O imaginário clássico e orquestral sempre fascinou os metaleiros, talvez pela velocidade, pelo foco na composição instrumental, pela estética… onde o preto está inegavelmente... Orquestração dos tempos que se avizinham

O imaginário clássico e orquestral sempre fascinou os metaleiros, talvez pela velocidade, pelo foco na composição instrumental, pela estética… onde o preto está inegavelmente impregnado.

Não passaram muitas semanas desde o extremamente bem-sucedido “S&M2”, em que os Metallica tiveram de novo a oportunidade de misturar estes dois mundos – contrariamente ao que seria de esperar, dado que até há muito pouco tempo a posição oficial era de que o projecto original “S&M”, de 1999, teria sido um acontecimento único e que não havia planos para o repetir ou expandir!
Chegamos então a 2019, com a inauguração do Chase Center, um edifício luxuoso em que impera a excelência da qualidade de som, em plena downtown de São Francisco e com vista para a Bay Area onde o movimento thrash dos anos 1980 germinou tão fertilmente – a fagulha que incendiou a mente de Lars Ulrich, que foi mais uma vez forçado a dar o dito por não dito. Para os habitantes de São Francisco, a importância do Chase Center é extremamente grande, e algo que vinha sendo reivindicado há anos pela cidade e também pelas zonas vizinhas. Para celebrar este marco, foi contratada uma equipa que traçou um plano extremamente ambicioso de espectáculos especiais com os artistas mais relevantes da actualidade, com o objectivo de criar momentos únicos e irrepetíveis, para sempre associados à inauguração.

Lars não teve grande alternativa senão sorrir e acrescentar a sua banda à enorme lista de artistas que se disponibilizaram para o evento, mas a organização tinha uma carta na manga e aproveitou este ano para marcar o 20º aniversário do concerto “S&M” original com a Sinfonia de São Francisco, apresentando um desafio inesperado: um par de concertos, uma nova orquestração, um novo espectáculo ao vivo, moderno e mais imersivo…
A reacção inicial não foi positiva, dado que o maestro Michael Kamen, com quem a banda sempre se mostrou bastante satisfeita e com quem trabalhou incansavelmente para dar nova vida a clássicos como “The Call of Ktulu” ou “Nothing Else Matters”, havia falecido em 2003. Mas a insistência da organização – nomeadamente sobre as ideias para o espectáculo ao vivo, que utilizaria a já famosa disposição em que a banda estaria no centro da arena, desta feita com a orquestra e fãs a envolvê-la, sem qualquer recurso a barreiras e numa ligação directa: a honestidade e a comunhão levada ao extremo! – aliada ao nome de Bruce Coughlin (famoso compositor e orquestrador de musicais da Broadway em Nova Iorque, galardoado com bastantes honras desde o teatro até ao cinema), que também foi atirado para o tacho, tornou a proposta ainda mais apetitosa. Coughlin já havia demonstrado, em diversas ocasiões e em público, a sua paixão pela histórica banda da Bay Area, fazendo questão de sublinhar que iria honrar a orquestração original de Kamen.
O ponto final na discussão deverá ter sido a gigantesca operação de difusão internacional em massa, através de um evento especial em cinemas (que inicialmente chegou a ser proposto em directo), mas que se viria a materializar sob a forma filme, com projecção em cinemas por tempo limitado, cerca de um mês depois do evento original ter ocorrido, ou seja, já na próxima semana!

Metallica, “S&M” (1999)

As imagens e vídeo a que tivemos acesso dão conta de um concerto com níveis de imersão espectaculares, qualidade de som muito acima da média e uma selecção de músicas com bastantes surpresas. A orquestração de Coughlin revela-se mais intensa do que a de Kamen, um pouco também devido às características das músicas escolhidas, como em “The Day That Never Comes” em que as mudanças de dinâmica foram majestosamente elevadas pela orquestra – um exemplo excelente de como a orquestra pode ser utilizada de forma a acrescentar valor e emoção.

Parceria com uma orquestra é algo bastante comum nos dias que correm. E se no passado era extremamente dispendioso agendar tempo com uma orquestra para a preparação e execução de um espectáculo, a sua gravação elevava a níveis astronómicos o valor a desembolsar. Talvez por esse motivo, os exemplos mais remotos são apenas de bandas de maior dimensão, como Deep Purple e o seu “Concerto for Group and Orchestra” de 1969. Hoje em dia as colaborações são muito mais populares e acessíveis, com a massificação da produção de arranjos orquestrais para os meios audiovisuais (televisão, cinema, rádio, web, videojogos) a sustentarem o aparecimento de inúmeros compositores que anteriormente não conseguiam escoar as suas composições de uma forma sustentada e proveitosa. Este desenvolvimento e profissionalização de todo o processo associado à orquestração, do aumento dos níveis de qualidade e da explosão da cena sinfónica da Europa de Leste, levou a uma democratização do acesso por parte das bandas a este antigamente luxuoso e dispendioso recurso.

Recentes lançamentos, como Sons of Apollo e o seu “Live with the Plovdiv Psychotic Symphony”, são um excelente exemplo de como o universo do metal está bem servido no que toca a composição e arranjos, revelando-se bastante acutilante a parceria entre Derek Sherinian e Enrico Cacace, o conhecido compositor italiano que tem vindo a dar cartas na cena audiovisual internacional, tanto a nível de televisão como de cinema. Canções como “Lost in Oblivion” e “Coming Home” ficaram ainda mais intensas, mas a músicas mais complexas e multifacetadas, como “Labyrinth”, permitiram a Mike Portnoy & Cia. acrescentar toda uma camada de sabor, que potencia as secções mais lentas e elevam os momentos de solo de Bumblefoot, Sheehan e do próprio Sherinian. A mistura final acaba por não ser muito favorável à orquestra, sequestrando a banda, para si, o foco da performance. Esta cidade búlgara não é estranha a bandas de metal, pois já em 2015 os suecos Opeth haviam gravado um espectáculo no mesmo anfiteatro romano, desta feita recorrendo à Orquestra de Estado da Ópera de Plovdiv e ao coro Rodna Pesen. A orquestração ficou nas mãos de LevonManukyan, famoso por ter composto o primeiro metal-ballet da história, e que acumulou funções de maestro durante a execução. Tal como no álbum de Sons of Apollo, a mistura não favorece muito a orquestra, mas desta feita, e em contraste absoluto com o trabalho de Cacace, pode-se dizer que a orquestração é pobre, inconsequente, uma verdadeira desilusão, dado que na obra da banda sueca, o que não faltam são composições que gritam por um arranjo orquestral majestoso. Talvez a banda e a editora se tenham apercebido disto e optado por não lançar este álbum de uma forma comercial, sendo apenas incluído como CD-bónus da revista Prog, juntamente com uma faixa dos seus vizinhos Enslaved, da Noruega – um lançamento algo modesto, discreto e, de certa forma, inglório…

Estas parcerias com orquestra são geralmente mais bem-conseguidas quando estamos na presença de bandas de metal sinfónico, que têm já de base a preocupação de conceber as canções com as orquestrações sinfónicas como parte integrante e papel de relevo. Em 1998, Yngwie Malmsteen revisita as suas raízes, socorrendo-se da sua instrução clássica e, juntamente com o seu amigo David Rosenthal, escreve “Concerto Suite for Electric Guitar and Orchestra in E Flat Minor Op. 1”, um álbum pioneiro no género, que pela primeira vez foi composto exclusivamente por temas escritos especialmente para tirar partido da orquestra, ao contrário do que até então havia sido levado a cabo por outros artistas que apenas criavam arranjos para as suas composições existentes. O objectivo deste opus era a glorificação da guitarra eléctrica, servindo-se de uma orquestra – neste caso a Filarmonia Checa – e permitiu ao ás sueco manter os custos em níveis aceitáveis (quando comparados com os das orquestras mais famosas do mundo). O sucesso desta iniciativa foi tremendo e colocou-o no mapa do crossover clássico, que o abraçou de forma surpreendente. Apesar de inúmeras requisições ao longo dos anos, Malmsteen apenas o executou ao vivo numa ocasião, quatro anos mais tarde, em Tóquio, com a Orquestra Filarmónica Novo Japão.

Por esta altura, já todo o movimento do metal sinfónico estava bastante desenvolvido, com bandas como Nightwish e Therion a liderarem o pelotão. Nesse mesmo ano, os suecos Therion serviam-se pela primeira vez de músicos de orquestra e lançavam “Vovin”, ao passo que os finlandeses Nightwish apenas alguns anos mais tarde (2002), com “Century Child”, incorporaram um conjunto orquestral, não obstante já terem usado músicos de orquestra, de uma forma isolada, em lançamentos anteriores. Mas simultaneamente, em 1998, era editado “Nightfal in Middle-Earth” que cimentava os germânicos Blind Guardian como uma força inegável na cena do metal sinfónico, e cujas versões orquestrais de algumas das suas canções recolhem elogios e respeito por parte da cena sinfónica, mesmo fora do metal.
Talvez não fosse mal pensado se Opeth abordasse esta equipa com provas dadas para a sua próxima incursão ao mundo orquestral… Principalmente agora que estamos a um mês do lançamento sinfónico mais aguardado dos últimos anos: “The Legacy of the Dark Lands”, dos Blind Guardian, promete níveis de opulência sinfónica nunca antes alcançados por Hansi Kürsch e André Olbrich, dado que todo o projecto foi concebido de raiz para tirar partido de uma orquestra, e conceptualmente explora as ideias materializadas por Markus Heitz, conhecido autor alemão, em “Die Dunklen Lande” editado em Março de 2019, onde são retratados os eventos que precedem a história que será apresentada neste novo e ambicioso trabalho, que foi preparado sem pressas e em que todos os pormenores foram acautelados, desde os locais e as ambiências neles captadas, aos carismáticos narradores britânicos, que regressam mais poderosos do que nunca, 20 anos depois de “Nightfall in Middle-Earth” – seguramente a não perder!

Por todas estas razões, está na hora de engalanar e vestir o fraque do metal, pois os tempos que se avizinham trazem atmosferas clássicas que nos vão deixar completamente saciados!