Os Opeth estão de volta com “In Cauda Venenum”, o 13º álbum dos gigantes suecos do metal/rock progressivo. Para falar deste novo trabalho, que continua... Opeth: prog, shred e macacos (entrevista c/ Fredrik Åkesson)

Os Opeth estão de volta com “In Cauda Venenum”, o 13º álbum dos gigantes suecos do metal/rock progressivo. Para falar deste novo trabalho, que continua na veia criativa dos três anteriores lançamentos da banda, sentámo-nos recentemente com o guitarrista Fredrik Åkesson e aproveitámos para falar de tudo, desde o processo de gravação, influências que se repercutiram no novo disco, a dualidade entre as versões em sueco e em inglês, pormenores sobre a gravação de algumas músicas, dicas para guitarristas, macacos, telemóveis e ataques de sonambulismo!

Foto: Jonas Åkerlund

«Acho que é um disco que precisa de um contexto de solidão para o digerir. (…) Vai ter uma vida longa porque é bem intrincado e complexo.»

Conta-nos o que se passa no mundo dos Opeth neste momento!
Acabámos a época dos festivais. Tocámos agora no Festival Psycho Vegas, nos Estados Unidos, e fizemos uns 30 ou 40 festivais desde Maio. Antes disso tivemos um período de descanso e agora temos também dois meses afastados dos palcos antes da digressão do novo disco começar no Reino Unido. Estamos a preparar tudo, a pensar nos setlists, a discutir alguns aspectos da produção de luzes… Vamos mudar tudo um pouco! É como se nos estivéssemos a preparar para a batalha!

Falando do vosso novo disco, embora haja alguns momentos mais heavy, “In Cauda Venenum” soa a um disco mais calmo, melódico, de contornos orquestrais e com várias passagens acústicas. O que é que influenciou os Opeth a seguirem esta direcção? Foi uma decisão consciente de algo que queriam fazer ou dirias que foi um reflexo do estado emocional do Mikael durante o processo de escrita?
Penso que, de certa forma, acabou por ser um reflexo do estado emocional dele, uma vez que ele esteve bastante isolado durante a escrita deste álbum, mas eu estou mais ligado ao heavy! Acho que é sempre importante termos uma boa porção de material heavy e, pessoalmente até, acho que este álbum tem mais momentos pesados do que o anterior. Especialmente em músicas como a “Charlatan”, “Heart in Hand”, a primeira música “Dignity”, a “Next of Kin”… Há momentos pesados, mas por vezes também há arranjos orquestrais e momentos épicos a acontecerem, o que me fez dizer muitas vezes: ‘Podem aumentar o volume da guitarra e baixar o da orquestra?’ [risos] Existem sempre algumas discussões quando chega a parte de misturar o disco, mas quando ensaiámos o álbum, ele soou-me bastante pesado em partes, embora também tenhas partes muito calmas. Geralmente, quando tocamos músicas dos discos mais recentes ao vivo, elas soam mais pesadas nesse contexto do que no álbum… Estão sempre mais orientadas para as guitarras ao vivo, mas acho que músicas como a “Heart in Hand” demonstram que este disco tem, de certa forma, um pouco mais de escuridão do que o “Sorceress” tinha…

E de onde veio a ideia de gravar duas versões do álbum cantadas em inglês e sueco?
O disco foi escrito em sueco. A gravação da versão inglesa foi feita no estúdio, mas as demos foram todas gravadas em sueco. Tentamos sempre fazer algo diferente, e uma das coisas que inspirou o Mikael a escrever o disco foi o facto de ser escrito em sueco, que foi um desafio para ele. A primeira vez que ouvi falar desta ideia pensei que poderia vir a ser um pouco estranho, mas quando depois ouvi a décima faixa, “All Things Will Pass”, não achei que ficasse tão estranho quanto isso. Até funcionou muito bem, e o Mikael disse-me que era muito mais desafiante escrever as letras em sueco! Ele teve de aprofundar e explorar muito bem o contexto de cada música e isto acabou por ser uma das principais motivações para este disco acontecer. Um desafio que despertou interesse no Mikael!

Que músicas achas que funcionam melhor cantadas em inglês e em sueco?
Diria que a balada “Next of Kin” funciona melhor em sueco. Uma música com palavras diferentes na melodia vocal. O refrão funciona melhor em sueco para mim, mas fora esta, acho que estou muito contente com ambas as versões do disco! Também gravámos três músicas bónus para este disco e uma dessas músicas funciona definitivamente melhor em inglês do que em sueco. A versão sueca foi a que ouvimos sempre durante a fase das demos e, por isso, posso dizer que estou mais habituado a essa versão.

Algo em que reparei quando ouvi ambas as versões é que as linhas vocais estão extremamente bem escritas e achei incrível a forma como o Mikael foi capaz de adaptar as palavras em inglês, de forma perfeita a todos os fraseamentos vocais que ele escreveu para cada música. Acham que vão voltar a gravar em duas línguas no futuro ou foi apenas uma experiência única para este disco?
Acho que é capaz de vir a ser um one-off que fizemos em sueco. Não tenho a certeza e ainda não discutimos isso, mas acho que foi algo especial apenas para este álbum. No entanto, como mencionaste, tivemos sorte na tradução directa e não foi preciso alterar muito as letras. Foi fácil adaptar a maior parte do material para Inglês, à excepção, claro, de algumas partes, mas a versão inglesa acabou por resultar muito bem. Está muito próxima da versão sueca no que diz respeito ao significado das letras. 

Também achei o mesmo… Vocês vão tocar as versões inglesas para outras audiências, mas quando estiverem a tocar no vosso país vão tocar as versões em sueco, certo?
Sim, acho que sim! As versões suecas vão ser tocadas na Dinamarca, Noruega e Suécia. Já dei muitas entrevistas até agora e muitos dos jornalistas que não falam sueco, estranhamente preferem as versões suecas! [risos] Talvez não estejam a ouvir as letras, mas o fraseamento vocal. É como ouvir Eros Ramazzoti. Ninguém percebe o que ele está para ali a cantar… É um fenómeno semelhante!

O vosso primeiro single, “Heart in Hand”, é uma faixa intrincada e bastante complexa com um solo de guitarra incrível. Qual foi a tua inspiração para esse solo?
De facto, foi improvisado! Eu sabia que queria começar o solo com algo que tivesse uma sonoridade maléfica, com tons dissonantes, e o objectivo era tocar um solo agressivo. O final é muito shreddy, eu sei, mas é um pequeno lick de guitarra que já tinha comigo há muito tempo e que nunca tinha usado num disco de Opeth. O solo foi improvisado e depois tive de o reaprender. Elaborei um pouco mais este solo quando gravámos o disco; mas obrigado, estou contente que tenhas gostado! Só tento fazer algo que faça o pessoal mexer-se, que soe agressivo e também um pouco over-the-top, mas num bom sentido!

A “Charlatan” é uma das músicas mais pesadas do disco e tem algumas linhas de teclado muito fora do habitual. Usaram guitarras de sete cordas para gravar esta música? 
Essa é uma boa pergunta, porque esta música é muito interessante! De facto, não existem guitarras nesta música. Eu e o Mikael estamos a tocar baixo de lead enquanto o Martin Mendez está a tocar baixo regular, por assim dizer. Tocámos com baixos de quatro cordas em afinação standard, um no canal esquerdo e outro no direito. É como um baixo de tenor mas estamos a tocar através de um amplificador de guitarra com montes de distorção e uma coluna Marshall de 4×12. Estamos a usar o mesmo som que usámos para as guitarras de ritmo mais pesadas, mas em vez de guitarras usámos o baixo! Tenho um pedal fuzz phase que usei também para tornar o som mais áspero em algumas partes desta música, mas não tem guitarras absolutamente nenhumas. Três baixos e mais nada! Nunca fizemos isto antes e foi uma ideia bem fixe, por isso se tivermos de tocar esta música ao vivo vamos ter de trazer dois baixos extra, com montes de distorção!

O que fizeram nesta música lembra-me a “Big Bottom” dos Spinal Tap… Eles também tocaram com três baixos nessa música…
Não sabia disso! [risos]

O mais engraçado é que a música tinha um riff muito simples, tipo três ou quatro notas, e eles usavam três baixos para tocá-la…
Isso é altamente! [risos] Nunca tinha pensado nisso! Mas foi fixe trabalhar nesta música, foi uma abordagem diferente! A razão pela qual escolhemos gravar a música assim foi o facto de o Mikael insistir que a música não soasse a nu-metal ou djent ou qualquer coisa do género… Tivemos algum medo de sermos rotulados nesses estilos!

Não acho que soe a nu-metal de todo…
Não, eu também acho que não, mas foi uma ideia porreira tocá-la com baixos porque fez a música soar mais pesada, obscura e brutal do que teria ficado com guitarras de sete cordas…

Outra música que me chamou a atenção foi a “The Garroter”, que acho que é capaz de ser a composição mais diferente do vosso estilo habitual que alguma vez ouvi num disco de Opeth. Parece uma faixa de dark-jazz. De onde veio a inspiração para esta música?
Sim, é muito obscura e bem jazzy, com um som assombroso! O Mikael andava a ouvir uma banda chamada Renaissance quando compôs este álbum. O disco que ele andava a ouvir era o “A Song For All Seasons”, que eu por acaso também tenho aqui em vinil! É de 1979. Progressivo, épico e bem pesado! Tem uma capa muito aborrecida de uma senhora com um chapéu e parece uma capa de um disco de pop. Uma capa bem feia de um disco de pop, mas ao menos a senhora tem bom aspecto! Tens de ouvir! É mesmo épico! Acho que foi uma das inspirações, mas não talvez para esta música. Acho que esta música começou com uma linha de baixo na qual foi baseada e depois o resto fluiu a partir daí. Foi uma música em que eu e o Mikael trabalhámos juntos durante algum tempo, porque eu estava a tentar aprender um pouco mais sobre bebop jazz nesta altura. Estava a tentar evoluir na minha forma de tocar e às vezes é interessante aprender alguns estilos diferentes e incorporá-los no rock e no metal que tocamos. O Mikael pediu-me ajuda em alguns acordes, algumas linhas de jazz e sou eu quem toca essas passagens com um velho amplificador Maestro do final dos anos 1950 e com uma Gibson 335 acústica. É uma abordagem diferente com muitos momentos fixes, mas não te conseguiria dizer uma música a partir da qual esta faixa tenha sido directamente inspirada. A gravação foi muito rápida, mas para mim… tentar tocar estes licks de bebop jazz foi diferente de qualquer outra coisa que eu tenha feito até ao momento nos Opeth, e nunca toquei assim antes. Tentei tocar algo que se adequasse à música, e para esta usámos um kit de bateria diferente. O Axe [Martin Axenrot] tocou com um Slingerland e com escovas, e dedicámos muito tempo a alternar o nosso setup de bateria e baixo para esta música, para tentarmos obter um feeling mais vintage! Não usámos os amplificadores aos quais recorremos normalmente. Foi tudo com equipamento diferente, e o facto de o Dave Stewart ter composto um arranjo orquestral adicionou muito à música. Os arranjos orquestrais foram muito importantes para a atmosfera desta música…

Sim, nota-se que essa música tem muitas camadas diferentes e uma certa profundidade a nível de composição. Para além da “The Garroter”, que outra música constituiu um desafio para ti e para a banda no geral? 
A coisa boa com este disco é que ensaiámos com toda a banda duas semanas antes de gravarmos, algo que já não fazíamos desde o “Watershed”. Acabou por ser tempo bem investido porque acabámos por ter todas as partes das músicas memorizadas nas nossas memórias musculares! Ninguém perguntou ‘como é que é aquela parte? Podes-me mostrar outra vez?’, ou algo do género. À conta disto pudemo-nos concentrar em testes A/B com muito equipamento. Demos o litro com a produção deste disco, mas acho que em termos de dificuldade, todas as músicas estavam bastante niveladas. Às vezes tinhas um riff mais tramado ou mais rápido, mas, desde que o tenhas aprendido, acaba por não ser muito difícil quando já o tens na tua memória muscular. Podes ter a tendência a pensar que as partes mais rápidas são as mais complicadas, mas o baixo na “Charlatan” é como um solo enorme. Essa música foi bem tramada, posso dizer! Foi tramada de aprender. Mas para mim, a música em que passei mais tempo a tentar obter a vibe certa para solo foi na balada [“Next of Kin”]. Todos os solos foram rápidos de gravar. Acho que gravei os solos todos em oito horas de sessão, mas, neste caso, o solo foi muito emotivo. Quis ir por uma abordagem mais à Gary Moore e tocá-lo de uma forma delicada. Foram precisos alguns takes para conseguir esta vibe, mas eu queria mesmo que o solo tivesse uma certa magia… Também tive alguma pressão por parte do Mikael porque antes de gravar esse solo e as demos, ele disse-me: ‘Quero que toques um solo aqui pelo qual sejas lembrado depois de morreres!’ E eu… ‘Ok, obrigadinho pela pressão!’

Queria mudar de assunto agora. Li recentemente que o Mikael está a ter problemas em estar na estrada, uma vez que ele sente que estar afastado de casa está a ser cada vez mais difícil à medida que os anos passam. Sentes-te da mesma forma? Como é que lidas com a vida na estrada? 
Ainda gosto bastante desta vida! Gosto especialmente quando estamos para fazer uma tour como cabeças-de-cartaz e tocamos as novas músicas, e também como depois de cinco ou seis músicas tudo começa a rolar e consegues sentir que a banda está mesmo em forma, toda a gente toca bem em conjunto e está tudo a clicar! Adoro esta sensação, e para mim, claro que é difícil estar longe da família quando tens 46 anos, mas agora também só nos ausentamos por três semanas e temos intervalos para descanso entre digressões, o que é um luxo para nós porque às vezes tens de andar na estrada durante sete semanas, como costumávamos fazer nos Estados Unidos para que tudo batesse certo a nível financeiro! É muito caro ir em digressão. Tens de ter lucro porque senão não consegues ganhar a tua vida com isto. No entanto, acabámos agora a época dos festivais, demos 30 concertos e acho que a banda está a tocar melhor do que nunca. Estamos mais focados e cada um de nós tenta evoluir no que fazemos entre os intervalos das digressões e dos discos, e acho que isso faz muita diferença quando tocamos todos juntos. Adoro estar em digressão, sabes? Detesto as viagens mas isso já não é novidade… O mesmo velho queixume de todos músicos… Por exemplo, este Verão tocámos na Roménia e na Transilvânia, o que foi espectacular, mas o facto de a viagem nos ter levado 22 horas da Suécia até lá, e não é assim tão longe… Quer dizer, é mais fácil ir até Las Vegas e isto mata-te! Mas ainda consegue ser incrível quando as pessoas gostam mesmo da tua música! Tens todo o feedback do público e é sempre algo especial. No entanto, falando do Mikael outra vez, acho que ele está feliz. Quando saímos do palco, ele continua a estar feliz. Não está deprimido nem nada do género. O meu objectivo é rockar até cair para o lado. Isso é o que vou continuar a fazer!

Mas à luz do que o Mikael deu a entender, achas que os Opeth vão passar a dar menos concertos no futuro ou vão manter-se neste ritmo nos próximos anos?
Acho que vamos manter este ritmo. Agora estamos a planear tocar muito ao vivo para promover este álbum, e temos de o fazer porque é o que nos mete o pão na mesa. Se queremos continuar, temos de ser capazes, mas ainda adoramos o que fazemos! Também vamos tentar melhorar a produção nestes próximos concertos. Acho que no caso do Mikael, ele precisa de se focar num álbum de cada vez. Se começarmos a pensar já no que vamos fazer a seguir nesta fase, ele vai começar a ficar stressado! Ele não tem um plano de cinco anos para o que vai fazer a seguir. As coisas não funcionam bem assim. Ele é um artista… É uma pessoa artística e acho que ele precisa de estar focado no que estamos a fazer neste momento. Vamos ver o que acontece no próximo disco, mas acho que vamos continuar! Damo-nos todos bem, não há lutas nem problemas entre nós durante as digressões… Ainda nos divertimos com isto tudo e isso é bastante importante para a continuação da banda!

«Estamos a planear tocar muito ao vivo para promover este álbum, e temos de o fazer porque é o que nos mete o pão na mesa.»

Agora à parte, podes dizer-nos quais são os teus cinco discos favoritos de metal? Aqueles discos que te influenciaram…
Heavy metal? Cinco discos? Diria os grandes clássicos do hard-rock… Um dos meus favoritos é o “Long Live Rock N’ Roll” dos Rainbow. Tem a “Gates of Babylon” e todos aqueles épicos que adoro! Também cresci a ouvir a New Wave Of British Heavy Metal, com bandas como Iron Maiden e Judas Priest. De Judas Priest, diria o “Sad Wings Of Destiny” ou aquele que é possivelmente o primeiro disco de metal a sério: “Stained Class”. É capaz de ser o primeiro álbum de metal da história! O “Sabbath Bloody Sabbath”, de Black Sabbath, também é outro disco incrível para mim, e se falarmos dos Scorpions… Os Scorpions com o Uli Jon Roth; sou um grande fã dessa fase, mas do Michael Schenker [ex-guitarrista de Scorpions], diria o primeiro disco do Michael Schenker Group com o Simon Phillips, aquele que tem a “Into the Arena”, a “Armed and Ready” e especialmente a “Lost Horizons”, que é uma música num estilo bem doom! Fantástica! Por último, diria o “Don’t Break The Oath” de Mercyful Fate. Outro clássico!

O que é que fazes para ires mantendo a destreza nos teus dedos e como é que te vês como guitarrista daqui a 20 anos? Ainda te vês a tocar os teus solos no estilo rápido em que costumas tocar? Tens o exemplo, como mencionaste, do Uli Jon Roth, que ainda consegue tocar a alta velocidade com 64 anos de idade…
Esse é o objectivo! Agora que tenho mais de 40 anos é importante ir ao ginásio. Agora costumo correr bastante e tomo bem conta de mim. Já não bebo tanto como costumava e acho que isto é importante para responder à tua pergunta, porque para manteres as tuas habilidades tens de ser uma pessoa saudável. Eu conheço o Uli Jon Roth. Eu sei, por exemplo, que ele não bebe. Provavelmente é uma pessoa bem saudável. Deve fazer yoga e coisas do género… Acho que não vou tão longe, mas reconheço que é importante para não teres problemas musculares. Tens de te manter em forma, fazer muito exercício e comer de forma saudável, e acho que tudo isto ajuda. Acima de tudo, tens de estar sempre a treinar. É como se fosses um atleta. O que eu faço é… Tento tocar todos os dias, toco umas horas e costumo tocar algumas peças antigas do Paganini que aprendi quando era mais novo, e que são tramadas de tocar! Muitos saltos entre intervalos de notas. Outra coisa que faço é começar a tocar muito devagar e vou aquecendo, e faço isto antes de um concerto durante muito tempo. Assim fico muito mais relaxado e é mais fácil tocar o material mais rápido, porque assim não ficas enferrujado. Isso pode ser perigoso para os teus dedos. Não quero ficar preguiçoso à medida que vou envelhecendo. Conseguir aumentar a intensidade é o objectivo!

Mas mantendo sempre a velocidade, certo?
Sim! Tem de haver um balanço, sabes? No entanto, o mais importante é o que serve melhor a música.

Já estás com os Opeth há 13 anos. Para ti, quais foram os pontos altos de estar na banda nestes últimos 13 anos?
Existem vários! Tivemos muitos concertos espectaculares! O concerto que demos no Red Rocks foi muito impactante! Pensando bem, esta é uma pergunta difícil de responder… Podes falar de certos concertos… Tocámos em muitos sítios míticos, como o Radio City Music Hall em Nova Iorque. Tocámos na Casa da Ópera de Sydney, todas estas memórias… Estou orgulhoso delas. Também tocámos em sítios mais exóticos! Tocámos na selva, na Índia, há 10 anos, quando o Per [Wiberg] ainda estava na banda e foi num contexto mesmo fora!

E como foi a experiência de tocarem na Índia? É certamente um ambiente muito diferente…
Sim! Havia uma família de macacos mesmo ao pé da minha porta, quando saí do quarto do hotel! Estávamos a tocar num complexo para estudantes, era outdoor, e foi mesmo muito estranho! Havia uma empresa que vendia telefones, e eles disseram ao Mikael que iam fazer algo no final do nosso concerto para oferecer um telemóvel. Estavámos cansados, mas ainda assim o Mikael alinhou na brincadeira, só que quando acabou o concerto começaram a rebentar bombas de confetti por todo o lado e puseram uma música do tipo unch unch, e o Mikael ficou mesmo chateado. Em relação ao prémio, que era um telemóvel de uma empresa da qual não direi o nome, o Mikael deu o telemóvel ao gajo que nos levou de volta ao hotel no shuttle, mas eu fartei me de rir com isto tudo! Olhando para trás, foi uma cena engraçada, mas consigo perceber que ele estava mesmo chateado com a situação. Deixa-me contar outra história, quando tocámos em Atenas e estávamos num hotel mesmo ao lado da Acrópole… Tive um ataque de sonambulismo durante essa noite. Saí do meu quarto e estava completamente nu. Não foi uma experiência lá muito engraçada. Quer dizer… Agora é. Podes-te rir à vontade!

«Tive um ataque de sonambulismo. Saí do meu quarto e estava completamente nu. Não foi uma experiência lá muito engraçada. Quer dizer… Agora é.»

Mas alguém te conseguiu acordar e levar-te de volta ao teu quarto?
Acordei sozinho e tive sorte que não estava ninguém por perto, por isso desci as escadas e arranjei umas toalhas de papel para me tapar. A mulher da limpeza estava mesmo ao lado e passou-se quando me viu. Perguntei-lhe se dava para chamar alguém da recepção e veio um tipo que me deu um cartão novo e um robe para vestir. No fim tudo acabou por correr bem! Ao menos não tive de ir nu até à recepção, o que já não foi mau, mas foi um dos meus momentos menos dignos, pode dizer-se! 

Por último, como recomendarias o “In Cauda Venenum” aos fãs?
Ouçam o disco do início ao fim algumas vezes! Acho que é um disco que precisa de um contexto de solidão para o digerir. Há detalhes que vão experienciar em cada audição e espero que o disco cresça em todos os que o ouvirem. Acho que é um disco que vai ter uma vida longa porque é bem intrincado e complexo. No entanto, acima de tudo, espero que gostem!