Depois de dois discos muito bem recebidos, os My Dying Bride passaram os últimos cinco anos a braços com a saída de alguns membros... Aaron Stainthorpe (MDB): «Todo o trabalho em estúdio foi um pesadelo para mim, tão difícil voltar a isto»
Foto: John Steel

«Com a ajuda de toda a gente conseguimos criar um bom álbum. Foi um período difícil, mas esperamos que o sol brilhe no futuro.»

Aaron Stainthorpe

Depois de discos muito bem recebidos, como “A Map of All Our Failures” e “Feel the Misery”, os My Dying Bride passaram os últimos cinco anos a braços com a saída de alguns membros e com o vocalista Aaron Stainthorpe a ver a sua filha, ainda criança, a lutar contra um cancro. Agora que surgem com o novo trabalho “The Ghost of Orion”, a Metal Hammer Portugal falou com o frontman da banda britânica e questionou-o imediatamente sobre a possibilidade de os My Dying Bride terem estado próximos de acabar. «Penso que não estaria, porque, embora eu tenha considerado sair, o Andrew [Craighan, guitarra] é o outro único membro original e penso que ele continuaria porque o seu amor por My Dying Bride é muito forte. Sim, considerei sair. Mas mesmo quando a minha filha começou a melhorar e quando voltei ao estúdio para começar a gravar as vozes, foi muito difícil e odiei cantar neste álbum. Todo o trabalho em estúdio foi um pesadelo para mim, tão difícil voltar a isto, quase senti que ia sair quando voltámos a gravar. Foi um período muito duro, e estou a batalhar para voltar a estar totalmente ligado a My Dying Bride, mas está a surgir. Ainda não estou totalmente ligado à banda, mas o tempo cura tudo e tenho a certeza de que quando começámos os ensaios e quando começámos a conhecer melhor os novos membros e quando eu assentar com as músicas, estarei mais confortável e ligado à banda novamente.»

Afirmando na sua resposta anterior que todo o processo de “The Ghost of Orion” foi um pesadelo para si, perguntámos a Stainthorpe se viu nos novos colegas um alento, um auxílio, para que não se se sentisse abandonado, para que conseguisse voltar a ligar-se à banda que ajudou a fundar, elogiando assim o baterista Jeff Singer, o guitarrista Neil Blanchett e o produtor Mark Mynett. «Ajudou com o baterista Jeff [Singer], porque ele juntou-se no início das gravações e é bom ter uma cara nova. O Jeff apoiou muito. O Jeff tem três filhos, portanto ele entendeu o que é ter familiares, mas, obviamente, não sabia o que é ter familiares que estavam virtualmente a morrer. O Jeff apoiou muito durante todo o processo de gravação, o que é óptimo, por isso fiz um novo amigo. O Neil [Blanchett, guitarra] juntou-se depois das gravações, portanto ele não estava lá, para ser honesto. Conheci o Neil há cerca de 25 anos, quando éramos miúdos e íamos ao mesmos concertos de rock. Foi bom voltar a ter uma ligação com o Neil depois deste tempo todo. Temos dois novos rapazes… Na verdade, três, porque o Mark [Mynnet], o engenheiro do estúdio, também deu muito apoio durante todo o processo de gravação e houve uma amizade tão forte que o Mark vem connosco em digressão para fazer o som ao vivo. Tive muito apoio, especialmente do Andrew, obviamente – conhecemo-nos há 35 anos. Com a ajuda de toda a gente conseguimos criar um bom álbum. Foi um período difícil, mas esperamos que o sol brilhe no futuro.»

Colega de banda e amigo de longa-data, seria de esperar que o guitarrista Andrew Craighan fosse um grande apoio para Aaron Stainthorpe, algo que o vocalista confirma, contando como é que Andrew actuou neste período conturbado e revelando que os laços de amizade ficaram ainda mais fortes. «Claro que ele me ia apoiar, já nos conhecemos há tanto tempo. Mas não interferiu demasiado. Claro que ia perguntando como é que as coisas progrediam, mandava-me malhas de guitarra de vez em quando e fazia-me saber como é o que álbum estava a progredir, e quando as gravações começaram fez-me saber que o Jeff estava a fazer um trabalho muito bom, a Lena [Abé, baixo] fazia a sua parte, tínhamos os violinos. Manteve-me actualizado, porque, obviamente, eu não estava no estúdio. O Andrew apoiou muito. Veio ao hospital. Foi bom ter pessoas assim, é importante ter pessoas assim na vida, porque são de ouro e podes confiar nestas pessoas. Fortaleceu a nossa amizade. Já era uma amizade forte, mas agora ficámos ainda mais próximos. E pode-se argumentar que, talvez, se eu saísse, o Andrew podia pôr termo a My Dying Bride. Porque ele disse que seria difícil continuar sem mim. Não sabemos, é uma coisa que não se sabe, mas felizmente estou de volta a My Dying Bride e estamos a progredir muito bem.»

À semelhança do álbum anterior, Andrew compôs “The Ghost of Orion” praticamente em isolamento, tendo posteriormente recebido conselhos da baixista Lena Abé e do teclista e violinista Shawn Macgowan. De fora de todo esse processo para estar próximo da filha, Stainthorpe não poupa elogios artísticos e criativos a Andrew Craighan. «Bem, [as músicas] eram muito melhores do que eu estava à espera. Embora, para ser honesto, o Andrew também compôs todas as guitarras e a maioria das músicas do álbum anterior, o “Feel the Misery”, e foi um álbum fantástico e teve das melhores reviews da nossa carreira inteira. Portanto, ele sabe, obviamente, como compor uma boa música. Sabia o que álbum estava em mãos muito capazes. Quando ele compõe, assegura que não se mantém em isolamento, enviará as músicas à Lena e ao Shawn só para ter a certeza que está a fazer a coisa certa e para não ir em direcção a um género estranho e diferente. Também sondou algumas ideias vindas deles, e com a ajuda de toda a gente compôs o álbum. Soa imenso. Ele sabe como compor uma malha doom do caraças! E porque são só as suas guitarras, ele sabe como fazer as harmonias correctas, o tempo exacto que cada canção deve ter… Acho que foi um prazer enorme para ele. Acho que se qualquer guitarrista tiver a hipótese de fazer todas as guitarras num só álbum, adorará isso, sem ter que ouvir as malhas de outra pessoa, apenas criar as suas próprias malhas… Deve ser o sonho de um guitarrista!»

Algo diferente do que têm feito nos últimos 10 anos, “The Ghost of Orion” não é complexo como “Feel the Misery”. Mantendo a sonoridade própria de My Dying Bride, porque as malhas de Andrew e a voz de Aaron são inconfundíveis, o novo disco dos britânicos é mais simples e directo, algo que o nosso entrevistado diz ter sido feito propositadamente antes de ingressarem nas fileiras da Nuclear Blast. «Fizemo-lo de propósito. Mesmo quando ainda estávamos na Peaceville Records, eu e o Andrew decidimos que o próximo álbum seria mais acessível, menos complexo. Ainda que bastante maldisposto, com muita atmosfera, muito pesado, queríamos uma produção altamente polida… E assim falámos sobre isto há muito tempo. Sabíamos o que íamos fazer. Não planeámos. Não planeias como as malhas vão ser exactamente. Queríamos que fosse mais acessível. Compomos discos e músicas há 30 anos, sentimos que era altura de relaxar um pouco e ir com a corrente das músicas e tentar não ser tão complicado como fomos no passado. Tomámos essa decisão consciente. Sei que algumas pessoas dizem que agora, que My Dying Bride mudou para Nuclear Blast, vai ficar mais suavizado, mas já o tínhamos decidido antes de irmos para a Nuclear Blast, portanto nem há uma ligação. Tentámos fazer um álbum que fosse mais comercial, mais cativante, com mais refrãos do que fizemos antes. Quase como uma experiência. Quase se pode dizer que “The Ghost of Orion” é uma experiência em comercialismo. Quisemos tentar e fizemo-lo. O próximo álbum pode voltar ao material complicado, ainda não temos uma ideia. Quisemos experimentar isto e fizemo-lo, e esperamos que muitas pessoas gostem. Claro que os fãs mais duros provavelmente não vão gostar, mas alguns dos fãs mais duros não gostam de todos os álbuns à excepção de “Turn Loose the Swans”. Não há nada que possamos fazer para satisfazer os fãs verdadeiramente mais duros. Enquanto conseguirmos satisfazer-nos a nós próprios, acho que isso é muito importante.»

Considerado um dos letristas mais sensacionais, não só do doom mas também de todo o universo metal, as palavras em verso de Stainthorpe são facilmente transformadas numa pintura, numa paisagem ou numa cena de um qualquer filme obscuro. Da possível confusão das primeiras ideias ao resultado final, o vocalista fala-nos um pouco do seu processo e revela que está a juntar todos os seus escritos para lançar um livro brevemente. «Depende de quem lê. Quando escrevo, não penso em poesia, não penso em letras, não penso em minicontos ou qualquer coisa. Apenas escrevo coisas que preciso de escrever. Estas palavras estão todas na minha cabeça e preciso de tirá-las da minha cabeça ou fico maluco. Escrevo a toda a hora. Às vezes, quando olho para o que está escrito, penso que talvez pareça um poema, por isso chamo-lhe um poema. Se outras pessoas lerem, podem achar que não são poemas, pode ser mais um miniconto ou lê-se mais como uma letra de My Dying Bride. Como disseste, algumas pessoas podem considerar as letras de My Dying Bride como poemas, por isso depende de quem está a ler as letras e não o que eu digo às pessoas do que se trata. Neste momento estou a juntar todas as minhas letras, porque gostava de publicar um livro brevemente, no fim deste ano ou em 2021, com todos os meus escritos. Sim, acho que algumas pessoas consideram ser poesia. Há algumas peças sobre as quais eu disse abertamente que são um poema e, por isso, obviamente, é um poema. Vou encher este livro com os meus pensamentos e ideias e letras, e vou deixar que outras pessoas decidam se é bom, mau ou horrível ou poesia ou apenas uma confusão.»

“The Ghost of Orion” é o título do novo álbum dos My Dying Bride e tem data de lançamento a 6 de Março pela Nuclear Blast.