Recordamos o percurso destes surfistas australianos desde os primórdios da banda até à sua ascensão na elite do heavy metal internacional. Parkway Drive: de Byron Bay para o mundo

Na passagem de mais um aniversário do álbum de estreia dos Parkway Drive, intitulado “Killing with a Smile”, recordamos o percurso destes surfistas australianos desde os primórdios da banda até à sua ascensão na elite do heavy metal internacional.

Quando se formaram no ano 2003, em Byron Bay, uma cidade costeira no leste australiano, todos os elementos dos Parkway Drive estavam profundamente entranhados na comunidade e cultura surfista da cidade, algo perfeitamente natural para quem nasce e cresce num local onde o mar e as ondas se encontram. Porém, muitos perguntarão: e o que é que surf tem que ver com heavy metal? A resposta é simples, mas não óbvia. Sendo que neste caso vamos trocar o heavy metal pelo hardcore. Nos finais dos anos 1990 e princípios dos 2000, grande parte dos filmes de surf tinham como banda-sonora músicas de grupos de punk hardcore do sul da Califórnia, como NOFX, Pennywise ou Bad Religion, também eles ligados à cultura surf. Enquanto adolescentes rebeldes e consumidores destes filmes, é neste contexto que Winston McCall (voz), Jeff Ling (guitarra solo), Luke “Pig” Kilpatrick (guitarra ritmo), Ben “Gaz” Gordon (bateria) e Brett “Lagg” Versteeg (baixo) formam os Parkway Drive.

Como ainda não existia uma cena musical consolidada em Byron Bay, era notória também a falta de salas que permitissem às bandas da cidade ensaiar e tocar ao vivo. No entanto, e com os Parkway Drive a darem os primeiros passos, os ensaios da banda decorriam na cave da casa do baterista, que recebeu a alcunha de Parkway House por se situar na Parkway Drive, rua que dá o nome à banda. Para além de sala de ensaios, a Parkway House funcionava também como sala de concertos para a pequena cena hardcore de Byron Bay.

Passados dois meses de ensaios, a banda deu o seu primeiro concerto no Byron Bay Youth Centre. Na audiência estava Michael Crafter, vocalista da banda de metalcore australiana I Killed the Prom Queen, que, impressionado com a sonoridade e com os breakdowns do grupo de Byron Bay, convidou-os para fazerem parte de um split-CD editado em Junho de 2003. As duas bandas seguiriam depois numa tour conjunta.

Após esta edição, os Parkway Drive chamaram a atenção da Resist Records e assinaram um contrato com a editora australiana, lançando de seguida o EP “Don’t Close Your Eyes” em 2004. Insatisfeitos com a produção do EP, a banda procurou um produtor que conseguisse captar em estúdio a energia que os Parkway Drive apresentavam ao vivo. Foi então que surgiu a hipótese de trabalharem com Adam Dutkiewicz, produtor e guitarrista dos Killswitch Engage, que colaborou com a banda na gravação do álbum de estreia “Killing with a Smile”, captado nos EUA nos Zing Studios de Massachussets. Após ter estreado na tabela da ARIA no 39º lugar, os Parkway Drive tocaram por tudo o que é sítio na Austrália, e é já com um novo baixista na formação, Shaun “Cashy” Cash, que partem em 2006 na sua primeira tour internacional pela Europa em estilo DIY sem o auxílio de promotores oficiais.

É também em 2006 que a banda fecha aquela a que podemos chamar de formação clássica com a entrada de Jia “Pie” O’Connor, amigo de longa data e também responsável pelo merchandise nos concertos do grupo, que substitui o baixista Shaun “Cashy” Cash.

Depois da tour europeia, a banda seguiu para os EUA, onde despertou o interesse da Epitaph Records, principal editora no ramo do punk hardcore, que elogiou não só a sonoridade do grupo como também a forma como combinavam elementos de hardcore e heavy metal. As duas partes assinaram contrato e a Epitaph encarregou-se de editar o álbum de estreia dos Parkway Drive na América, algo que os fez chegar a um público ainda mais vasto.

Em 2007, a banda volta a entrar em estúdio para gravar o segundo álbum intitulado “Horizons”. Neste novo registo, os Parkway Drive optaram por manter o produtor, mas procuraram elevar a fasquia com a composição de um álbum mais técnico e estrutural que tivesse secções que permitissem grandes sing-alongs, como é o caso de “Carrion” ou “Idols and Anchors”, e breakdowns avassaladores, como em “Boneyards”. Com a edição de “Horizons”, os Parkway Drive cresceram de uma forma exponencial em todo o mundo, passando de concertos em salas pequenas, onde tocavam para 50-100 pessoas nos melhores dias, para salas com capacidade para 1000-1500 pessoas onde o público entoava cada letra.

Após uma extensa tour, a banda lançou o primeiro documentário em 2009, intitulado “Parkway Drive: The DVD”, em que o grupo recorda momentos que vão desde a sua formação até às primeiras tours internacionais, passando pelos contratos discográficos com a Resist e a Epitaph.

Passados três anos na estrada a promover “Horizons”, os Parkway Drive entraram de novo em estúdio em Março de 2010 para gravar “Deep Blue”, desta vez com o produtor Joe Barresi, conhecido por ter trabalhado com Melvins, Queens of the Stone Age ou Bad Religion. Em “Deep Blue”, a banda australiana optou por apresentar uma narrativa conceptual, como explicou o vocalista Winston McCall no anúncio do álbum: «É basicamente sobre a busca da verdade num mundo que aparenta estar desprovido disso. A história é contada a partir dos olhos de um homem que acorda e apercebe-se que a sua vida é uma mentira e que tudo o que ele acredita não é real. Então, ele vai em busca da verdade para si próprio, sendo que a sua viagem o “leva até ao fundo do oceano e depois trá-lo de volta”.» Com faixas que se tornaram autênticos clássicos ao vivo, como é o caso de “Karma” e “Sleepwalker”, “Deep Blue” é um dos álbuns dos Parkway Drive que mais aclamação teve por parte da crítica e do público, algo que se verificou com a chegada à segunda posição da tabela da ARIA na Austrália e ao número 39 na Billboard 200 dos EUA. Foi também na tour de “Deep Blue” que os Parkway Drive se estrearam em Portugal, com um concerto na sala Santiago Alquimista em Lisboa.

Em 2012 o grupo lançou o seu documentário intitulado “Home Is for the Heartless”, que surge como uma espécie de filme tour/cultural/surf-trip. De uma forma bastante humilde, a banda leva-nos numa viagem pelo mundo enquanto vamos acompanhando a sua vida na estrada passando por países que os fazem sentir em casa, como a Indonésia ou Espanha, e outros que representam choques culturais, como é o caso da Rússia, China ou Índia. Este é, sem dúvida, um registo em que se nota uma banda em ascensão, que vai descobrindo que tem fãs espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Ainda no mesmo ano, é editado “Atlas”, o quarto longa-duração, que demonstra uns Parkway Drive a enveredarem por um caminho mais experimentalista com o auxílio do produtor Matt Hyde. Apesar de não terem deixado de lado a agressividade dos registos anteriores, houve uma procura em diversificar os arranjos e a instrumentação utilizada; como tal, é possível ouvir instrumentos de cordas, como violoncelo e violino, nas faixas “Sparks” e “Atlas”, piano também em “Atlas” e até trompete em “Blue and the Grey”. No entanto, são as músicas “Dark Days” e “Wild Eyes”, com o seu monstruoso sing-along riff, que têm até hoje lugar cativo nas setlists.

Se há algo que os Parkway Drive nunca esconderam foi a ambição de se tornarem numa das maiores bandas de heavy metal do mundo. Sendo que para tal, e usando uma estratégia semelhante a outros grupos como forma de chegar a um público ainda mais vasto, a banda australiana optou por redesenhar a sua sonoridade com a inclusão de novas influências. Naquele que foi o processo de composição para o seu quinto álbum de estúdio, denominado “Ire”, o grupo começou a escrever canções que tinham como finalidade serem tocadas perante grandes multidões. Desta forma, os Parkway Drive foram à procura de duas coisas: riffs melódicos e possantes que, acompanhados por uma batida sólida, colocassem grandes plateias em alvoroço e aos saltos, e ainda refrãos orelhudos que permitissem sing-alongs colossais. Sem nunca se afastarem por completo do metalcore, os Parkway Drive começavam assim a direccionar o seu som para aquilo que podemos chamar de heavy metal de arena, impulsionado por bandas como Iron Maiden ou Metallica.

Quando “Ire” é editado em Setembro de 2015, a crítica elogia o trabalho da banda ao referir que «este era o álbum que os Parkway Drive precisavam de fazer para se manterem frescos e relevantes». Prova disso são as enérgicas “Bottom Feeder”, “Vice Grip” e “Destroyer” ou as demolidoras “Crushed” e “Dedicated”. Por outro lado, foi já na tour de “Ire”, e passados sete anos, que os Parkway Drive regressaram a Portugal, em Abril de 2017, para um dos concertos mais intensos que o Lisboa Ao Vivo presenciou. Com uma setlist que começou em “Wild Eyes” e terminou em “Bottom Feeder”, os australianos conseguiram virar do avesso a sala lisboeta com a sua actuação enérgica perante um público que retribuiu com muito mosh, circle pits e crowd surfing à mistura.

Durante a tour de promoção do álbum “Ire”, os Parkway Drive passaram por uma espiral de tragédias que abalaram fortemente a confiança da banda, bem como toda a sua postura face ao futuro. Isto porque o grupo foi confrontado num curto espaço de tempo com uma série de falecimentos de pessoas bastante próximas, tendo sido todas elas provocadas pela fatídica doença que é o cancro. Com um espírito de derrota e de impotência perante toda esta situação, a banda foi em busca de algo que os auxiliasse a deitar cá para fora todas as suas emoções e tristezas, e é neste contexto que os Parkway Drive compõem “Reverence”, o seu sexto álbum editado em 2018. Este, que é o registo mais negro da banda, mantém a sonoridade grandiosa de “Ire”, mas aliada a temáticas líricas que abordam sentimentos como a raiva, no caso da faixa “Wishing Wells” em que Winston McCall berra «Burn your heaven / flood your hell / Drown you in your wishing wells / Burn your heaven / flood your hell / Damn you all ’cause tonight I’m killing gods», ou sofrimento em “The Colour of Leaving” com a deixa «You never know just what you’ve got / Till it’s slipping through your fingers / Never know just what you’ve got / Till it’s gone with the wind». Apesar dos momentos mais negros em termos líricos e de uma maior predominância de vocais limpos, “Reverence” também apresenta algumas das melhores composições instrumentais dos Parkway Drive, nomeadamente as faixas “Prey” e “The Void”, que seguem as mesmas pisadas de “Ire” no que toca a riffs melódicos e refrãos orelhudos.

Enaltecido pela crítica, “Reverence” é tido como o álbum que coloca os Parkway Drive na primeira liga do heavy metal e como dignos sucessores de Metallica, Iron Maiden ou Judas Priest. Prova disso foi o crescimento, em termos de dimensão e estrutura, dos concertos. Enquanto na tour de “Ire” tocavam para salas de média dimensão com assistências que variavam entre as 3000 e 5000 pessoas, na tour de “Reverence” a banda entrou no circuito das arenas, passando assim a tocar em salas como o Alexandra Palace em Londres ou a Arena Leipzig na Alemanha, ambas com capacidade para mais de 10000 pessoas. No circuito dos festivais, o crescimento também foi notório. Festivais consagrados como o Ressurection Fest em Espanha, o Wacken Open Air na Alemanha ou o Bloodstock Open Air em Inglaterra apostaram as suas fichas nos australianos e colocaram-nos como cabeças-de-cartaz, feito esse que ficou registado no mais recente documentário da banda, intitulado “Viva the Underdogs”, que foi lançado em Janeiro de 2020.

O futuro, que em tempos parecia imprevisível, já está assegurado para 2021. A “Viva the Underdogs World Tour” vai levar os Parkway Drive às principais arenas dos EUA, Europa e Austrália. Com toda a produção que envolve pirotecnia e uma plataforma com uma bateria giratória, os australianos prometem levar aos quatro cantos do mundo o espectáculo que os consagrou como uma das melhores bandas ao vivo da actualidade. E quem somos nós para dizermos o contrário…