Um começo pungente (1991-1997)Os Bigelf tiveram um início relativamente inusitado com o objectivo de produzir música psicadélica com uma alma muito à anos 1970,... Perdidos no Arquivo: Bigelf

Um começo pungente (1991-1997)
Os Bigelf tiveram um início relativamente inusitado com o objectivo de produzir música psicadélica com uma alma muito à anos 1970, mas com uma toada a pender para o stoner e o mais alternativo. Não era sem tempo, pois, em 1991, a banda formou-se numa das piores décadas que o mundo da música alguma vez conheceu. Oficialmente, Damon Fox e Richard Anton são os fundadores de um quarteto que só se demonstrou verdadeiramente, aquando do lançamento do seu primeiro EP, “Closer To Doom”, um clássico do rock e metal que rapidamente se tornou numa referência para a banda.

De facto, inicialmente, o álbum acabou por provar ser uma das grandes demonstrações do pretendido pelo quarteto. Uma mistura entre o psicadélico, o doom e o heavy metal, com algumas variações ao longo do disco. À primeira, o EP tem apenas seis faixas lançadas com o apoio da produtora Third Hole Records. Posteriormente, o EP foi lançado com mais um conjunto de quatro temas bónus, após terem sido contratados pela produtora sueca Record Heaven. É para muitos uma excelente inspiração na grande década de 1970, onde mestres como Deep Purple, Black Sabbath e Emerson, Lake & Palmer dominaram. Na verdade, os Bigelf conseguiram incluir todos estes mestres na mesma receita sem exagerar nos condimentos, dando-lhe ainda assim uma marca pessoal, naquilo que é uma óptima estreia e um dos melhores lançamentos da sua discografia.

Como quase todos os inícios, o começo foi atribulado, mas o grupo conseguiu algo muito difícil: o apoio de uma base de fãs, apresentando um estilo diferente com um rock psicadélico bastante tóxico, quase a fugir para o heavy metal. O sucesso foi imediato aquando do lançamento de “Closer To Doom”, permitindo-lhes ganhar uma nova dimensão, e a mudança de produtora permitiu-lhes gravar música de uma forma mais liberta e superior. No entanto, após a chegada às lojas deste EP, um dos seus fundadores sai da banda, encurtando o quarteto a um trio, o que se manteve até ao lançamento do álbum de estreia.

“Money Machine”, marcos importantes e tragédia (1997-2001)
Com a nova produtora, os Bigelf obtiveram uma nova projecção que se tornou importante no seu álbum de estreia, não só em termos de produção como de composição. “Money Machine” foi, eventualmente, lançado em 2000 e seguido de uma tour pela Escandinávia. O trio tem neste álbum um dos grandes discos de estreia do rock psicadélico nas últimas décadas.

Foi-lhes possível exercer um maior poder de criatividade enquanto se inspiram nos grandes mestres dos anos 1970. A direcção musical é a mesma da do EP, alcançando um viciante som liderado pela guitarra de Andrew Butler-Jones – que está exímio neste disco –, pelo som mágico e muito King Crimson das teclas de Damon Fox, e a bateria de Steve Frothingham traz à memória os álbuns dos Black Sabbath dos anos 1970. “Money Machine” é melhor do que o EP de estreia, conseguindo ser realmente diverso e extremamente bem-trabalhado. Basta prestar atenção às melodias à Beatles acopladas pelos riffs intensos à Tony Iommi, com arranjos instrumentais que conseguem ser modernos e vintage, se tal alguma vez se imaginara possível. A faixa homónima, “Sellout”, “Side Effects” e “(Another) Nervous Breakdown” serão as favoritas num álbum que termina de uma forma estranha, mas que claramente apela ao sentimento dos seventies, com uma balada intensa, a “The Bitter End”, que perfaz um fim dramático para esta ‘máquina de fazer dinheiro’ que transparece uma realidade demasiado brutal. Ao mesmo tempo, “Money Machine” é um álbum de contrastes, algo que foi demonstrado em “Closer To Doom” e intensificado neste lançamento de 2000. É uma produção que não deixa os fãs de metal indiferentes enquanto satisfaz os fãs mais devotos dos grandes clássicos, com óptimas composições de guitarra, mellotron, órgão, bateria e apoiado com excelentes desempenhos e arranjos instrumentais divinais.

Com tudo isto, a estreia deste longa-duração colocou os Bigelf num estatuto muito diferente. O grupo tornou-se numa das bandas mais faladas na altura, tendo acabado por lançar um EP de promoção intitulado “Goatbridge Palace” e gravado em Estocolmo, com duas faixas de “Money Machine”, quatro ao vivo e uma cover dos Black Sabbath. Nesta época, já o finlandês Duffy Snowhill se havia juntado à banda como novo baixista, passando-a a quarteto novamente. Assim, a nova formação vivia em puro sucesso, atingindo o seu apogeu neste momento. Bigelf era sinónimo de psicadélico e de criatividade, tendo chamado a atenção de grandes bandas como System Of A Down e participado em festivais com os icónicos Tool, Queens of the Stone Age, The Sisters of Mercy e até os muito famosos Placebo. Claro que muitos desses concertos eram realizados na Escandinávia devido à sua produtora; portanto, muito do sucesso da banda passou por aquela região a partir do ano 2000.

Mas, eventualmente, no meio do auge, o quarteto é atingido pelo desastre. Butler-Jones, um criativo da guitarra e o criador dos riffs portentosos dos Bigelf, entra em coma diabético no qual se mantém até ao dia da sua morte, a 31 de Dezembro de 2009.

Nova força e “Hex” (2001-2003)
Esta tragédia atingiu a banda de uma forma inesperada, mas isso só significou que a mesma teve de responder ao sucedido, levantando a cabeça e renovando-se para poder a continuar no activo. Para além de uma produtora nova, a Warner Music Sweden – de maior dimensão e reconhecimento – apoiou a faceta criativa dos Bigelf e deu-lhes uma pujança muito diferente. Agora, com Ace Mark na guitarra, em 2003, “Hex” é lançado como o grandioso disco de estúdio do grupo. Novamente, a direcção musical mantém-se, mas com uma produção mais afinada e faixas mais longas. A banda de rock psicadélica junta o progressivo de uma forma mais proeminente neste lançamento, não deixando dúvidas aos fãs do rumo que quer continuar a tomar.

Se não era já do conhecimento público, passou a ser. “Hex” é apenas a ‘confirmação da confirmação’, apresentando um quarteto muito mais maduro e que parece ter crescido significativamente desde o longa-duração de estreia “Money Machine”. O segundo disco apresenta mais diversidade, com temas de heavy metal, rock progressivo – a roçar o metal progressivo –, hard rock e, claro está, rock psicadélico fortemente inspirado em Pink Floyd, King Crimson e Emerson, Lake & Palmer. É, até este momento, o lançamento mais preparado e trabalhado com forte ênfase no progressivo, na variedade instrumental e até lírica.

“Cheat The Gallows” (2003-2008)
Os Bigelf sempre tiveram uma conotação underground; aliás, ganharam fama desde cedo no meio underground, obtendo um estatuto quase de culto e até lendário nestes meios mais desconhecidos. Após o lançamento de “Hex”, pouco se conhece, à excepção de alguns concertos esporádicos. Poderá ser interpretado como uma forma para manter a banda num meio relativamente desconhecido que, ironicamente, lhe dá um estatuto ainda maior pela dificuldade de acesso a material e a concertos ao vivo. Outra teoria poderá ser o aumento da carga de trabalho do mentor dos Bigelf, Damon Fox, que é um instrumentalista reconhecido. Entre 2003 e 2008, até à data de lançamento de “Cheat The Gallows”, o músico participou em discos com Alicia Keys, Cheap Trick, Ben Jelen e até Celine Dion, entre outros. Claramente, não só o rock e o metal fazem parte do mundo deste músico, o que poderá ter causado a paragem de actividade nestes cinco anos.

Finalmente, em 2008, é lançado “Cheat The Gallows”, um álbum que continua a direcção musical anterior, mas que não é superior aos anteriores, mantendo apenas o caminho sem nunca fazer muitas curvas. O grande destaque é o aumento da importância do rock progressivo com um forte pendor para o som dos Pink Floyd com um pouco de Frank Zappa. “Cheat The Gallows” mostra que os Bigelf estão de volta, sem se darem ao trabalho de mudarem o seu som. É um disco maioritariamente composto por temas de curta duração, com as faixas mais longas a serem claramente as melhores e as mais elaboradas. O grande destaque é a quase épica “Counting Sheep”, que é quase um resumo da história do rock progressivo e de como deve ser executado numa faixa de pouco mais de 11 minutos. À semelhança dos outros álbuns, este “Cheat The Gallows” consegue ser ouvido várias vezes e é muito agradável ao ouvido. Novamente, a maturidade é evidente e a banda demonstra que se quer divertir enquanto toca aquilo que mais gosta de tocar.

Digressões, hiato, regresso, “Into The Maelstrom” (2008-)
Após o sucesso do terceiro longa-duração, 2009 trouxe algo muito fora do underground: uma digressão com os Dream Theater. Talvez se tenha dado aí o início da relação entre a banda e Mike Portnoy, o que levou o baterista a participar, em 2014, em digressões e em “Into The Maelstrom”.
Seja como for, o grupo americano deixou de ser underground para ser muito mais conhecido pelo público, obtendo mais reconhecimento pelo seu trabalho. Actuou com gigantes como Opeth e Porcupine Tree, ganhando maior importância nos cartazes. Para além disso – e apesar da contínua importância da Escandinávia na sua agenda –, os EUA e o resto da Europa também passaram a ser uma constante nos concertos da banda. Infelizmente, e após suportar bandas de renome mundial, em 2010, os Bigelf entram em hiato após desacordos com a produtora da altura, a Custard Records, que os havia contratado antes do lançamento de “Cheat The Gallows”.

Três anos após o hiato, a InsideOut Music anuncia o regresso da banda e a preparação de um novo álbum que acabará por ser lançado em 2014. “Into The Maelstrom” é o último disco de originais do grupo, que apresenta nele as mais evidentes mudanças de formação com a saída de Steve Frothingham e Ace Mark. As saídas foram significativas, mas as entradas também. A banda recebe Mike Portnoy (ex-Dream Theater) e Luis Maldonado (ex-Glenn Hughes) para ajudarem na composição do álbum e nas digressões de 2014.

“Into The Maelstrom” segue uma fórmula já conhecida pelos fãs e pela crítica. A adição de Portnoy acrescenta uma frescura ao som do grupo, mas, no entanto, a personalidade sonora mantém-se sem grandes disrupções. A sonoridade é refrescada com umas certas tonalidades instrumentais e conceptuais que tornam o disco um pouco mais pensado e, possivelmente, mais inteligente do que os anteriores, destacando-se as faixas “ITM”, “Edge Of Oblivion”, “The Professor & The Madman” e “High”. Apesar de a fórmula ser muito parecida ao já produzido pela banda, existe mais caos e energia nos arranjos instrumentais, tornando as composições mais elaboradas e complexas. Foi um lançamento inesperado, pois os Bigelf já não lançavam nada há seis anos, o que fez os fãs esquecerem-se um pouco do quarteto. Com a inclusão de Portnoy e Maldonado, o grupo renovou-se e produziu um disco com muita energia, mas que se mantém fiel à sonoridade dos americanos.

De facto, Bigelf é isso mesmo, é uma banda que se inspira nos clássicos, apenas para meter a sua colherada de rock psicadélico e progressivo com toques de metal. Ao longo dos anos, o grupo deixou de ser underground para ser mais comercial, tocando com grandes do rock e do metal. Passaram por muitas mudanças e tornaram-se na ‘paixão musical’ de muitos fãs e colegas de trabalho. Têm três EPs e quatro álbuns, mas o grupo prefere manter-se na reclusão até agora. Não há grandes notícias do que aí virá, mas decerto que a sonoridade Bigelf será uma marca fortíssima do que puder vir a ser lançado. É uma das grandes bandas da sua geração e não podíamos não falar nela na estreia deste “Perdido nos Arquivos”.