Abjecto a rótulos sonoros, o baterista Esben Willems fala do desconforto que sente em relação à forma como a religião é vivida e da... Esben Willems (Monolord): «Não me sinto desconfortável no mundo, mas sinto-me desconfortável com a crença em fantasmas e contos de fadas»

Abjecto a rótulos sonoros, o baterista Esben Willems fala do desconforto que sente em relação à forma como a religião é vivida e da satisfação que é ter a sua banda e sonoridade reconhecidas.

Foto: Ester Segarra

“No Comfort” é um álbum muito emotivo e o título é muito adequado em relação ao que ouvimos nele. Quão desconfortável te sentes com o mundo?
Eu vejo o título do álbum mais como um questionamento da tenaz necessidade da humanidade em buscar conforto em construções imaginárias, como a religião, onde há apenas conforto imaginário. O verdadeiro conforto é encontrado entre nós, entre pessoas reais que realmente existem. Por exemplo, as orações não são mais do que jogos mentais preguiçosos e auto-afirmativos que não afectam absolutamente nada o mundo real. Não há deuses, existem apenas companheiros humanos. Verdadeira compaixão, amor, ajuda e conforto só podem ser encontrados em cada um de nós. Não me sinto desconfortável no mundo, mas sinto-me muito desconfortável com a crença de que fantasmas e contos de fadas devem fazer parte da política, educação ou da básica necessidade humana de nos sentirmos seguros e amados.

Quanto da tua experiência de vida colocaste no disco?
Diria que qualquer músico dedicado usa toda a sua experiência de vida ao fazer música. A meu ver, o que se passou na vida – bom e mau – fez de ti a pessoa que és hoje, a pessoa que compõe e toca essa música.

Enquanto álbum de doom metal, não sentimos que “No Comfort” seja negro e sombrio, mas é muito desolador, solitário e triste. Concordas?
Nunca discutimos a nossa música em termos de géneros; falamos sempre sobre isso em termos do que sentimos que o som da banda é. Para mim, os rótulos são limitantes e criativamente desinteressantes. Disto isto, fico muito feliz por saber que entendem essas emoções no álbum. Eu também.

Como foi a experiência durante a gravação?
Interessante, para dizer o mínimo. Esta foi a primeira vez em que trabalhámos com alguém de fora da banda durante o processo de gravação. É extremamente desafiador deixar entrar alguém no que parece ser muito pessoal e privado, mas acho que foi um desafio que contribuiu muito para o resultado final. Fazer um álbum é sempre difícil – exaltação, dúvida própria, exaltação de novo, desespero, perguntas se devemos continuar a tocar, de volta a breves momentos de satisfação. É insano. [risos]

Quanto de homem e arte se tornaram um só?
Penso que se é sempre uno com a arte que se cria. A nossa música soa como soa porque fomos nós a fazê-la; soaria diferente se fosse tocada por outra pessoa. Também acho que a maneira como se faz o que faz está sempre em mudança. O “Empress Rising” [álbum de 2014] não soa da mesma maneira agora como quando o tocámos pela primeira vez, só para se ter um exemplo básico.

Muitas bandas com um som semelhante a Monolord tendem a ser muito ruidosas e, às vezes, há muita confusão em termos de som. A distorção e o peso são sentidos por todo o lado em “No Comfort”, mas com grande gestão em relação à produção. Foi um dos maiores objectivos alcançados?
Fico muito contente por saber que gostaram da produção – muito obrigado. Trabalhamos constantemente para refinar o nosso som ao vivo, e o som ao vivo é sempre o que tentamos representar quando gravamos. O nosso objectivo é ter sons individuais que se complementem, fazendo com que a banda soe como um todo maior do que a soma das suas partes. Se alguém achar que o tom do baixo é massivo, o tom da guitarra é sujo, as vozes são etéreas ou a bateria é um tumulto estrondoso, então isso é graças à paisagem sonora combinada entre nós os três. Não soaríamos assim individualmente e eu gosto muito disso – acho que esse é o maior poder de uma banda.

É óptimo como misturam stoner metal e doom metal tradicional. Quero dizer, há a distorção gorda que nos faz lembrar o stoner e, de seguida, os leads/solos melódicos recordam-nos do lado tradicional do doom metal. Sendo que vocês são uma parte da evolução do doom metal e tão contemporâneos, quão satisfeito ficas por ter uma banda como a Monolord a destacar-se?
Deixando os géneros de lado, é incrível tocar numa banda em que gente como vocês considera fazer parte de qualquer tipo de evolução musical. É uma sensação indescritível criar música na pequena bolha da banda e depois obter a recepção calorosa que recebemos quando a tocamos. É um sentimento que nunca cansa.

“No Comfort” tem lançamento a 20 de Setembro pela Relapse Records.