“Vile Nilotic Rites” é um disco individualista e inconfundivelmente Nile em todos os sentidos. Entre tantos e tantos trabalhos de death metal lançados em... Nile “Vile Nilotic Rites”

Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 01.11.2019
Género: death metal
Nota: 4.5/5

Quatro anos. Foi este o tempo que demorou para que os Nile lançassem “Vile Nilotic Rites”. Quatro anos pode parecer um intervalo normal para uma banda de death metal de topo lançar um novo disco: entre os álbuns existem digressões, ensaios de músicas antigas e futuras, viagens constantes e, claro, a vida pessoal de cada membro. Contudo, quatro anos na carreira dos Nile geralmente significam dois discos, não um; logo, é normal que os fãs estivessem à espera do novo ritual com o heka à esquerda e o nejej à direita. O que certamente eles não esperavam era que a primeira oferta que a Nuclear Blast descerrou  fosse um teaser tão granítico como o apresentado e que serviu de introdução a “Vile Nilotic Rites”. «George Kollias em esteroides», disse alguém. «O Karl Sanders é um guitarrista incrível», disse um outro. «Este novo vocalista é perfeito. É doutro nível!», adicionou um terceiro fã. Parece que quem espera sempre alcança.

“Vile Nilotic Rites” é pouco menos que perfeito. O sangue novo que agora circula nas guelras da banda permitiu que os Nile não se tornassem numa lenda do passado, mas numa certeza presente, algo que é bastante audível neste novo trabalho. Tudo começa com “Long Shadows Of Dread”, o teaser inicial acima referido que nos faz sorrir porque reparamos imediatamente que os Nile dos tempos de “Black Seeds Of Vengeance” estão de volta e renovados – trazem-nos aquela sensação de emoção perdida e com que nos presentearam no passado, mas sempre com os toques clássicos a dominarem a oferenda: o omnipresente modo frígio, as estruturas e escalas erráticas e complexas, os toques sinfónicos (sinos, por exemplo), solos magistrais… Já estão com saudades? As novidades centram-se na entrada de Brad Parris (baixo) e Brian Kingsland (guitarra e voz, ex-Rites To Sedition). Estas alterações traduzem-se nuns Nile mais actuais, rejuvenescidos e com a mesma fome do princípio.

Para não variar, a seguir a um tema rápido, outro ainda más rápido. “Oxford Handbook Of Savage Genocidal Warfare”atira-nos de cabeça em direcção a “In Their Darkened Shrines” e “Annihilation Of The Wicked”. Em pouco mais de três minutos, os Nile piscam o olho ao passado, mas sempre com a cabeça bem assente no presente. O trabalho de composição de Mestre Sanders é inconfundível, bem como o holocausto percussivo de George Kollias. Seguindo a fórmula clássica dos Nile, o tempo abranda com a faixa título que mescla guitarras arrastadas e monolíticas inicialmente para, a meio, regressar ao caos primordial dos discos iniciais anteriormente mencionados. O mesmo sucede com “Seven Horns Of War”, um tema épico de quase nove minutos, lento a princípio e que gradualmente acelera, e em que a banda volta a usar e abusar de elementos sinfónicos, e o trabalho de Sanders e Kollias brilha como em mais nenhuma música do novo registo. Embora muito técnicos e agressivos, cada tema tem uma marca que se cola ao ouvido e que de lá não volta a sair, o que é raro dado o género.

Um excelente exemplodisso é o interlúdio“Thus Sayeth The Parasites Of The Mind”, um instrumental de transição com menos de dois minutos que reflecte os Nile clássicos: quando ouvimos Sanders a tocar inspiradamente a sua bağlama saz, os coros femininos e os arranjos orientais de percussão, sabemos que estamos perante o produto original. A percussão oriental continua de forma mais militarista no tema seguinte, “Where Is The Wrathful Sky”, ao passo que a bağlama saz reaparece em todo o seu esplendor no épico que se segue, “The Imperishable Stars Are Sickened”, com direito a experimentalismo com este instrumento, sempre sem descurar um death metal agressivo como mais nenhum. Kollias junta-se novamente a Sanders e, com a sua percussão ritualista, abre uma vez mais o livro dos mortos. “We Are Cursed” encerra o registo com mais arrasto e peso, bem como arranjos sinfónicos adequados ao tema que os Nile oferecem. Contas feitas, os Nile poliram a sua fórmula de sempre e injectaram-lhe uma concentração rara de se ver, com os quatro membros a remarem Nilo dentro cadenciadamente, todos reunindo esforços para que o resultado não fique abaixo de assinalável. E não fica. Quem conhece a banda sabe que ‘aceitável’ é o mesmo que ‘miserável’; logo, o cuidado com cada detalhe não chega sequer a ser uma mais-valia, antes um hábito. Mas existe uma mais-valia, que reside na entrega total dos Nile como já há muito não se via. Embora nunca tivessem sido músicos amadores, nota-se um crescimento exponencial da parte destes Nile, que não só tocam death metal animalesco e técnico, como agora acrescentam mais melodia e música propriamente dita, com mais regras e mais estruturas clássicas. Posto tudo isto, “Vile Nilotic Rites” é um disco individualista e inconfundivelmente Nile em todos os sentidos. Entre tantos e tantos trabalhos de death metal lançados em 2019, nenhum conseguiu ainda ter a expressividade deste. Provavelmente, nenhum conseguirá.