"Working with God" regista mais uma curva ascendente acentuada na carreira dos Melvins – em linguagem mais corrente, é um álbum... Melvins 1983 “Working with God”

Editora: Ipecac Recordings
Data de lançamento: 26.02.2021
Género: rock
Nota: 4/5

“Working with God” regista mais uma curva ascendente acentuada na carreira dos Melvins – em linguagem mais corrente, é um álbum do caraças!

Sabem aquela sensação de miséria e ansiedade constante que, de um minuto para o outro, devido a um motivo qualquer, muda para um clima de esperança e fé no futuro? A primeira sensação é o binómio 2020/2021 por tudo o que tão bem sabemos; a segunda, que quase nos faz esquecer a primeira, é “Working with God” dos Melvins 1983.

“Espera aí, mas é uma banda nova ou são os Melvins de sempre?”, poderás perguntar. A resposta é simples – “sim”. Apresentada como a banda com a formação mais próxima da sua forma clássica que alguma vez obteremos, os Melvins 1983 são os Melvins que conhecemos, com Osbourne e Crover a capitanear a jangada feita de palitos colados com pastilha elástica, mas com o auxílio do baterista Mike Dillard. Em que é que isso altera o som de marca dos Washingtonianos? Pergunta matreira. Tanto podemos responder que em nada altera, o que seria mentira, como podemos afirmar que “Working with God” tem um som de heavy metal e rock moderno, o que é verdade. Mas ambas são verdades. E ambas são mentiras. E é isto que um disco dos Melvins 1983 transmite – incerteza e segurança. Já te trocámos as voltas o suficiente? Óptimo!

“Working with God” (ou “The Fuck Album”, como lhe passámos a chamar na redacção) inicia com a reinvenção da seminal “I Get Around”, dos Beach Boys, aptamente reintitulada de “I Fuck Around”. Claro que os 73 “fuck” que constam neste tema não estão directamente relacionados com o nome com que rebaptizámos o disco, é tudo pura coincidência… Já o facto de os Melvins regravarem versões de temas clássicos não é novidade: Kiss, MC5, Alice Cooper, The Beatles e tantos e tantos outros foram revisitados ao longo das décadas, apenas nenhum de forma tão escatológica. Como se não bastasse a catchiness do original, fielmente reproduzido, adicionar-lhe “fuck” a torto e a direito dá-lhe um maior requinte.

“Negative No No” tem os genes que encontramos em “Houdini” e “Gluey Porch Treatments”, um tema pesado, stoner, a lembrar Black Sabbath e (surpresa, surpresa) toques de Type O Negative. Mas é “Bouncing Rick” que se destaca de todas as restantes, muito devido ao piscar de olho à New Wave Of American Heavy Metal. Já todos sabemos que os Melvins foram uma influência fundamental para qualquer banda de rock oriunda dos States pós-1991: num momento ou noutro, Nirvana, Soundgarden, Faith No More, Mastodon e Lamb of God ajoelharam-se perante o rei Buzz e o rei Crover e, quando se levantaram, fizeram-no como paladinos defensores do rock. Assim, é feliz constatar a homenagem dos Melvins a essas bandas em “Bouncing Rick”. Podemos dizer o mesmo de “Boy Mike”.

Somos reapresentados ao humor juvenil típico dos Melvins a cada instante de “Working with God”, seja com o primeiro tema, seja com “Brian, the Horse-Faced Goon”, seja com “1 Fuck You”, um tema feelgoodque começa com o ternurento verso «you’re breaking my heart, you tear it apart, so fuck you – you’re kicking my ass, you’re breaking my bass, so fuck you». Claro que depois de “1 Fuck You” vem o tema “Fuck You”. Por esta altura, já contabilizámos cerca de 100 “fuck”, um número bonito, comemorativo, cheio de classe. É assim o humor dos Melvins e nem o imaginamos de outra forma.

O core de “Working with God” é a guitarra, rainha e senhora do princípio ao fim do disco. Ora mais sludge, ora mais stoner, ora mais heavy metal, ora mais rock, o ênfase depositado nas seis cordas é total. Tudo o mais acompanha-a, nunca liderando. A final “Hund” é provavelmente a faixa mais explorada por ela, desdobrando-se em diversos tons mais ou menos pesados que exprimem a sua importância. “Working with God” é um disco pleno de vitalidade como já não ouvíamos desde “Houdini”. Quem conhece a banda sabe que “Houdini” é o seu pináculo e que daí em diante seria sempre a descer, mesmo que mais ou menos moderadamente. “Working with God” regista mais uma curva ascendente acentuada na carreira dos Melvins – em linguagem mais corrente, é um álbum do caraças!