“Hermitage” é para se ouvir como um todo, do princípio ao fim, com esmerada atenção e paixão. Moonspell “Hermitage”

Editora: Napalm Records / Alma Mater Records
Data de lançamento: 26.02.2021
Género: dark/gothic metal
Nota: 4/5

“Hermitage” é para se ouvir como um todo, do princípio ao fim, com esmerada atenção e paixão.

Banda com maior expressão mundial no que ao metal português diz respeito, os Moonspell são pura e simplesmente camaleões, muito fruto de onde vêm, daqueles primeiros anos da década de 1990 que obrigaram à reinvenção e donde saíram ícones do apelidado dark metal, como Paradise Lost e Tiamat. Do black metal ao gothic metal, passando pela inclusão de elementos electrónicos e industriais, os Moonspell sempre se revolucionaram, umas vezes porque quiseram, outras porque teve de ser.

Trinta anos depois da fundação, o novo álbum “Hermitage” vem provar que a banda da Brandoa não gosta de estar muito tempo no mesmo sítio no que toca a criatividade, e por mais que alguns círculos se fechem – “Memorial” recuperou algum do passado inicial, “Extinct” reactivou a faceta gótica –, outros voltam-se a abrir, mesmo que sempre dentro do plano desenvolvido à volta de uma assinatura muito particular.

Depois do portento que foi “1755”, os Moonspell a modos que voltam a arrancar de onde “Extinct” parou, mas de forma mais abrangente, sem limites e mais adulta, esta que é talvez uma palavra forte demais para uma banda que apresenta uma longuíssima carreira em que os sucessos acabam por ofuscar os momentos menos bons.

As duas primeiras faixas, “The Greater Good” e “Common Prayers” (que foram também os dois primeiros singles), com todas as suas novidades, tendem a continuar a pertencer ao espectro mais normal dos Moonspell, mas a coisa começa definitivamente a mudar de figura com a calma e a melancolia de “All or Nothing”. Posto isto, o que se segue é uma sofisticação nunca antes ouvida em Moonspell, provando que os três singles foram apenas um mero engodo para o peixe graúdo que nada em “Hermitage”.

Com a produção de Jaime Gomez Arellano (Paradise Lost, Ulver, Mayhem, entre outros) a fazer brilhar todos os elementos, com detalhado foco para a presença groove e encorpada do baixo de Aires Pereira, Hugo Ribeiro mostra ter sido uma aposta ganha para ocupar a vaga a deixada por Mike Gaspar na bateria, mas, e sem querermos dividir o todo que forma Moonspell, é Fernando Ribeiro, Ricardo Amorim e Pedro Paixão quem maior destaque obtêm.

No departamento vocal, Ribeiro volta a cantar mais do que a berrar (à semelhança de “Sin/Pecado” e “The Butterfly Effect”), mas quando o faz prefere uma explosão mais aberta e altiva do que gutural e fechada, a fazer lembrar a sua prestação no EP “Under the Moonspell”, lançado no já longínquo ano de 1994. Em complemento, encontramos novas opções melódicas na aplicação da voz limpa, com mais suavidade e clareza, e harmonias vocais partilhadas com Amorim, o que não é muito habitual em Moonspell e que assenta perfeita e lindamente.

Quanto à guitarra e aos teclados – vamos aqui unir os dois instrumentos –, Amorim e Paixão receberam carta branca para fazerem o que bem entendem. O resultado é uma sinergia imaculada entre os dois principais compositores de Moonspell, o que abriu novas portas nunca antes tão escancaradas como agora – e ainda bem!

Amorim não esquece que tem de compor riffs à Moonspell, e disso há a rodos por todo o álbum, mas o homem das seis cordas estende toda uma nova tapeçaria quando evoca o blues de uma guitarra limpa e cintilante ou leads/solos embebidos de antecipação e alguma solidão como se de um David Gilmour se tratasse. Para muitos pode não ser a prestação de uma vida, nem nada extremamente complexo a nível técnico – a paleta criativa do guitarrista é vasta, convenhamos –, mas encaixar tudo isto em Moonspell com cabeça, tronco e membros é alvo de um louvor sem contestação.

Para completar a dita sinergia, Paixão puxou dos galões de compositor e pensador da música para gerar um intenso corpo de sensações e paisagens através de uma variedade de sons e teclados. De ambiências etéreas à Pink Floyd e Porcupine Tree (“Entitlement”), passando por elementos sci-fi e space-rock (“Without Rule”), o que o músico produz ao longo de 11 faixas é a chave para que “Hermitage” funcione na sua plenitude. Como o colega guitarrista, Paixão demonstra também ter a mestria para inserir o supostamente impensável se fizermos uma retrospectiva à discografia dos Moonspell, o que, mesmo assim, não deveria ser novidade para a maioria se recordarmos o seu esforço praticamente unilateral quando compôs o mais electrónico “The Butterfly Effect” no final do Séc. XX.

“Hermitage”, com todo o seu teor urgente versus alarmista versus introspectivo e com os adequados conceitos eremitas (com os quais retratam o estado do mundo e o caminhar para vidas cada vez mais solitárias, ora porque se quer, ora porque somos involuntariamente obrigados), não é um disco para se ouvir levianamente. É preciso paciência e repouso, é necessária uma digestão meticulosa que nos fará perceber que os Moonspell conseguiram um feito cada vez mais complicado de se atingir: “Hermitage” não vale apenas pelos singles e não é para se ouvir de maneira fragmentada, “Hermitage” é para se ouvir como um todo, do princípio ao fim, com esmerada atenção e paixão – só assim funciona. Se é uma vitória instantânea, tal é difícil de dizer, mas, como outros álbuns que demoraram quase duas décadas para receberem o merecido crédito, “Hermitage” não só é um espelho do momento como daqui a uns anos será considerado uma pérola descoberta por uns Moonspell sem medo e em constante evolução. Quantas bandas com 30 anos de carreira, ou mais, têm a coragem de se reinventarem a todo o momento? Pois.

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Abaixo podes ouvir a entrevista a Fernando Ribeiro.