Os eventos retratados no filme “Lords of Chaos”, por mais chocantes que possam ser, estão longe de definir a identidade musical desta besta que... Teloch (Mayhem): «Não gostei mesmo nada de “Deathcrush” e achei que era uma merda»
Fotografia: Stefan Raduta

Os eventos retratados no filme “Lords of Chaos”, por mais chocantes que possam ser, estão longe de definir a identidade musical desta besta que é Mayhem. Com a origem do black metal e a génese dos Mayhem a apresentarem-se como faces diferentes da mesma moeda, o colectivo norueguês regressa com “Daemon” para cumprir a premissa de que são incapazes de lançar dois álbuns iguais. Num percurso que se iniciou em 1987 com “Deathcrush” e que se desenvolveu até aos dias de hoje, os Mayhem dão continuidade à missão de desafiar a ortodoxia de um género que ajudaram a criar.

«Não gostei mesmo nada de “Deathcrush” e achei que era uma merda.»

“Daemon” assinala o regresso da banda a uma fórmula mais básica e reconhecível de black metal, com um nível de fluidez a superiorizar os seus antecessores e a desbravar novos territórios sónicos que trarão o legado do passado ao presente das novas gerações. Teloch, guitarrista e principal compositor deste novo registo, explica que “Daemon” não é um regresso ao clássico de 1994, “De Mysteriis Dom Sathanas”, mas entende o porquê dos fãs o verem como tal: «O que fizemos foi tornar as músicas mais simples e acessíveis para as pessoas», refere. «Acho que dizem isso porque a voz é semelhante ao “De Mysteriis Dom Sathanas” mas não acho que os riffs ou a atmosfera sejam os mesmos, para ser sincero. Nunca sei de onde vem a inspiração em tudo aquilo que componho mas desta vez tentámos apenas compor temas com atmosferas simples, e foi necessário algum tempo para que as músicas funcionassem. Inicialmente os temas eram demasiado simples e tornavam-se aborrecidos de tocar, mas eventualmente acabámos por encontrar a receita certa para este disco. O Ghul [guitarrista] contribuiu com três músicas neste álbum e foi bom ter essa diversidade. Ele compôs três músicas e eu compus sete, mas não o fizemos em conjunto.»

Teloch afirma não ter visto o filme “Lords of Chaos”, baseado no infame passado algo distante dos Mayhem mas de onde saíram personagens reais que ainda sobrevivem na formação da banda, como Attila Csihar (voz), Necrobutcher (baixo) e Hellhammer (bateria). Não viu o filme, certo, mas ouviu as histórias, e garante que o caos ainda faz parte do dia-a-dia do colectivo. «Bem, é ligeiramente menos caótico quando comparado com os velhos tempos», confessa, «mas ainda existe muito caos no seio da banda. Há algo de novo todos os dias. Há coisas que nunca mudam!»

Numa viagem ao período em que incide “Lords of Chaos”, Teloch, que tornou-se parte integrante da banda apenas em 2011, diz à Metal Hammer Portugal que “Life Eternal”, presente no alinhamento de “De Mysteriis Dom Sathanas”, é o tema que mais prazer lhe dá tocar ao vivo, e aponta o disco de 1994 como aquilo que o fez aceitar o black metal como parte da sua vida, apesar da desilusão manifestada com o EP “Deathcrush”. «Adoro a atmosfera de “Life Eternal” e do riff principal que se repete infinitamente. Repete-se 42 vezes, julgo eu. É mesmo muito longo! Gosto muito do solo e da atmosfera nessa música. Acho que é perfeita! A primeira vez que ouvi Mayhem foi quando lançaram “Deathcrush”. Não gostei mesmo nada do álbum e achei que era uma merda. Mas alguns anos depois editaram “De Mysteriis Dom Sathanas” e fiquei viciado. Foi esse o disco que me ligou à cena black metal, o que foi maravilhoso!»

Prestes a iniciar uma nova década e possíveis novas tendências, poderá a cena black metal dar-nos uma banda tão explosiva e caótica quanto os Mayhem? Teloch responde-nos: «É algo difícil de responder. Diria que é possível mas não ficaria à espera disso, porque os Mayhem são especiais e acho que seria complicado superar a história da banda. Mas quem sabe? Talvez apareçam uns jovens que rebentem com as suas cidades, tirem fotos a tipos mortos e lancem um álbum a seguir. É difícil de dizer. Mas a sociedade está cada vez mais extrema pelo que até pode acontecer.»

O músico norueguês garante que a banda fundada por Euronymous ainda tem muito para oferecer: «Todos os outros membros estão no auge e entusiasmados por levar estes novos temas aos palcos e para gravar novos discos. Não quer dizer que seja no mesmo estilo, mas todos queremos levar o nome dos Mayhem mais adiante.»

“Daemon” foi editado no dia 25 de Outubro pela Century Media. Teloch foi nosso convidado no episódio #8 da Torre de Controlo. Poderás ouvir algumas citações presentes nesta entrevista abaixo:

Rastilho apresenta: Torre de Controlo #8 – Alcest & Mayhem

Esta semana, no Rastilho apresenta: Torre de Controlo, a Metal Hammer Portugal apresenta entrevistas com Neige, dos Alcest, e Teloch, dos The True Mayhem.

Publicado por Metal Hammer Portugal em Sexta-feira, 25 de outubro de 2019