Lentamente, a cada nova audição do álbum, vemos as suas formas poliédricas encaixarem-se numa harmonia abstracta, no negro polido vemos reflexos de muitas outras... Nero Di Marte “Immoto”

Editora: Season Of Mist
Data de lançamento: 24.01.2020
Género: post-metal / experimental
Nota: 4.5/5

Negro de Marte é um pigmento proveniente da magnetita e “Immoto” poderia chamar-se de magnetita, porque é negro, opaco, denso, de formas angulares e rico em metal. É também um álbum duro, desafiando-nos a resistir às múltiplas dissonâncias ou às longas e retorcidas etapas que compõem as suas faixas. Contrariando o mundo da instantaneidade, do desapego e da alienação, “Immoto” pede-nos foco, tempo e devoção. Mas a entrega será generosamente recompensada com fascinantes viagens através da sua música bellissima.

Cinco anos passados desde “Derivae”, os Nero Di Marte presenteiam-nos agora com uma obra que descerra o amadurecimento da sua individualidade A voz é, talvez, o elemento que melhor isso reflecte. Se em vários momentos dos álbuns anteriores era evidente a aproximação às suas influências, em “Immoto”, Sean Worrell revela-nos como apurou o seu próprio estilo, parecendo mais confortável, e trá-lo como mais-valia para as composições. Usa menos os sons guturais (que já sobejam no metal) e explora mais as nuances expressivas da sua voz, conferindo-lhe uma enorme versatilidade. Vocais límpidos ou uma assombrosa expiração dão logo lugar à aspereza e aos tons demoníacos, acentuando o dramatismo deste álbum. A complementar, as proximidades que a língua italiana tem com o latim e que o metal tem com a música clássica fazem com que as palavras em italiano soem nas músicas de Nero Di Marte como um requintado ornamento.

Por sua vez, o corpo instrumental da banda está cada vez mais consistente, partilhando agora os seus vórtices melódicos com o novo baterista Giulio Galati, cuja avidez marca bem a identidade do álbum. O baixo assume também uma forte posição, contribuindo nas melodias e garantindo que a música se mantém pesada com graves espessos em denominador comum das várias músicas. Os riffs mantêm-se imprevisíveis e bizarros, nos quais se exibe soberbamente o tecnicismo do dueto de guitarristas. Contudo, o exímio sentido compositivo da banda continua a prevalecer, garantindo sempre o controlo e a harmonia das composições, mesmo das mais intrincadas.

Ao contrário de “Derivae”, que reuniu consenso sobre a qualidade e relevância desta banda, “Immoto” é de carácter antagónico, pois entrega-nos um outro tipo de heavy construído pela densidade emocional. A excelente produção, a diversidade das músicas e a sempre presente dicotomia calma/tempestade fazem com que o álbum tenha um bom equilíbrio. Nero Di Marte é sinónimo de crescendo e a sua repetição pode ser, por vezes, previsível, mas a banda fá-lo com tal perfeição que leva-nos sempre a ansiar por mais. Faixas como a homónima, “Semicerchi” e “Irradia” terminam com essa fórmula mas, até lá, enveredam pelo lado experimental, sendo ricas em ritmos lentos, tensos e angustiantes, nos quais até o silêncio encontra protagonismo. A contrastar, a banda continua a trazer-nos desconcertantes explosões sonoras e tempos alucinantes suportados por uma secção rítmica frenética e esmagadora, como anuncia “Sisyphos”. No âmago do álbum, temos “La Casa del Diavolo” que é tudo isto e ainda mais: à brutalidade associa-se uma melodia capciosa e tenebrosa, que facilmente fará almas reféns.

Para alguns, os segmentos de ambientes experimentais podem demonstrar-se demasiado longos, mas o “Immoto” é tão refinado que mesmo para essas sensibilidades tem músicas adequadas. Aquando o lançamento do single “La Fuga”, a banda explicou como procurou compor músicas mais curtas, um exercício que resulta em composições mais depuradas e acessíveis como são “L’Arca” e “Semicerchi”.

Todas as músicas são composições relevantes, mas há algo de estranho na sua disposição: se “Semicerchi” e “Irradia” constroem espaço em redor da monumental “La Casa del Diavolo”, já ahomónima está colocada como terceira faixa. Sendo a mais longa do álbum, a menos óbvia e porque apreciá-la devidamente é uma sápida conquista, seria expectável que encerrasse o álbum. Seria lógica a sua troca com “La Fuga”, mas sabemos como os Nero DI Marte são mestres em desafiar-nos a razão…

Lentamente, a cada nova audição do álbum, vemos as suas formas poliédricas encaixarem-se numa harmonia abstracta, no negro polido vemos reflexos de muitas outras cores, encontramos quietude no obscuro, na agressividade sentimos alívio. É então que compreendemos “Immoto” e o seu enorme magnetismo.

Estamos ainda em Janeiro e, para 2020, estão previstos novos álbuns de várias bandas amplamente reconhecidas. É provável que, sendo tão hermético, “Immoto” passe despercebido para muitos, mas ficará como fasquia para os demais. Se essas bandas nos premiarem com álbuns deste nível, teremos um ano extraordinário para o metal.