No dia 11 de Dezembro de 1978, os Black Sabbath terminavam no Johnson Gymnasium em Albuquerque, New Mexico a conturbada tour de promoção ao... Ozzy Osbourne “Blizzard of Ozz”: a ressurreição do Príncipe das Trevas

No dia 11 de Dezembro de 1978, os Black Sabbath terminavam no Johnson Gymnasium em Albuquerque, New Mexico a conturbada tour de promoção ao seu oitavo álbum “Never Say Die!”. Este que viria a ser o último concerto com Ozzy Osbourne, antes da primeira reunião no Live Aid de 1985, colocou bem à vista as disrupções que se faziam sentir no seio da banda, isto porque o grupo de Birmingham estava a atravessar uma fase bastante negativa devido ao consumo excessivo de cocaína e álcool, o que acabou por ter efeito no processo de composição e consequente lançamento dos álbuns “Technical Ecstasy” (1976) e “Never Say Die!” (1978), considerados autênticos fracassos comerciais e pouco apreciados pela banda.

Regressados da tour, os Black Sabbath, que se encontravam desiludidos e pouco motivados, procuraram refúgio nas drogas e na bebida. A rejeição e a crítica estavam a dar cabo da estabilidade emocional da banda, principalmente de Ozzy, que desde criança desenvolveu problemas de confiança e auto-estima devido aos abusos que sofrera por parte da família e dos colegas de escola, procurando assim nos vícios uma espécie de escape para os seus receios. No entanto, a banda não ponderou desistir, indo em busca de restabelecer a identidade sonora que a tinha demarcado no princípio dos 70s como os pioneiros do heavy metal. Para tal, alugaram uma casa em Los Angeles, montaram um estúdio na garagem e começaram a trabalhar no sucessor de “Never Say Die!”. O que os Black Sabbath não estavam à espera é que Ozzy desaparecesse durante várias semanas e não comparecesse a grande parte das sessões de composição do álbum, sendo que das poucas vezes que aparecia apresentava-se num estado completamente alterado que o incapacitava de cantar.

Já em 1979, o novo álbum tardava em aparecer e a editora pedia explicações. Posto isto, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward sentaram-se à mesa para tomar uma decisão drástica: ou trocavam de vocalista ou a banda tinha de acabar. Após uma longa ponderação, Ozzy Osbourne foi despedido no dia 27 de Abril de 1979.

Assim, se por um lado, os Black Sabbath conseguiram reerguer-se rapidamente com a contratação de Ronnie James Dio, ex-Rainbow, e começar logo de seguida a trabalhar no que viria a ser “Heaven and Hell”(1980), por outro, Ozzy Osbourne encontrava-se completamente perdido, tanto do ponto de vista criativo como mental, tendo acabado por cair numa espiral de autodestruição ao exilar-se durante várias semanas no Verão de 1979 num quarto do Le Parc Hotel em West Hollywood, sendo que das poucas vezes que abria a porta era para receber o seu dealer ou para entregas de pizza ou para deixar entrar algumas groupies que procuravam passar uma noite com o astro do rock. Porém, quando Ozzy já estava disposto a desistir até da sua própria da vida, eis que surge Sharon Arden, filha de Don Arden, manager dos Black Sabbath. Na altura com 28 anos, Sharon já trabalhava nos escritórios da empresa de music management do seu pai, e é com a sua astúcia comercial, que ainda hoje sobressai, que Sharon se apercebeu que tinha de fazer algo para ajudar Ozzy a relançar a sua carreira. O acordo era simples: se Ozzy se limpasse, a empresa de Sharon iria aceitar a gestão da sua carreira. E assim foi com a entrada nos anos 80. Um aspecto curioso é que Osbourne viria mais tarde a recordar, talvez de uma forma catártica, este período negro da sua vida, não só na letra mas também através do videoclipe de “Under the Graveyard”, um dos singles de “Ordinary Man” (2020).

Nas semanas que se seguiram, Sharon colocou Ozzy à prova ao acordar com ele a realização de várias audições em LA para recrutar músicos para uma nova banda. A escolha do guitarrista foi a primeira a ficar definida. Depois de várias audições, em que também esteve presente Gary Moore, a escolha recaiu sobre um jovem guitarrista de 24 anos proveniente de North Hollywood cujo nome era Randy Rhoads. Nascido numa família de professores de música, Rhoads teve uma formação musical clássica a partir dos sete anos, tendo mais tarde dedicado-se à guitarra eléctrica com que conseguiu atingir um nível de proficiência técnica fora do comum. Aos 16 anos forma a banda Little Women, que viria mais tarde dar origem aos Quiet Riot, banda que viria dar a conhecer o nome de Rhoads à cena musical de LA. O nome de Randy Rhoads chega pela primeira vez aos ouvidos de Ozzy Osbourne através de Dana Strum, actual baixista dos Slaughter, na altura dos Bad-Axe, e admirador do jovem guitarrista. Strum, que foi fazer a sua audição para a banda de Ozzy, presenciou a prestação de vários guitarristas, entre eles Gary Moore, e apesar de ter elogiado o trabalho do guitarrista norte-irlandês, Strum achava que o seu estilo de tocar mais bluesy não iria resultar na estética heavy metal de Ozzy. Em contrapartida disse a Osbourne que conhecia exactamente o guitarrista que ele precisava. Contactado por Strum, Randy Rhoads mostrou-se inicialmente pouco interessado, pois não era propriamente apreciador dos Black Sabbath, mas mesmo assim aceitou deslocar-se até ao estúdio Daton Records em Santa Mónica para fazer a audição. Já no estúdio, a primeira impressão visual de Ozzy para com Randy Rhoads foi algo depreciativa, criticando desde logo a pequena estatura do guitarrista (1,70m) e o seu corpo franzino. No entanto, quando Randy ligou a guitarra ao amplificador e começou a tocar um solo, Ozzy ficou boquiaberto com a sua capacidade técnica e deu indicações a Strum para informar Randy Rhoads de que estava contratado para o lugar de guitarrista.

Ainda com a formação por fechar, mas sem querer perder muito tempo, Ozzy Osbourne começou logo a fazer jams com Randy Rhoads, que contratualmente ainda fazia parte dos Quiet Riot. A estas jams, que decorreram nos estúdios Pasha Music, juntaram-se ainda o baixista Dana Strum e o baterista Frankie Bannali, colega de Rhoads nos Quiet Riot. Depois destas sessões, Ozzy acabaria por voltar a Inglaterra para estar com a sua família que já não via há meses. Na altura ainda estava casado com Thelma Riley, com quem teve dois filhos. É numa das suas saídas ao clube Music Machine, em Londres, que Ozzy conhece o baixista australiano Bob Daisley que tinha feito carreira no Reino Unido com as bandas Chicken Snack, Widowmaker e, já nos finais dos 70s, com os Rainbow. Daisley tinha sido recomendado para ocupar o lugar de baixista na banda de Ozzy pelo filho de Don Arden, David, que na altura geria os escritórios londrinos da Jet, editora de Osbourne. A ideia inicial era reunir uma banda residente no Reino Unido, mas tornou-se difícil encontrar um guitarrista inglês que estivesse ao nível de Randy Rhoads pelo que, em Novembro, o guitarrista voou de LA para Londres para se reunir com Ozzy e Daisley nos escritórios da Jet. Neste momento, já se encontravam então reunidos 3/4 da formação original de “Blizzard of Ozz”.

O processo de composição do primeiro álbum iniciou-se de seguida nos estúdios Rockfield, no País de Gales, e Transam Trucking, em Suffolk. Este era feito por Daisley e Rhoads, como refere o baixista numa entrevista à Classic Rock Magazine: «Eu e o Randy trabalhávamos as partes musicais. O Randy tinha os acordes e eram trabalhados em músicas. Depois tocávamos a música e o Ozzy cantava por cima e inventava uma linha melódica. Depois eu gravava a melodia vocal e escrevia letras que encaixavam na métrica e na linha melódica. O Ozzy não era um lirista… Mas alguns títulos das músicas eram dele.» Durante o processo de composição, a banda trabalhou com o baterista Barry Screnage, amigo de Ozzy. No entanto, este nunca foi considerado um candidato ao cargo – apenas trabalhava como músico de sessão. A banda continuava assim à procura de um baterista para fechar a formação. A procura terminou quando David Arden apresentou Lee Kerslake, antigo baterista dos Uriah Heep. Segundo Daisley, a audição de Kerslake ficou marcada pela sua entrega: «O Lee tocou com fogo e agressividade… Este era o gajo que estávamos à procura.» Ficava assim reunida a formação que iria gravar os dois primeiros álbuns a solo de Ozzy Osbbourne.

Após o processo de composição, que durou alguns meses, a banda entrou nos estúdios Ridge Farm, em Surrey, a 22 de Março de 1980, para dar início às sessões de gravação de “Blizzard of Ozz”. O álbum, que foi co-produzido pelos quatro membros da banda e captado pelo engenheiro de som Max Norman, foi gravado em apenas quatro semanas. O produto final de “Blizzard of Ozz” representou um autêntico triunfo na carreira de Osbourne, pois não só estávamos perante um Ozzy revigorado e com a sua confiança restabelecida, como também do ponto de vista instrumental e composicional Ozzy tinha conseguido reunir uma banda de excelência que fez toda a diferença no resultado sonoro do álbum. Rhoads, tido como um prodígio da guitarra, trouxe as suas qualidades virtuosas e o seu estilo de tocar neoclássico para faixas clássicas como “I Don’t Know” ou “Mr. Crowley”, mas também uma abordagem acústica mais pessoal em “Dee”, uma faixa dedicada à sua mãe. Contudo, foi com “Crazy Train” que Randy alcançou um maior protagonismo. Existem duas teorias quanto à composição do icónico riff de guitarra. Segundo Greg Leon, que substituiu Rhoads nos Quiet Riot, o riff surgiu quando os dois estavam a brincar com a música “Swingtown” de Steve Miller, sendo que, ao acelerar a passagem, Randy começou a criar algo distinto e bastante próprio. A outra teoria defendida por Bob Daisley refere que o riff está em Fá sustenido menor e que surgiu totalmente da cabeça de Rhoads, sendo que o nome da música apareceu na sequência do efeito sonoro psicadélico que o guitarrista estava a conseguir captar através do seu amplificador. Segundo Daisley, ele e Randy eram fãs de comboios e, como tal, em jeito de brincadeira, virou-se para o guitarrista e proferiu a frase: «That sounds like a crazy train». Como Ozzy costumava utilizar a expressão «You´re off the rails», Daisley decidiu também empregá-la na letra da música. No entanto, o significado da letra é muito mais profundo do que apenas o gosto por locomotivas, com várias referências à Guerra Fria e à necessidade de acabar com conflitos. Quanto à gravação da faixa, o engenheiro de som Max Norman destaca o empenho e o compromisso de Randy Rhoads em estúdio: «Se ouvires a Crazy Train com muita atenção, vais ouvir uma guitarra principal ao centro e duas outras a tocar exactamente a mesma coisa à esquerda e à direita. O que acontece é que tu não as ouves, ouves tudo como uma única guitarra. O Randy era o melhor a fazer overdubs de solos…»

Quanto à secção rítmica, tanto Kerslake como Daisley mostraram-se bastante coesos, com o primeiro a demonstrar uma batida sólida e fills dinâmicos em faixas como “No Bones Movies” e “Steal Away (The Night)”, e o segundo com linhas melódico-rítmicas ricas e intrincadas em “Goodbye to Romance” e também em “Steal Away (The Night)”. Todavia, o maior destaque de Daisley vai para a sua contribuição no departamento lírico: desde os relatos das experiências auto-destrutivas de Ozzy em “Suicide Solution”, passando pela relação com o ocultismo de Aleister Crowley em “Mr. Crowley” ou ainda uma chamada de atenção para a consciencialização ambiental em “Revelation (Mother Nature)”. Ao fim e ao cabo, Bob Daisley era uma espécie de Bernie Taupin de Ozzy Osbourne. Porém, existe ainda mais uma figura que, apesar de não ter feito parte da formação da banda, trabalhou e contribuiu profundamente para a identidade sonora de “Blizzard of Ozz”. Estamos a falar do teclista Don Airey, que trabalhou em estúdio na gravação do álbum. A sua colaboração é notória em faixas como “Goodbye to Romance” e “Revelation (Mother Earth)”, as duas baladas do álbum, em que Airey delicia os ouvintes com dois solos carregados de emoção, e “Mr. Crowley”, cuja introdução de Airey dá à música um carácter ainda mais místico e sombrio. Segundo o teclista, a introdução foi gravada em meia hora com recurso a um Minimoog e um Yamaha CS80, um dos primeiros sintetizadores polifónicos.

Ainda antes de “Blizzard of Ozz” ser lançado, Sharon Arden já começava a organizar a primeira tour do grupo no Reino Unido. A proposta que Sharon fez chegar a Ozzy era simples: ou ele apresentava-se como banda de abertura para um grupo de maior como os Van Halen ou então fazia uma tour como cabeça-de-cartaz em salas mais pequenas. Sharon acabaria por influenciar Ozzy a escolher a segunda opção, justificando: «Os concertos estarão sempre esgotados e quando as pessoas vêm o anúncio a indicar esgotado, vão querer ir.» O primeiro concerto oficial da tour só aconteceu a 12 de Setembro de 1980 no Glasgow Apollo, Escócia. No entanto, e tendo em vista que tudo corria como planeado para esse concerto, Sharon optou por marcar dois concertos de aquecimento para 3 e 5 de Setembro no Norbeck Castle Hotel, em Blackpool, Irlanda do Norte, e no West Runton Pavillion, em Norfolk, sendo que, de forma a manter um certo secretismo em relação a este novo projecto de Ozzy Osbourne, os concertos foram anunciados com o nome “The Law” nos cartazes. Depois desses espectáculos começou-se então a espalhar a palavra de que Ozzy tinha um novo projecto, e é já no Glasgow Apollo que a banda é recebida em apoteose. Como retribuição, Ozzy ajoelhou-se e beijou o chão do palco. Segundo Sharon, aquela tinha sido a melhor jogada, visto que depois desse concerto todas as salas passaram a estar esgotadas e com filas bastante extensas à porta.

Contudo, estes primeiros concertos começavam a demonstrar algumas tensões internas entre membros da banda e a gestão de Sharon. É que na altura, Arden não tinha acompanhado o processo de composição e gravação do álbum no Reino Unido, pois estava a trabalhar a partir dos escritórios de LA. Sharon só viajou para a Europa dias antes de começar a tour. É então neste contexto, e ao presenciar os ensaios, que apresenta o seu desagrado perante a secção rítmica, isto porque, ao contrário de Rhoads, Sharon não tinha dado o seu aval para a contratação de Daisley e Kerslake. Não estava em causa a sua qualidade enquanto músicos mas a sua influência visual na imagética. Segundo Sharon, tanto Daisley como Kerslake eram demasiado velhos e a sua imagem não ia ao encontro daquilo que ela pretendia para a banda. A partir desse momento, Sharon não descansou até encontrar os substitutos indicados para ocupar esses lugares.

Foto: Jet Records

Entretanto, o lançamento do álbum no Reino Unido, pela Jet Records, aconteceu a 20 de Setembro de 1980, já a meio da tour. Porém, o facto de ter alcançado rapidamente o Top 10 e de ter proporcionado uma tour esgotadíssima não foi suficiente para evitar mais conflitos internos. Neste caso, as divergências estavam relacionadas com o nome da banda, isto porque durante as gravações do álbum tinha ficado acordado que o grupo se iria intitular “Blizzard of Ozz” e o nome de Ozzy iria aparecer apenas nos créditos. No entanto, quando o álbum foi lançado, o nome de Ozzy Osbourne estava escrito na capa com uma letra muito maior do que “Blizzard of Ozz”, dando assim a entender que este era um álbum a solo.

Apesar deste desentendimento, Bob Daisley e Lee Kerslake cumpriram com o resto da tour que terminou no dia 1 de Novembro no Canterbury Odeon Theater, em Canterbury. O que eles não esperavam era que, na penúltima noite da tour, Sharon convidasse o baterista Tommy Aldridge, que na altura tocava com a Pat Travers Band, para assistir ao concerto no Brighton Dome. Numa demonstração de autoridade, Sharon procurou fazer entender que estava ali o substituto de Kerslake e que muito possivelmente já poderia existir um pré-acordo, visto que Aldridge acabaria por entrar na banda em Março de 1981.

Terminada a tour no Reino Unido, Sharon demonstrou mais uma vez a sua astúcia para o negócio musical: em vez de enviar a banda de seguida para os EUA para iniciar uma nova tour, colocou-os de volta em estúdio para começarem a trabalhar no segundo álbum de originais. Desta forma, a banda teria mais repertório para apresentar nos seus concertos, algo que incentivaria os fãs a comprar mais bilhetes. Maior procura de bilhetes traduzia-se assim em concertos em salas com uma maior capacidade de espectadores, algo que se haveria de verificar na segunda etapa da tour de “Blizzard of Ozz”.

Regressados a Londres, começaram a compor nos estúdios Jumbo o que viria a ser “Diary of a Madman”. Mas, novamente, os antagonismos vieram ao de cima, desta vez por motivos económicos, porque tinha ficado acordado verbalmente que Ozzy receberia 50% dos royalties e os outros 50% seriam distribuídos pelos três músicos. No entanto, e já a meio caminho das sessões do novo álbum, o acordo ainda não estava assinado, provocando desconfiança por parte de Daisley e Kerslake. Ainda assim, em Fevereiro de 1981, a banda seguiu para as sessões de gravação nos estúdios Ridge Farm com a promessa de Don Arden que os contratos iriam chegar no final do processo de gravação de “Diary of a Madman”. Porém, já em Março, quando o álbum se encontrava em processo de mistura e numa altura em que “Blizzard of Ozz” também já tinha sido editado nos EUA, Kerslake recebe da sua mulher as notícias que há muito se avizinhavam: ele e Daisley estavam fora da banda, significando que já não iriam fazer parte da tour americana. Foi a partir desse momento que começaram as acusações e disputas de dinheiro em tribunal que ainda hoje se mantêm, com Daisley a referir que ele e Kerslake foram despedidos não por Ozzy mas por Sharon, por desafiarem e questionarem muitas vezes a sua autoridade perante certas decisões. A manager defendeu-se ao referir que tanto Daisley como Kerslake representavam um problema para a banda, porque estavam sempre em constante conflito devido a repartições de dinheiro.

Randy Rhoads, apesar de não estar directamente envolvido nestas divergências, sentiu-se igualmente lesado e esteve também para abandonar por vontade própria, justificando que a química que existia na banda iria assim desaparecer. No entanto, foi Kerslake que, com a sua postura fria, conseguiu persuadir Rhoads a manter-se no grupo, explicando que o sucesso do guitarrista ainda estava para vir.

Foto: Mark Weiss

Conflitos à parte, Ozzy Osbourne tinha já agendado em menos de um mês uma tour pelos EUA. Com uma secção rítmica renovada, que possivelmente já vinha a ser preparada há alguns meses por Sharon, Ozzy apresentou-se pela primeira vez como artista a solo no dia 22 de Abril de 1981 no Towson Center, em Maryland. Na bateria encontrava-se o possante americano Tommy Aldridge, que há muito que se encontrava no radar de Sharon, e no baixo apresentava-se um experiente cubano de seu nome Rudy Sarzo, que tinha sido colega de Rhoads nos Quiet Riot em finais dos 70s. Esta seria a formação clássica que iria consagrar o projecto a solo de Ozzy Osbourne como um dos nomes mais respeitados no heavy metal.

Passadas décadas, “Blizzard of Ozz” continua a representar um marco na história da música pesada. Com mais de cinco milhões de cópias vendidas só nos EUA, Ozzy Osbourne proporcionou um dos maiores e mais bem-sucedidos regressos da história da música. Com uma nova estética conseguiu afastar-se da sonoridade mais carregada e negra dos Black Sabbath, passando a demonstrar uma musicalidade mais requintada e até nos atrevemos a dizer mais comercial, isto porque “Blizzard of Ozz” apresentou-se como o ponto de partida para uma década em que o heavy metal ascenderia ao topo das tabelas musicais. No entanto, nada disto teria sido possível sem o contributo do malogrado Randy Rhoads, para muitos o melhor guitarrista do mundo ou o mais inovador ao lado de nomes como Jimi Hendrix e EVH, que, com o seu estilo de tocar efervescente, tanto ia beber a influências clássicas como a nomes contemporâneos que iam desde Ritchie Blackmore a Michael Schencker. Foi também Rhoads quem levou a técnica virtuosa do shredding para outros patamares ao desafiar as leis da velocidade, acabando por influenciar nomes como Zakk Wylde ou Dimebag Darell a fazerem o mesmo. No entanto, e por mais sucesso que o álbum tenha obtido, o seu legado continua a estar manchado devido às disputas judiciais que opõem Daisley e Kerslake a Ozzy e Sharon, algo que começou logo em 1981 aquando do lançamento de “Diary of a Madman”, porque Sharon optou por retirar o nome dos dois músicos dos créditos do álbum, tendo colocado no seu lugar os nomes de Sarzo e Aldridge.

Mais tarde, no relançamento de “Blizzard of Ozz” em 2002, as gravações originais do baixo e bateria foram trocadas por faixas gravadas por Robert Trujillo e Mike Bordin, respectivamente, tendo Sharon dito publicamente que esta decisão foi feita em jeito de provocação. Como se isto não bastasse, foi ainda necessário que Lee Kerslake viesse a público, em 2019, dizer que sofria de um cancro que lhe perspectivava menos de oito meses de vida para o baterista receber os tão merecidos discos de platina como forma de reconhecimento de todo o seu trabalho ao serviço de “Blizzard of Ozz” e “Diary of a Madman”. Lee Kerslake morreu a 19 de Setembro de 2020 com 73 anos.

Divergências à parte, os verdadeiros fãs têm bem presente o valor e a dedicação que tanto Bob Daisley como Lee Kerslake trouxeram para “Blizzard of Ozz”, e enquanto os seus álbuns continuarem a ser escutados serão sempre recordados como parte da história do heavy metal.