O público é predominantemente masculino, bem como os seus artistas. No seu fashion sense imperam as calças de ganga justas e... [Opinião] Turbo Haters

O público é predominantemente masculino, bem como os seus artistas. No seu fashion sense imperam as calças de ganga justas e cabedal, e no evento é comum vislumbrar homens suados agarrados uns aos outros. Podia ser uma cena retirada do “Variações”, mas não, é mesmo um concerto de metal. O metal, quando quer, consegue ser bastante gay. Mas será gay-friendly?

Escrevo após uma situação de cativeiro questionável, considerando que estive preso numa carrinha com quatro vibrantes machos naquela que foi a primeira incursão dos Moonshade por terras estrangeiras, que por sua vez penetrou a fronteira espanhola com o máximo vigor lusitano na excelsa companhia dos Apotheus. Após esta informação dramática, tenho a partilhar convosco que, felizmente, a minha experiência de mais de uma década com a cena metal portuguesa diz-me que somos um grupo geralmente bem-disposto e liberal que valoriza a liberdade individual acima de todas as coisas, como deve ser. Provas disso a nível global são, óbvia e infelizmente, a existência de alguns abortos ideológicos como o metal cristão e o NSBM, em que pessoas usam música subversiva para apoiar sistemas que na sua génese são antissubversão. Outra prova importante é a aceitação pública de alguns dos grandes nomes do género apesar de as suas tendências sexuais serem de conhecimento geral – Rob Halford, Gaahl, Paul Masvidal, Manowar, entre outros. Portanto peço às princesas que se acalmem, este não é um artigo escrito com o intuito de dizer que somos todos uns homofóbicos nojentos, porque não creio que sejamos. Só nojentos, às vezes, quando calha, mas no melhor dos sentidos.

No entanto, uma rápida busca pelos entrefolhos enfermos das redes sociais indica que a comunidade não é propriamente alheia à homofobia. Recentemente, tive o desprazer de testemunhar várias tiradas homofóbicas originadas por um post sobre a imensamente talentosa Simone Simons (Epica) ter ousado declarar publicamente o seu apoio à causa LGBTQ+ ao brandir uma bandeira. Apesar da oposição a esta demonstração de civismo básico ser no mínimo lamentável, não deixa de ser algo perfeitamente normal e expectável, tendo em conta que seria estatisticamente impossível não existirem grunhos na grande família disfuncional que é a fan-base de música extrema. As razões que motivam estes protestos são muitas, estando firmemente assentes na masculinidade frágil e na masculinidade tóxica. E agora que afugentei todos os metaleiros de direita com estes dois termos, está na hora de iniciar a revolução. Atacamos de madrugada, camaradas.

Obviamente, estou a brincar (a não ser que alinhem). No entanto, há uma razão pela qual distingo masculinidade frágil de masculinidade tóxica. A masculinidade frágil envolve principalmente aqueles que sentem que a sua alegada heterossexualidade é ameaçada por qualquer tipo de reconhecimento de diferentes orientações sexuais, ou qualquer comportamento minimamente desviado do que é entendido como “de macho”. Não sou psicólogo, mas acredito que muitos afoguem as suas mágoas no mundo ultra-masculino do metal como forma de sonegar certas, digamos, “dúvidas”. Talvez seja daí que surgem muitos sentimentos de carácter discriminatório. Não sendo psicólogo, e no fundo estando-me plenamente a cagar para a paz espiritual desta gente, só consigo reunir humanidade suficiente para lhes recomendar que procurem um profissional que os convença que essas comichões que volta e meia lhes atacam o epicentro provavelmente não são nada, e que mesmo que sejam não tem mal nenhum – afinal, se ninguém queria saber deles antes, não é por um armário a menos que isso vai mudar. As suas pobres parceiras enganadas podem ficar ligeiramente chateadas, mas é da maneira que os deixam com o intuito de procurar aquelas coisas que nunca tiveram, tipo uma conversa intelectual ou um orgasmo.

Longe de mim cair no cliché de dizer que todos os homofóbicos são inseguros. Aliás, alguns deles aparentam ser algumas das pessoas mais seguras que conheço, sendo que aí entra a questão da masculinidade tóxica. Basicamente, certas pessoas foram criadas com ideais conservadores sobre como um homem e uma mulher devem ser, e, por alguma razão aderiram ao género musical mais anárquico que existe para o conspurcar com os seus ideais primariamente originários de preconceitos cristãos, sendo demasiado agarrados à mentalidade quadrada dos nossos antepassados para realmente largarem o conservadorismo. Porquê? Só deus sabe. Estou a brincar, deus não existe, deixem de ser maricas.

Finalizando esta tríade algo trissómica, entra a questão da ignorância científica sobre o que é “natural”. Na minha parca experiência enquanto doutorando na área da biologia, longe de mim desmentir aquele gajo com o 12º ano tirado à noite que trabalha Remax e ouve Pantera nas horas vagas, mas deixem-me só tentar acrescentar dois factos simples à discussão. Em primeiro lugar, a homossexualidade foi observada em mais de 1500 espécies de animais, inclusive os bonobos (Pan paniscus), os nossos parentes biológicos mais próximos. Em segundo lugar, vocês leram isto através de um complexo sistema de satélites, que enviaram esta informação do espaço para essa caixa mágica que vos dá acesso a toda a informação do mundo e que é usada principalmente para ver fotos de gatos e pornografia. Em suma, a homossexualidade é natural, mas não interessa se é natural ou não, porque muito poucos comportamentos da nossa espécie realmente podem ser considerados “naturais”, seguindo a mesma definição completamente arbitrária dos críticos. Mas posso estar errado, quiçá tenha faltado à aula onde se falou sobre o hábito das araras escreverem em blogs de cozinha macrobiótica, e como tal a minha definição do que é “natural” esteja errada.

Tendo em conta que somos uma fan-base bastante liberal e não-conformista, penso que a comunidade tem o potencial necessário para que os nossos membros menos sapiens deixem de ser ovelhas de tendências conservadoras e aprendam a redirecionar a sua belíssima intolerância para alvos que realmente a mereçam. Mas isto só vai acontecer se realmente confrontarmos a ignorância alheia sem medo daquilo que podem pensar sobre nós. Se eu acho que somos predominantemente homofóbicos? Não. Mas o pouco que somos, não nos fica bem. Cheira a ovelha.