Com excepção de algumas bandas, esteticamente o nu-metal não envelheceu bem para mim, talvez porque eu também envelheci. O mesmo vale para muitas bandas... [Opinião] “O cartaz está horrível” e outros choros

Com excepção de algumas bandas, esteticamente o nu-metal não envelheceu bem para mim, talvez porque eu também envelheci. O mesmo vale para muitas bandas de metal mais direccionadas aos jovens – ainda que volta e meia ouça uma ou outra, não são uma parte significativa da minha playlist. Compreensivelmente, como um homem perigosamente perto dos ‘intas, já não me identifico muito com a maioria destas maravilhosas pérolas porta-estandartes da angústia pre-teen. No entanto, mesmo tendo tempo livre ao ponto de fazer playlists, música e ocasionalmente escrever crónicas, evito destilar ódio em coisas em que eu não sou o público-alvo. Talvez seja por isso que tenho tempo livre.

Sempre que a estética de algum fenómeno cultural é particularmente marcante, há uma forte probabilidade de o mesmo não envelhecer bem, dependendo das modas culturais do futuro. Vai ser muito fácil daqui a uns anos o pessoal gozar com corpse-paint e as pulseiras com picos exageradamente grandes e falicamente compensatórios – coisa que já é, entre círculos mais jovens. Anos depois, outros cavaleiros do teclado poderão fazer piadas com aqueles que trocaram a maquilhagem e os picos por sacos na cabeça. Resumidamente, o que hoje é fixe, amanhã pode não ser, e o mesmo pode ser dito sobre muitas bandas com estética mais particular vindas dos saudosos anos 1980. Enquanto os Venom, que além de terem álbuns mal tocados e mal gravados, se vestiam como se tivessem tropeçado dentro de uma loja de Halloween, os Manowar desfilavam nas suas fabulosíssimas tangas de cabedal enquanto cantavam letras igualmente cringe sobre lutar pelo verdadeiro metal e sobre os wimps e posers saírem do hall, porque Odin nos livre de conviver com gente que não aprecia a subtileza de peitorais peludos cobertos em óleo Johnson’s. Nem sequer vou descer ao nível de implicar com as bandas de glam porque isso, tal como uma groupie toda cocaínada no tourbus de Mötley Crüe, é simplesmente demasiado fácil. Convido os meus manos metaleiros mais mesozóicos a porem a mãozinha na consciência relativamente a esta questão.

Se virmos as coisas no contexto da época e/ou público-alvo, e tentarmos entender a mensagem no contexto cultural, conseguimos apreciar mais facilmente um pouco de tudo. O nu-metal tinha maioritariamente um público-alvo: pessoas que viviam a sua adolescência na década de ‘00. E bandas novas como Bring Me The Horizon e Black Veil Brides possuem um público-alvo com a mesma faixa etária, mas de outra geração. Obviamente, os jovens não pensam da mesma maneira que os adultos, muito menos os jovens de há 20 anos, mas também precisam de música direccionada a eles. Como sempre, as bandas que sobreviveram e sobreviverão ao duro teste do tempo são e serão aquelas cuja estética, lírica e temática são mais abrangentes em termos de idades, como é o caso de System Of A Down ou Slipknot. No entanto, a ironia da situação passa pelo facto de as pessoas que choram sobre o metal estar a morrer serem os mesmos indivíduos que se baseiam em conceitos arbitrários do que é ou não é metal para fazerem os jovens sentirem-se mal-vindos à comunidade, ao hostilizarem as bandas que eles gostam e renunciarem qualquer inovação estética que não encaixe nesses mesmos padrões completamente aleatórios, com a desculpa de os “educar” em algo que é completamente subjectivo. Usarem todos o mesmo battlejacket com os mesmos patches é uma cena vossa, não imponham isso aos mais novos e deixem-nos desenvolver uma identidade. Aqueles que querem que o metal seja mais do que um museu agradecem.

Mudando um pouco de assunto, e no que toca à suposta falta de proficiência técnica destas bandas, aí os trve criticaleiros já entram numa miríade de contradições. Antes de mais, tocar rápido não é necessariamente tocar bem, nem traz necessariamente nada de inovador. Na mesma linha de pensamento, básico não é sinal de mau, senão teremos de descartar quase toda a música feita antes dos primeiros compositores clássicos, bem como a esmagadora maioria do que veio depois. Quanto ao metal, se só o que for rápido e técnico é bom, mais vale ignorarmos a diversidade e irmos todos tocar tech-death, porque segundo esse padrão tudo é inferior ao tech-death, a não ser que desenhemos uma linha completamente arbitrária no nível de complexidade e passemos a ver isso como dogma – se tiver mais de X acordes e um solo é bom, menos a banda X que tem menos acordes mas solos maiores, mas depois a banda Y tem desculpa porque é doom, logo têm de tocar lento, e por aí adiante através dessa toca de coelho que é a subjectividade estética. Quanto à suposta hecatombe dos anos 1980 que foi o groove, digamos que o mesmo é mais complexo do que aparenta, e é uma característica essencial para qualquer músico minimamente decente em qualquer género musical, ainda que façam mais ou menos uso dele nas suas composições. O groove também não é a antítese da técnica como muitos insistem em frasear, porque ter groove é parte da técnica. Na mesma linha de pensamento, conheço muito bom intérprete que só é mesmo bom a serrar o presunto e depois quando chega ao groove, como se diz pelo Norte, fornicavas-te. Pois é, somos um povo educado.

Só mesmo para rematar, não estou a dizer que têm de gostar de nu-metal ou que têm de se vestir à Oli Sykes e ir para o VOA berrar as letras do novo álbum em plenos pulmões. Mas peço respeitosamente que se deixem de merdas e respeitem, não só porque não é feito para vocês, mas porque significou e significa muito para os jovens na altura e para os de agora, sendo graças a essas bandas que milhares, tal como eu, começaram a gostar de metal. E isso continua a ser verdade, apesar da maioria dos meus contemporâneos esconderem isso como quem esconde um cadáver de groupie debaixo da cama, porque Odin nos livre de perderem a aprovação dos verdadeiros do aço, que por sua vez têm os seus próprios cadáveres para esconder. Se querem mesmo sentir-se superiores com base em ninharias para alimentar o ego, façam como as pessoas normais e formem uma banda.

(Ricardo Pereira, autor do artigo, é vocalista dos Moonshade.)