entanto, ambas apresentam mais de seis minutos de música. Como já discutido, quando se fala de álbuns conceptuais, torna-se difícil evidenciar uma ou outra faixa, pois todo o longa-duração se complementa. “Aquarius”, como o nome dá a entender, fala de uma sereia que é vendida a um circo e cujo sangue pode vir a salvar a raça humana das asneiras que provocou ao ambiente. Apesar de fantasioso, o álbum mantém uma forte ligação à realidade, sendo este um dos grandes elementos narrativos dos Haken ao longo da sua discografia.

“Visions” e “The Mountain” (2011-2015)
Vários dos motivos para o sucesso da banda, para além de uma formação unida e que sofre poucas mudanças, passam pela inteligência e contribuição de cada membro para a produção de cada lançamento de estúdio. O excesso saudável de talento é evidente quando, em 2011, apenas um ano após o lançamento do disco de estreia, é editado “Visions” que transporta os britânicos e os fãs para um mundo diferente.

É um lançamento que explora mais subgéneros musicais e que aperfeiçoa a componente instrumental, sobretudo no que toca à guitarra e ao teclado. A voz de Jennings é mais gentil e limpa em diversos momentos, conseguindo revelar uns Haken diferentes daqueles que se ouviu em “Aquarius”. A guitarra é o grande instrumento deste disco conceptual sobre um rapaz que visiona a sua morte em sonhos, tentando de tudo para a evitar. De novo, a fantasia liga-se à realidade, abordando temas como sofrimento, obsessão e alguma loucura. Desta vez, o segundo disco de originais não tem temas tão longos, concentrando-se fundamentalmente na narrativa e em construir a história com músicas de relativamente curta duração. Ainda assim, os temas mais longos têm 13 e 22 minutos: “Nocturnal Conspiracy” e o tema-título respectivamente, com a segunda a fechar o disco e a ser muito original, pois acaba por ser um compêndio de visões que o rapaz tem ao longo dos mais de 70 minutos de música. Globalmente, o álbum é visto como uma fantástica continuação da obra dos Haken, sendo lindamente executado em cada uma das faixas, sem qualquer tipo de momento aborrecido. “Visions” é para muitos melhor do que “Aquarius”, sobretudo pelo grau de maturidade que os britânicos apresentam em tão pouco tempo de existência.

Em 2013, os Haken atingem um outro patamar com “The Mountain”. O terceiro disco de originais lança a banda para um estatuto quase estratosférico, em termos de fama na indústria musical. É o último longa-duração a contar com Thomas MacLean, um quase-original do sexteto britânico. “The Mountain” é, sem dúvida, o disco mais realista e emocional da discografia, tendo sido um lançamento que contou com a participação de todos, conseguindo demonstrar o talento já reconhecido em cada um dos jovens músicos. Para muitos, este terceiro lançamento é a obra-prima do grupo, sendo um dos poucos álbuns perfeitos dos últimos 20 anos. Como sempre, a banda repete a fórmula das narrativas, mas desta vez não é uma narrativa fantasiosa; aliás, é muito profunda e emocional, com diversas passagens e reflexões sobre a vida da banda e do seu percurso no mundo da música, com “The Mountain” a representar uma subida a um pico muito complexo e audaz de ser atingido. Tecnicamente, os Haken têm neste registo a sua malha mais intrincada e diversa, com solos magníficos, uma bateria pungente e um vocal que melhora de álbum para álbum. “The Mountain” contém a emoção de melodias trabalhadas e um metal progressivo muito definido e complexo, que só podia ser obra de malta muito conhecedora da música e que, de facto, sabe o que está a fazer.

A partir de 2013, os britânicos deparam-se com a terceira e, para já, última mudança na sua formação. MacLean sai para ser substituído por Corner Green, após ter sido escolhido em audições. Apesar do sucesso de 2013, o grupo não se regozijou com esse êxito. Em 2014 demonstra que quer surpreender, lançando um EP muito na linha de “The Mountain”, mas diferente dos primeiros dois discos de estúdio. Como diz o nome do EP “Restoration”, o sexteto decide pegar em trabalho antigo que havia sido desenvolvido na demo de 2008, “Enter the 5th Dimension”, e baseia-se nesses temas para produzir verdadeiras malhas de metal progressivo. Com este EP, denota-se o aumento de importância que os britânicos ganharam na indústria, tendo Mike Portnoy e Pete Rinaldi participado na última faixa “Crystallised”. O registo tornou-se numa mudança de rumo para algo ainda mais original, sobretudo a partir de 2015, e serviu como rampa de lançamento para dois dos discos mais originais do metal progressivo e promoveu o seu estilo musical de forma definitiva.

Originalidade e expectativas (2016-)
Desta feita, os ingleses mostraram claramente o seu valor à crítica e aos seus fãs, sentindo-se um à-vontade maior e parecem mais livres para compor ao seu bel-prazer. Só assim teria de ser para poderem produzir “Affinity”, o, até hoje, disco mais promovido pela banda nos media. O grupo utilizou as redes sociais e a Internet para, na verdade, criar uma expectativa ainda maior, para além da já existente. “Affinity” aborda um tema muito mais desconhecido para o sexteto, mas é isso que faz dos Haken um colectivo tão especial, pois nunca têm medo do desconhecido e gostam de ir até lá para se divertirem e fazerem música.

Pela própria banda, este não é um disco conceptual, mas, e no entanto, “Affinity” é-o. Está por demais ligado para não o ser e a sua estrutura está tão bem definida que impossibilita que se pense o contrário. Não, não é melhor do que “The Mountain” nem do que “Visions”, mas é um dos grandes lançamentos dos últimos dez anos, abordando temas muito contemporâneos sem ser demasiadamente científico. Inteligência artificial, robótica e o desafio do Homem perante as máquinas são temáticas mais do que fulcrais neste lançamento de 2016. Por esta altura, “Affinity” já tinha a atenção do público com tanta mediatização, mesmo antes da data de saída do álbum para as lojas. Aí, o grupo demonstrou a sua inteligência e mostrou que estão na indústria da música para serem levados a sério. Neste álbum, a banda larga o mundo da emotividade e compõe algo muito mais progressivo e instrumentalmente agressivo. Apesar de a sonoridade não ser a de um disco de puro metal progressivo, devido a muitos elementos e arranjos instrumentais inspirados nos anos 1980, “Affinity” possibilita aos londrinos explorarem as suas capacidades musicais com uma produção exímia de um álbum que precisava de uma certa assertividade original para transmitir um mundo por demais mecanizado e ser estritamente humano.

Após várias digressões e concertos com nomes grandes do metal progressivo, os Haken partem para o quinto longa-duração com uma atitude empreendedora. A meio de 2018, é lançado o primeiro álbum ao vivo: “L-1VE”, que celebra o décimo aniversário da banda e que conta com a participação na produção de Neal Morse, um dos mais importantes artistas do prog. Alimentados pelo sucesso do seu primeiro álbum ao vivo, “Vector” vem à baila. Novamente, com um disco conceptual de encher o olho, “Vector” é o quinto álbum de originais e segue o fio condutor instrumental, lírica e conceptual de “Affinity”.

O quinto disco aborda um tema que, segundo a banda, é uma continuação de “Affinity” devido às temáticas de subjugação e obsessão. Desta vez não se fala de assuntos como tecnologia, mas da obsessão de um médico por um doente e a respectiva perspectiva do último face ao que se está a passar. Como sempre, a receita conceptual mantém-se, tendo sempre como pano de fundo temáticas polémicas com uma narrativa sobretudo apoiada numa estrutura que se divide entre a fantasia e a realidade. “Vector” não é fenomenal, mas mostra um grupo mais interessado no prog metal e não tanto na emotividade. Para muitos fãs e boa parte da crítica, é o lançamento de estúdio mais pesado da discografia, o narrativamente mais directo e vibrante.

O futuro ainda é desconhecido, mas espera-se um álbum em breve, tendo em conta a constância de lançamentos de estúdio e a enorme capacidade de composição do grupo. Os Haken demonstram ser uma banda da nova geração, com uma forte ligação aos media e às redes sociais como fio condutor de promoção. É um sexteto muito inteligente que compõe de forma rica e em grande escala; fazem, de resto, questão de manter as suas raízes sem nunca se esquecerem de inovar e são, sem qualquer dúvida, um dos porta-estandartes do metal progressivo actual.