Quando foi despedido de Black Sabbath em 1979, Ozzy estava convencido de que a sua carreira tinha terminado. Depressa descobriu que... Ozzy: vida num comboio maluco

Quando foi despedido de Black Sabbath em 1979, Ozzy estava convencido de que a sua carreira tinha terminado. Depressa descobriu que a loucura estava apenas a começar…

Houve uma altura em que o Rainbow Bar and Grill, na lendária Sunset Boulevard de Los Angeles, foi o epicentro da excessiva indulgência de Ozzy Osbourne, mas, hoje em dia, as visitas do vocalista são de natureza um pouco diferente.

Para Ozzy, o bar da Sunset Strip já não é um cenário para deboche, mas um cenário um pouco irónico para as suas reuniões matinais de Alcoólicos Anónimos, o primeiro item no seu itinerário diário. Ao concluir a reunião, volta para casa em West Hollywood, veste o equipamento de ginástica para uma sessão de 90 minutos no seu ginásio caseiro e ouve as playlists do Pandora enquanto corre na passadeira. E só está pronto para enfrentar o mundo como Ozzy, Prince Of Darkness, quando essa rotina diária estiver concluída.

Há 40 anos, a rotina diária de Ozzy Osbourne em Los Angeles era bem diferente. No Verão de 1979, depois de ter sido despedido de Black Sabbath, o único desejo do vocalista era abraçar o esquecimento. Todas as manhãs, acordava ao som do seu traficante de cocaína a bater à porta do minúsculo apartamento no complexo de Le Parc, na North West Knoll Drive, no qual estava sequestrado após ter sido expulso da mansão dos Sabbath em LA. Depois de tirar a remela dos olhos e um bocado de pó branco das gengivas, Ozzy telefonava para o supermercado de Gelson, na Sunset, e pedia uma grade de cervejas e uma garrafa de bebidas espirituosas para serem entregues na sua casa temporária. E depois, com as cortinas fechadas e o telefone desligado, o vocalista estava preparado para ficar completamente desgraçado.

«Pensei apenas: ‘O fim é agora.’», relembra Ozzy. «Pensei: ‘Que c*ralho vou eu fazer agora?’ E a minha única ideia era: ‘Vou f*der-me todo até ficar sem dinheiro e depois vou para casa, em Inglaterra.’ Foi o que fiz. F*di-me todo, todos os dias, durante três meses. Estava em isolamento total. E estava cansado, chateado.»

Até hoje, ninguém envolvido consegue apontar o exacto momento em que os Sabbath perderam a paciência com o vocalista errante, embora a memória de Geezer Butler seja de que a gota d’água foi quando a banda chegou ao estúdio e encontrou Ozzy inconsciente numa poça do seu próprio mijo. Por sua própria conta, o abuso de drogas e álcool de Ozzy estava «a escalar» por essa altura, e estava rapidamente a perder o interesse pela banda, uma situação que não passava despercebida, sem o conhecimento de Ozzy.

«Realmente, só recentemente me ocorreu, quando li um pouco do livro do Tony Iommi, que todos sabiam que eu já não estava para aquilo», admite. «Todos estávamos metidos em muitas drogas e álcool apenas para atravessar o c*ralho do dia, e a comunicação foi realmente a baixo. Começámos como uma banda local que se saiu muito bem, e depois percebemos que estávamos a ser enganados, e a ter que se pagar contas e tudo isso, pensei: ‘Isto já não é rock n roll.’ Quando fui expulso, a minha negação foi tanta que fiquei do tipo: ‘Como se atrevem a despedir-me?’ Olhando para trás, foi uma dádiva.»

Através de uma infame intervenção e muito incentivo por parte da sua nova agente e futura companheira, Sharon Arden, Ozzy começou a fazer audições para uma nova banda – e, após um tempo, foi um certo prodígio da guitarra com 23 anos que causou a maior impressão.

Ozzy e Randy Rhoads deram-se espectacularmente, e o par começou a escrever quase imediatamente, mudando-se (por insistência de Sharon) de Los Angeles para a casa de família de Ozzy, a Bullrush Cottage em Ranton, Staffordshire. O primeiro fruto dessa parceria foi a balada à Beatles, “Goodbye To Romance”. “Suicide Solution”, “Crazy Train”, “Mr. Crowley” e “I Don’t Know” foram todas escritas nas semanas seguintes.

«Os primeiros dias de qualquer banda em que participei foram sempre os mais produtivos, porque apenas se escreve», diz Ozzy. «Não tínhamos outros compromissos. E o Randy foi brilhante, ele foi o primeiro gajo na minha vida que disse: ‘Tenta fazer isto aqui, e isto aqui…’ Quando fizemos a “Crazy Train” e a “Suicide Solution”, eu sabia que tínhamos algo de bom. Foi um momento mágico.»

Rejeitando a sugestão de Sharon de que deveria chamar The Son of Sabbath à sua nova banda («Eu disse: ‘P’ró c*ralho!’»), Ozzy embarcou na sua primeira digressão pelo Reino Unido como artista a solo, apoiado por Rhoads, o baixista Bob Daisley e o baterista Lee Kerslake. O primeiro álbum a solo de Ozzy, o clássico “Blizzard Of Ozz”, foi lançado ao mesmo tempo.

«A pressão estava sobre mim, porque era o meu nome nos bilhetes», observa Ozzy. «Se falhasse, todos os outros membros da banda podiam sair e conseguir outros empregos na porra de Uriah Heep, Black Sabbath ou noutro sítio, mas eu não. Tive que provar-me a mim mesmo. Para ser sincero, foi uma espécie de experiência rock n’ roll. Não fazia ideia que ia dar no que deu.»

“Blizzard Of Ozz” venderia seis milhões de cópias em todo o mundo.

É claro que, enquanto o segundo álbum a solo de Ozzy, “Diary Of A Madman”, de 1981, foi mais um triunfo, levando a banda ao estatuto de arena nos EUA, a trágica e assustadora morte prematura de Randy num acidente, no ano seguinte, ameaçou fazer tudo sair da rota.

«A minha vida na altura era uma montanha-russa», diz Ozzy. «O meu pai faleceu, depois fui despedido de Sabbath, depois conheci o Randy Rhoads, depois divorciei-me da minha esposa (da altura) e depois o Randy Rhoads morreu. Lembro-me de sair do autocarro e dizer: ‘Não consigo mais fazer isto, porque é sempre a subir e a descer.’ E a Sharon disse: ‘Não sejas tão estúpido, o Randy não gostaria disso.’ E acabámos a tocar no Madison Square Garden, sem o Randy, com o Bernie Torme na guitarra. E pelo que vale, ele salvou a minha vida, porque, se eu não tivesse subido àquele palco com ele, acho que nunca mais voltaria a um palco.»

Em 1986, quando foi cabeça-de-cartaz no festival Monsters of Rock, em Donington, pela primeira vez, Ozzy era indiscutivelmente o maior nome no metal. E não olhou para trás desde então.

«O meu ego adorou», ri Ozzy. «Era do tipo: ‘F*da-se, eu disse que estava certo!’ Foi inacreditável, e a modos que me abanou um pouco. Eu era alcoólico e fui desculpado pelo sucesso e, durante um tempo, pensei que a minha merda não fedia.»

Questionado se o seu sucesso a solo serviu como uma saudação de dois dedos [N.d.T.: gesto maldoso] para os seus antigos colegas de banda, Ozzy ri e diz: «Bem, sucesso é a melhor vingança.»

«Mas não», diz mais seriamente. «Fiquei amargurado durante um tempo, mas passou. Mas é como um divórcio, não queres saber como está a tua antiga companheira. Nunca vi um concerto deles, e nunca ouvi os álbuns que eles fizeram sem mim. E ainda não o fiz, não quero. Por que é que deveria? Tenho a certeza de que eles não estavam a tocar a merda dos meus discos nos concertos deles!»

Tudo ficou bem entre os antigos e afastados companheiros de Sabbath, tanto é que Ozzy juntou-se a Tony Iommi e Geezer Butler para gravar um último álbum de Black Sabbath com o produtor Rick Rubin. Enquanto isso, a sua compilação “Memoirs Of A Madman”, que se estende por toda a carreira, serve como um grande lembrete sobre quão fabuloso entertainer Ozzy, a solo, tem sido.

«A razão pela qual lançámos este álbum é que as pessoas estavam a ligar para o escritório e a dizer: ‘A carreira a solo de Ozzy acabou?’ Isto apenas para dizer: ‘Ei, ainda aqui estou, ainda estou no activo e vou continuar se as pessoas quiserem ver-me.’ Tenho uma equipa de compositores em Los Angeles com quem escrevo quando tenho uma semana livre aqui e ali, e já escrevi três coisas muito interessantes. [N.d.T.: entre 2012-2014] Mas não me vou apressar a lançar outro álbum solo [N.d.T.: entrevista de 2014], tem de ser bom. Tem de ser óptimo, na verdade.»

É claramente um bom momento para Ozzy Osbourne. Questionado se tem algum arrependimento sobre os erros do passado e aqueles dias sombrios há 40 anos, Ozzy ri secamente e diz: «Qual é o sentido?»

«Eu queria ser um artista a solo, porque a situação de banda não funcionou para mim», diz calmamente. «Mas, às vezes, é preciso cair para se voltar a levantar.»

-/-

Consultar artigo original em inglês.